Por Pe. José Carlos Pereira Em Artigos

Desapegar

Os apegos revelam nossos sentimentos, mas também nossas fraquezas, nossas dependências. Ao longo da vida nos apegamos a coisas, pessoas e lugares. E dependendo do grau desse apego, tornamo-nos pessoas presas, ou refém dessas coisas, pessoas ou lugares. Exercitar o desapego é um procedimento de busca de liberdade.

Quanto mais desapegamos, mais livres nós nos tornamos. E quanto mais nos apegamos, mais presos nós ficamos. A liberdade é o bem mais precioso que alguém pode ter. Liberdade de ir e vir; liberdade para expressar suas ideias, seus pensamentos, seu ponto de vista; liberdade para manifestar seus gostos, suas vontades, seus sentimentos; liberdade para ser quem se é sem precisar usar disfarces. Porém, o apego nos cerceia essa liberdade, dando-nos uma falsa segurança, mas colocando limites. É o preço da segurança. Porém, o pior é que boa parte daquilo que imaginamos ser segurança não passa de prisão.

Nisso tudo o apego é um procedimento que corrobora para essa prisão, porque ele dificulta mudanças. Mudanças de lugar, de amizades, de projetos e até das coisas mais corriqueiras como aquelas que enfrentamos no dia a dia. Quando nos apegamos nós nos fechamos para as novidades porque acostumamos com coisas como vemos todos os dias. O novo nos assusta e assusta porque é desconhecido e o desconhecido mexe com nossas seguranças, com nossas estabilidades, tira-nos da zona de conforto. Fazer sempre as mesmas coisas, usar sempre um mesmo estilo de roupa, ir sempre pelo mesmo caminho, estar sempre com as mesmas pessoas, proceder sempre da mesma maneira etc., tudo isso parece oferecer certa segurança, mas é profundamente limitador, pois ao agindo assim, não ampliamos nossos horizontes e não descobrimos que o mundo vai além do nosso umbigo.

Quer saber se você está envelhecendo de fato? Veja como anda seu grau de aceitação às mudanças. Quanto mais velho ficamos, mais resistentes a mudanças nós ficamos. A criança muda em todo momento. Percebemos o seu crescimento a olho nu. Os adolescentes também mudam de maneira radical, agindo cada dia de um jeito para a loucura de seus pais que já esqueceram que um dia também passaram por essa fase de mudanças bruscas.

Os jovens também mudam, mas são mudanças um pouco mais equilibradas, porém mudam. Os adultos também mudam, mas aí essas mudanças já ganham ares mais sérios. Nessa fase da vida as mudanças são muito bem pensadas, mas elas, vez por outra, acontecem e isso faz muito bem. Porém, ao envelhecer – e não estou falando aqui apenas de idade cronológica – a pessoa se cristaliza e resiste a qualquer tipo mudança. Ela se apega ao que é, ou ao que acredita ser, e não quer mais mudar. Mudar para pessoas neste estágio é uma espécie de morte. É nesta condição que o apego se torna mais evidente. As coisas parecem se redobrar de valores sentimentais. A pessoa já não acompanha mais as mudanças do mundo, da sociedade e muito menos da tecnologia. Elas param no tempo e dizem ser do tempo em que as mudanças não eram tão rápidas. “No meu tempo” dizem elas, as coisas não eram assim. “No meu tempo” as coisas eram melhores. Cuidado! Essa expressão “no meu tempo” revela seu estado. Revela que você não pertence mais a este tempo, este mundo, revela que você está realmente velho. Pessoas que atingem esse grau de velhice dificilmente trocam o ambiente da casa, nem os eletrodomésticos, nem o telefone, nem os produtos de consumo, nem o tipo de roupa, nem as marcas dos produtos que consomem, enfim, tudo deve permanecer sempre igual, tornando assim uma pessoa muito previsível em tudo. Elas fazem sempre tudo igual: a hora de acordar, de levantar, de fazer as refeições, de ter suas atividades, de dormir... É a monotonia em pessoa, sem mudanças, sem novidades, sem expetativas. São os sinais da morte rondando aquela pessoa que ainda permanecesse aparentemente viva, mas que já morreu para muita coisa.

Quando chegamos nesse estágio da vida, estamos velhos. Não nos resta outra coisa a não ser esperar a morte. As novidades do mundo não nos interessam mais. Parece que já conhecemos tudo e o resto não nos acrescentará mais nada. Nosso mundo se limita ao nosso espaço e ali nos basta. Essa é o sinal mais evidente da velhice, no sentido pejorativo do termo. Muito mais que as marcas no rosto ou nas mãos.

Porém há os que não se entregam a esse tipo de velhice, que é opcional. Sim, esse tipo de velhice opcional. É a velhice de entregar os pontos, de se desencantar com o mundo, com a vida, com a beleza das coisas, de não se ter mais sonhos e projetos. É aquela situação em que a vida deixa de ser colorida e fica preta e branca. A velhice cronológica, da idade, essa a gente não controla. Essa vem igualmente para todos, pois o tempo é igual para todos. Mas a velhice do desencanto e dos apegos às supostas seguranças, sem querer mudanças, essa é opcional.

Recentemente li uma reportagem de uma mulher de 97 anos que tinha acabado de se formar em direito e se preparava para prestar o exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Ela não estava caducando, estava muito lúcida. Caducos estavam os que contribuíram para protelar seus sonhos, ou os que não conseguem entender porque uma pessoa nessa idade ainda pensa em estudar e querer conhecer mais.

Assim, desapegar nos traz uma liberdade e uma jovialidade descomunal, não importando nossa idade cronológica. Não é fácil, mas quando conseguimos desapegar das coisas, situações e pessoas, obtemos um avanço sem precedente na qualidade da nossa vida. Desapegar, eis o caminho para ser jovem e livre enquanto viver.

Olhe a sua volta e veja quantas coisas você não precisa mais, mas que ainda estão entulhando sua casa, seu quarto, sua vida. Boa parte dessas coisas são lixos, mas você as guarda porque imagina que irá precisar dela em algum momento. E não estou falando apenas de coisas sentimentais, mas também de coisas abarrotam nossas gavetas, nossos armários, nossa cabeça e nossa vida e que não servem para mais nada, a não ser nos prender a um passado que deveríamos já ter nos libertado. Desapegue dessas coisas, e de certas pessoas, e você vai ganhando espaço na sua vida para poder se locomover e viver melhor, mesmo que você tenha 97 anos.

Reflita sobre isso e comece a fazer mudanças na sua vida. Você merece mais liberdade, mais qualidade de vida. Você merece que sua vida tenha mais sentido. Você não vai deixar de ser sensível e humano só porque aprendeu a se desapegar. Você será simplesmente mais livre.

Padre José Carlos Pereira, CP é sociólogo e escritor de mais de 50 livros

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Pe, José Carlos Pereira
Pe. José Carlos Pereira

Padre José Carlos Pereira, CP é sociólogo e escritor de mais de 50 livros

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