Por Pe. José Carlos Pereira Em Artigos

Coerência

São várias as passagens bíblicas em que vemos o convite, direta ou indiretamente, para trabalhar na vinha do Senhor. Essa vinha grandiosa, gigantesca que é o mundo, a messe do Senhor, onde nunca falta trabalho, onde há tanto por fazer e tão poucos que se dispõe a fazer algo. Vemos também que existem vários tipos de pessoas dentro e fora dessa vinha, como, por exemplo, aqueles que dizem fazer algo, mas não fazem, e aqueles que não dizem, mas fazem. Com essas duas categorias, ou imagens, somos impelidos a ver com qual delas nós parecemos mais. Leia Mateus 21, 28-32 e faça as seguintes perguntas:

Será que eu me pareço mais com os que apenas falam, mas não agem? Com os que têm belos discursos, respostas para tudo, mas na hora de colocar a "mão na massa" não aparecem? Tem muita gente assim, inclusive dentro das Igrejas. Elas convencem a outros pela oratória, pelo discurso, mas não conte com elas para nada porque elas sempre tiram o corpo fora na hora da ação. Elas simplesmente não comparecerão na hora "H", na hora do trabalho.

Ou sou mais parecido com aquelas pessoas que quando são convidadas dizem não, mas depois refletem e resolvem ajudar? Há também muita gente assim. Às vezes dizem não, ficam em silêncio, mas depois refletem na resposta dada e mudam de ideia e ajudam, embora não tenham dito que faria. Será que conseguimos identificar essas pessoas a nossa volta? Será que eu consigo identificar essa característica em mim?

Há também uma terceira categoria. Essa não aparece no Evangelho supracitado, mas é a principal e é para essa que a parábola deste Evangelho conduz. São aqueles que dizem que vão fazer e fazem. Os que dizem que vão e vão mesmo. São pessoas de palavra, coerentes, fiéis ao seu "Sim". Esses são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática e não ficam apenas dizendo “Senhor, Senhor” por toda parte, ou usando o nome de Deus a qualquer momento, sem se comprometer com ele ou com os seus ensinamentos. É com essa categoria que devemos nos assemelhar, ou nos esforçar para nos assemelharmos. Embora tenhamos dentro de nós um pouco de cada uma dessas características, essa terceira é a que todo cristão deveria ter.

A vinha é grande, há muito por fazer, mas ainda tem muita gente apenas falando e não agindo. Parecem esses candidatos que vemos nos horários gratuitos de propaganda eleitoral, que têm a solução para tudo, mas quando eleitos, simplesmente desaparecem, como desaparecem suas promessas. Como podemos ser diferentes? A resposta está muito clara na Carta aos Filipenses 2, 3: "Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro". Vocês já imaginaram como seria o mundo se todo mundo agisse assim? O reino do céu já estaria entre nós.

Mas não é bem isso o que acontece! Até mesmo dentro das Igrejas as pessoas agem por competição, querendo ser melhores que as outras, menosprezando, diminuindo e até prejudicando outras pessoas para se destacar. Reconhecer a importância do outro então é prática rara. E quando falamos de cuidar do outro? Aí é que as coisas se distorcem mesmo. Muitos “cuidam” da vida do outro para poder ter argumento para prejudicá-lo, e não porque ama o seu semelhante e quer vê-lo bem. É muito triste isso, sobretudo quando se trata de pessoas ditas cristãs! Certa vez perguntaram ao escritor português José Saramago, como poderia pessoas sem Deus serem boas, e ele respondeu perguntando como poderia pessoas com Deus serem más. Sem contar que há ainda aqueles que se julgam no direito de julgar a vida da outra pessoa, dizendo que a sua conduta não é correta, como diz o profeta Ezequiel 18, 25. Faça-me o favor, diz Ezequiel, vê se te enxerga! Olhe primeiro a sua conduta e procure corrigi-la, depois vá corrigir as dos outros! Ou seja, “tire primeiro a trave do teu olho para depois tirar o cisco do olho do teu irmão” (Mt 7,5). Quem corrige a própria conduta não precisa corrigir as dos outros. Seu exemplo é a maior correção. Então, em vez de ficar apontando o dedo para as falhas alheias, vamos primeiro corrigir as nossas.

Que possamos aprender a ler, interpretar e colocar em prática a Palavra de Deus, sem usá-la para julgar e condenar as pessoas, porque quem age assim mostra que não conhece nada da Palavra de Deus. Tem muito cristão usando a Palavra de Deus para apontar as falhas alheias, condenar e julgar, mas com pouca disposição para ajudar. Pensem nisso e sejamos mais coerentes!

Padre José Carlos Pereira, CP é sociólogo e escritor de mais de 50 livros

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Pe, José Carlos Pereira
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