Por Roberto Girola Em Artigos Atualizada em 29 AGO 2019 - 09H43

'Homossexualismo' tem “cura”?

Psicanalista explica que a questão vai muito mais além

Tenho 17 anos, frequento a igreja desde criança, tive um pai ausente na minha formação [...]. Passei a maior parte da minha infância com minha mãe e minhas duas irmãs. [...] Sou completamente diferente dos outros meninos da minha idade: nunca me relacionei com meninas, acho que não tenho atração, mas, com a ajuda da psicanálise, queria ser curado e mudar minha história. Preciso de ajuda...."

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A terapia psicanalítica seria uma espécie de 'oficina de conserto', para fazer com que o ser humano possa "funcionar melhor" diante daquilo que a sociedade espera dele?

O documentário da BBC 'The century of the self' mostra como as descobertas freudianas sobre o inconsciente tornaram-se palco de tentativas, por parte de empresas e políticos, para usar nossos medos e desejos, com o intuito de manipular a massa popular desavisada, de acordo com os interesses “democráticos” do grupo no poder e do Mercado (propaganda). 

No caso do 'homossexualismo', termo hoje corrigido para "homossexualidade", não é diferente: para quem o encara como um desvio moral que “incomoda”, a expectativa é que a terapia resolva o 'problema' de forma drástica, visando erradicá-lo. 

Infelizmente, a mente humana não é tão simples e direta. Os motivos pelos quais a orientação homossexual se instala no psiquismo são complexos. Freud via no Complexo de Édipo o momento privilegiado em que a criança abandona a sua sexualidade polimorfa para se identificar com uma determinada orientação sexual que, no entanto, nem sempre corresponde às suas características fisiológicas.

A constatação da complexidade desse processo não impede que surjam mal-entendidos sobre essa questão. A própria Psicanálise foi vítima deles. Em alguns casos, por exemplo, pode se confundir a prevalência psíquica do elemento feminino ou a fixação em uma sexualidade infantil regredida com a orientação homossexual. Da mesma forma, em outros casos, a necessidade do homem de se apropriar do “falo”, pode resultar em uma confusão sobre sua orientação sexual, que pode perturbá-lo e pode também confundir o terapeuta desavisado.

Há, contudo, situações que vão além da simples experimentação sexual. Neste caso podemos falar de orientação sexual homossexual efetiva, que o analista deve acolher, ajudando na construção de uma subjetividade cuja sexualidade é assim constituída, para além das expectativas da família ou da sociedade.

Escrito por
Roberto Girola
Roberto Girola

Roberto Girola é psicanalista e terapeuta familiar

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