Por Roberto Girola Em Artigos

A ferida primária

O inconsciente é comparável à Caixa de Pandora, na qual, de acordo com o mito, os deuses teriam guardado todos os males do mundo (na mitologia grega Pandora a primeira mulher criada por Zeus). De alguma forma, temos consciência desse repositório misterioso que nos habita e que inspira cuidado e desconfiança, mas nem todos lidam da mesma maneira com ele.

Para alguns, os mais céticos, o inconsciente não é cientificamente detectável, portanto preferem pensar que não existe e vivem ignorando seus sinais, que tentam explicar de outra forma, às vezes menos científica ainda. Outros, embora admitam sua existência, preferem ignorá-lo, buscando soluções paliativas à sua aparição.

Há ainda os que, ao entrarem em contato com suas manifestações, resolvem abrir a Caixa de Pandora e tentar identificar o seu conteúdo, enfrentando o desafio do autoconhecimento. Todo processo de análise (no sentido psicanalítico) comporta esse desafio.

Para alguns o processo é essencialmente prazeroso, pois é comparável à descoberta de um novo universo, complexo e às vezes angustiante, mas rico por colocar a pessoa diante de cenários cada vez mais novos e desafiadores.

Em alguns casos porém, quando os conflitos psíquicos são mais profundos e mais contraditórios e misteriosos, o processo analítico acaba desembocando na descoberta de funcionamentos psíquicos patológicos, que atrapalham o dia a dia, afetando as relações de todo tipo.

Nos casos mais graves, a análise acaba pondo em evidência o que alguns psicanalistas chamam de ferida primária. Trata-se de uma ferida que se constituiu no início do processo de formação do psiquismo, nos primeiros meses de vida, e que se insta na base desse processo, ameaçando-o e desviando-o. Nestes casos, a vida psíquica fica muito mais limitada por causa de síndromes que vão da depressão e da melancolia à bipolaridade, de distúrbios narcísicos a sensações insuportáveis de vazio, de inexistência, de inconsistência e falsidade psíquica.

Na iconografia da tradição cristã, a imagem do ressuscitado (comparável ao paciente analisado), embora radiante, carrega em si as chagas da crucifixão. Podemos ver nisso uma metáfora da ferida primária, nunca abandonada, mas passível de transformação.

Roberto Girola é psicanalista e terapeuta familiar

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Roberto Girola
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