Por Pe. José Carlos Pereira Em Artigos

Expectativa

Filósofos como Schopenhauer e Sêneca constataram que grande parte das frustrações e infelicidades do ser humano tem suas raízes nas expectativas que não foram correspondidas. Quando criamos expectativas em torno de algo ou de alguém, e elas não correspondem com aquilo que esperávamos, vêm as frustrações. Porém, não criar expectativas é algo muito difícil, exige treino e uma dose de despreocupação com a situação, mesmo que elas nos sejam muito importantes.

Quem é que nunca teve suas expectativas frustradas? Quase todos os dias milhões de pessoas no mundo passam por isso. Muitas dessas situações são corriqueiras, até banais, que não passam de decepções momentâneas, logo superadas ou esquecidas. Mas há outras que, grandes, chegam a mudar os rumos da vida das pessoas. Essas decepções mais graves estão quase sempre relacionadas a negócios, ao mundo do trabalho, ou a pessoas. Uma pessoa que cria expectativas em relação à outra e imagina que ela seja um ser diferente da realidade, pode trazer grandes frustrações para aquela pessoa que a idealizou, principalmente se essa decepção vem depois de um casamento, ou de um compromisso mais sério. Ou então com um funcionário, que durante a entrevista ou nos primeiros meses de trabalho demonstrou ser uma pessoa espetacular, excelente profissional, mas que depois, com o passar dos meses, revelou ser o oposto de tudo aquilo que foi criado em torno dela. Essas e outras situações causam frustrações, decepções, desencantamento e têm outras consequências que podem ser mais sérias.

Mas há também aquelas decepções relacionadas a lugares, a filmes, livros etc. Alguém diz que tal lugar é maravilhoso e pinta um quadro que você imagina um pedaço do paraíso, porém, quando você conhece o lugar, percebe que não é nada daquilo e se decepciona com o que vê, pois o paraíso estava só na sua imaginação, ou na fantasia de quem fez propaganda. Por exemplo, o Rio de Janeiro é tido como a “cidade maravilhosa”, porém, um amigo meu ficou horrorizado quando viu a cidade. Ele imaginava a cidade dos cartões postais, e assim que o avião aproximou do aeroporto internacional, e ele avistou a cidade, disse ter tido a primeira decepção. A cidade que ele viu pela janela do avião não correspondia a que ele tinha na sua imaginação. O que ele viu foram favelas às margens de baias extremamente poluídas. Sua decepção foi se confirmando à medida que saia do aeroporto e se dirigia, de táxi, para seu destino. Disse não ter visto beleza alguma, apenas favelas, poluição, sujeira e odores desagradáveis. Até mesmo os lugares mais badalados da zona sul não corresponderam as suas expectativas e ele voltou com uma péssima imagem da “cidade maravilhosa”.

Algo similar ocorreu comigo com duas praias do Nordeste. Fui conhecer a badalada praia de Itapuã, em Salvador, com a ideia romântica de Tom Jobim, imaginando encontrar uma praia paradisíaca, e o que vi em nada correspondeu à praia imaginária das minhas expectativas e da canção que a imortalizou. Vi uma praia comum, para lá de comum, com quase nada de areia e com muitas pedras. Confesso que me decepcionei e não me entusiasmei em “passar uma tarde em Itapuã” como sugere Tom Jobim na canção. Decepção igual eu tive com a praia de Ponta Negra, em Natal, Rio Grande do Norte. Estive lá com a imagem de Copacabana na cabeça e quando a vi não acreditava que estava em Ponta Negra. E de fato eu não estava. Pelo menos não estava na praia de Ponta Negra da minha imaginação. A praia de Ponta Negra das minhas expectativas estava bem além daquela que tinha diante de meus olhos. Voltei decepcionado, porque minhas expectativas tinham sido superiores à realidade.

Hoje quando vou a um lugar que não conheço, busco não criar expectativas. Assim, não tenho decepções e se o lugar for de fato encantador, só tenho a ganhar com isso, e não fico com aquela sensação de frustração que comumente temos quando nossas expectativas não são correspondidas.

Portanto, quer evitar frustrações? Não crie expectativas, pois quando elas não se confirmam vêm as frustações, e junto com as frustrações, sentimentos negativos que ofuscam o brilho da vida. Então, o segredo está em não criar muitas expectativas. Assim, quando as coisas boas acontecerem elas serão motivos de alegria, e quando as coisas não deram certo, não ficaremos tão decepcionados. Geralmente nos decepcionamos e nos frustramos com as coisas, situações ou pessoas sobre as quais criamos expectativas, ou idealizamos além daquilo que elas são. Os filósofos Schopenhauer e Sêneca tinham razão: as frustrações estão nas expectativas e idealizações não correspondidas. Se tivermos sempre os pés no chão e tiramos a cabeça das nuvens, teremos mais possibilidades de sermos felizes, pois não precisamos de muita coisa para ser feliz. Isso não quer dizer que não temos de ter imaginação.

Padre José Carlos Pereira, CP é sociólogo e escritor de mais de 50 livros

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Pe, José Carlos Pereira
Pe. José Carlos Pereira

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