Por Pe. José Carlos Pereira Em Artigos

A lembrança

A saudade é sempre o sinal da presença de uma ausência, dizia Rubem Alves. Quando sentimos saudade é sinal de que algo, ou alguém, é importante para nós, e que deixou em nós algo que nos faz lembrar. Chico Buarque usa uma expressão muito forte para falar da saudade. Ele diz que "a saudade é o revés do parto, saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu". Esse poema traz na nossa memória o gesto daquela mãe, cujo filho havia morrido na guerra, mas que continuava a arrumar o seu quarto todos os dias, como se ele fosse chegar a qualquer momento. A saudade é algo que ficou de alguém que partiu, e não levou tudo o que lhe pertencia.

A mim me toca muito essa expressão porque vivi algo semelhante, embora não tivesse morrido. Quando fui para o seminário, minha mãe manteve o meu quarto do jeito que eu havia deixado: minhas roupas no armário; meu velho chinelo ao lado da cama; alguns dos objetos que deixei nas gavetas; meus cadernos; meus papéis; minhas ferramentas de trabalho etc. E isso não foram apenas alguns meses, foram mais de dez anos. Dez anos depois de eu ter saído de casa eu ainda encontrava minhas coisas como se eu as tinha deixado, como se eu tivesse apenas saído para dar uma volta na cidade e voltado em seguida. Cada vez que eu voltava de férias para casa ou a passeio, esse gesto dela me conferia a sensação de eu nunca ter saído de lá, e eu me sentia literalmente em casa. Isso só se desfez com a sua morte, dois anos depois de eu ter sido ordenado padre, isto é, doze anos depois de eu ter saído de casa. Hoje, quando ouço esta canção do Chico (pedaço de mim) me vem à memória essa imagem de uma mãe cheia de saudade, cujo filho, mesmo distante, ou morto, continua sempre vivo em suas lembranças.

Eu creio que saudade é mais que a presença de uma ausência, é a ausência de uma presença física, porém com a presença espiritual daquelas pessoas que amamos e que nunca morrerão em nossa lembrança, por isso ela se torna real em nossa vida. A presença espiritual é mais forte e marcante que a presença real, porque a presença espiritual nos concede a graça de ter conosco, do jeito que sonhamos ou que desejamos, àqueles que amamos.

Quando amamos uma pessoa, qualquer coisa relacionada a ela serve de pretexto para que esteja presente de alguma forma. Tenho, assim, muitas pessoas presentes na minha vida. Algumas, eu não vejo há anos; outras, eu nunca mais vi nem verei, porque elas já partiram desse mundo, estão noutro plano, mas continuam presentes em presentes que me deram, em palavras que me disseram, em gestos e ações que tiveram, enfim, na presença que fizeram na minha vida em algum momento e de alguma forma. De algumas tenho fotos, de outras as imagens estão guardadas no arquivo da memória e enquanto houver memória, elas estarão lá, como se estivessem fisicamente, eternamente, enquanto durar a memória, a lembrança.

Se você sente, ou já sentiu saudade, sabe muito bem do que eu estou falando. Que tenhamos sempre saudade de alguém, porque a saudade nos faz mais sensíveis e a sensibilidade é fundamental para o ser humano tomar consciência da sua fragilidade e da fragilidade de seus semelhantes, e assim, valorizarmos mais as pessoas enquanto elas estão fisicamente presentes. Portanto, ame o que você tem antes que a vida o ensine a amar o que você teve. Depois não adianta levar flores ao túmulo porque elas não trarão de volta a pessoa que já morreu. A única coisa que a trará de volta será a sua lembrança, mas mesmo assim, você nunca mais a terá presente fisicamente.

 Padre José Carlos Pereira, CP é sociólogo e escritor de mais de 50 livros

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Pe, José Carlos Pereira
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