Por Roberto Girola Em Artigos

Contradições do inconsciente

Faltam-me elementos para entender a situação e o problema psíquico que a pergunta envolve. Trata-se porém de um depoimento que nos permite identificar uma possível ação do inconsciente em situações parecidas.

A frase que introduz a pergunta chama a atenção, pois contrapõe o casamento à falta de amor pela esposa. Seria possível entender a afirmação: “Sou casado, mas não amo mais minha esposa”. Não é porém esse o sentido contido na primeira afirmação. A falta de amor parece não ser o desfecho de uma relação desgastada pelo tempo, mas uma premissa, o casamento ocorreu apesar de não haver amor pela esposa.

Podemos evidentemente imaginar motivos que poderiam levar uma pessoa a se casar sem amor, mas, neste caso, outros objetivos estariam na mira do desejo: dinheiro, status, desejo de sair da casa paterna, desejo de atender às expectativas dos outros, etc. Isto explicaria inclusive a dificuldade eventual de encarar o divórcio.

No entanto, o primeiro “desejo” identificável não parece ser manter uma situação “conveniente” e sim de ficar sozinho. Este é o desejo manifestado pela fala de quem fez a pergunta. Há ainda um segundo desejo, menos explícito: que tudo se resolva por si só, sem que seja necessária nenhuma intervenção para “resolver” a situação. É o clássico “deixa como está para ver como fica”.

Talvez a pergunta tenha apenas um propósito, tornar explícita a angústia que a pessoa vive diante da situação de impotência em face da impossibilidade de ter um verdadeiro “desejo” que a direcione para um “objeto” específico que não seja a solidão ou o estar em paz longe da angústia que o viver traz.

Nos casos de depressão e a dúvida não é em relação aos impasses do desejo. Nestes casos a mente apenas “deseja” ser deixada em paz, poder viver sem desejos, sem expectativas, sem nenhum “investimento” afetivo. Talvez o que predomine não seja a energia vital, a “pulsão” de vida, e sim o seu oposto, o desinvestimento afetivo, a “pulsão” de morte, o desligamento total da psique.

Roberto Girola é psicanalista e terapeuta familiar

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