Por Pe. José Carlos Pereira Em Artigos

Fé e confiança

“A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera” (Hb 11,1). A fé é esperar contra toda esperança (Rm 4,18). A fé é seguir adiante, mesmo que não se tenha muita clareza dos acontecimentos, e mesmo que ainda não consigamos enxergar uma luz no fim do túnel. A fé é não desistir diante das negações, das portas fechadas ou dos pequenos ou grandes obstáculos.

Quem tem fé não se esmorece por qualquer coisa. Quem tem fé sabe que Deus ouve suas orações e as atenderá no tempo certo, no momento oportuno, ou seja, no tempo dele e não no nosso tempo. O tempo de Deus é diferente do nosso. Nosso tempo é marcado pelo relógio, e o tempo de Deus não. Deus não tem relógio para ver as horas. O tempo de Deus é kairológico e o nosso é cronológico. Por isso muitas vezes o que pedimos a Deus não vem no tempo em que pedimos, mas quando menos esperamos. Por isso Ele nos diz: "pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. Pois quem pede recebe; quem procura encontra e para quem bate se abrirá" (Lc 11,9-10). Basta crer e esperar, ativamente. Esperar sem desistir, sem se esmorecer, sem se acomodar, sem achar que Deus esqueceu ou o abandonou. Assim, ter fé é esperar o tempo de Deus, mesmo sem entender, mesmo ser ter visto sinais, ou grandes sinais, mesmo que tudo pareça árido ou vazio.

Além disso, Deus não tem de fazer todas as nossas vontades. Nós é que temos que fazer a vontade dele. Porém, muitas vezes invertemos as coisas e queremos que Deus faça todas as nossas vontades, até as mais banais, e esquecemos que quando rezamos a oração do Pai-nosso nós dizemos a ele: "seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu" (Mt 6,10). Ou seja, nós estamos dizendo com todas as letras que a vontade dele seja feita sempre, e em todo lugar, mas, na prática, queremos que a nossa vontade seja feita, como se Deus existisse apenas para fazer as nossas vontades. Assim, sem perceber, nós usurpamos o lugar de Deus, invertendo os papéis e querendo que Deus esteja a nossa disposição, ao nosso serviço, pronto para atender nossas vontades quando e onde nós queremos. Essa relação com Deus é uma relação distorcida da nossa fé e precisamos rever esse procedimento se queremos ter um relacionamento saudável com Deus. Senão mudarmos essa maneira incoerente de rezar, teríamos de dizer “seja feita a minha vontade assim na terra como no céu”. Percebem o grau de egoísmo nesta formulação? Pois é, mas tem muita gente rezando assim a oração do Pai-nosso e nem se dão conta disso. Por essa razão, cabe nos perguntarmos sempre.

Será que as minhas vontades coincidem com as vontades de Deus? Será que aquilo que eu quero Deus também quer para mim? Cabe pensar sobre isso no dia de hoje e não desistir nunca de Deus e de fazer as suas vontades. Quando fazemos a vontade de Deus, as nossas vontades são naturalmente satisfeitas, porque Deus quer sempre o melhor para nós, mesmo que não entendamos isso de imediato. Nada que acontece conosco, e que é da vontade de Deus, nos prejudica. Deus ama os seus filhos e dá o melhor para eles. Se nós, com todas as nossas limitações, queremos o melhor para aqueles que amamos, quanto mais Deus, cujo amor é infinito.

Diante disso percebemos que precisamos ainda crescer muito na fé. Muitos de nós temos ainda uma fé infantil. Nós nos comportamos como crianças. Criança é que tem um comportamento dessa natureza. Quando uma criança quer algo, ela grita, chora, pressiona os pais para atender sua vontade, sem saber se aquilo é possível ou não, sem querer saber se aquilo lhe fará bem ou não. Enfim, é a vontade dela que conta e nada mais. Ela não consegue ver além do seu mundo e dos seus desejos. Assim, esperamos que nossos atos sejam recompensados por Deus, que nossos desejos sejam satisfeitos, que sejamos sempre atendidos em tudo o que nós pedimos a Ele, como diz essa passagem bíblica: “São como crianças sentadas nas praças, que se dirigem aos colegas e dizem: tocamos flauta e vocês não dançaram, cantamos uma música triste e vocês não bateram no peito” (Mt 11,16-17). Em suma, Deus não tem de fazer todas as nossas vontades, nós é que temos de fazer todas as vontades de Deus, e para fazer isso é preciso que nos coloquemos sempre à disposição dele. Podemos e devemos pedir sim, e com insistência, mas não devemos nos revoltar se não formos atendidos como gostaríamos de ser, ou no tempo que queríamos. Ele sabe o momento certo.

Siga firme, insista e não desista. Se for da vontade de Deus, o que você pede hoje será atendido em algum momento. Se não for, é porque Deus tem algo muito melhor reservado para você. Confie e não desanime.

Padre José Carlos Pereira, CP é sociólogo e escritor de mais de 50 livros

 

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Pe, José Carlos Pereira
Pe. José Carlos Pereira

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