Por Mariana Mascarenhas - Jornal Santuário Em Artigos

Justiça para todos

Dá para acreditar que no planeta do século 21, repleto de avanços e descobertas, ainda há cerca de 1,5 bilhão de pessoas vivendo em condições de pobreza extrema? Se for considerada apenas a renda, existem 1,2 bilhão de pessoas vivendo com menos de U$1,25, de acordo com Relatório para o Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas (ONU).

Apenas para efeito de comparação, de acordo com estatísticas do Credit Suisse, um por cento da população mais rica do mundo tem 50% da riqueza mundial. E mais impactante ainda é saber que as 80 pessoas mais ricas do mundo têm a mesma quantidade de dinheiro que os 3,5 bilhões mais pobres, de acordo com a ONG britânica Oxfam.

São cenários que refletem as enfermidades agudas deste planeta mostrando, ao mesmo tempo, que dispomos sim de recursos necessários para a erradicação das desigualdades, basta que eles sejam remanejados da maneira adequada. É certo que há um grande número de programas sociais destinados a auxiliar os mais necessitados, mas é certo também que muitas vezes ocorrem desvios de verbas atrelados à corrupção.

Outra questão importante: as soluções para erradicação das desigualdades sociais e da pobreza devem ir além do assistencialismo. Por isso, é necessário incentivar as pessoas a produzirem e garantirem seu próprio sustento por meio de um trabalho digno.

Em documento (encíclica) lançado pelo Papa Francisco em junho do ano passado, Laudato Si, sobre os cuidados da Casa Comum, o pontífice fala sobre a relação desarmoniosa do homem com o planeta Terra, fruto de um materialismo exacerbado e de uma ganância insaciável, responsáveis por fomentar as desigualdades sociais. Ao abordar as relações trabalhistas, Francisco faz a seguinte afirmação:

“O trabalho é uma necessidade, faz parte do sentido da vida nesta terra, é caminho de maturação, desenvolvimento humano e realização pessoal. Neste sentido, ajudar os pobres com o dinheiro deve ser sempre um remédio provisório para enfrentar emergências. O verdadeiro objetivo deveria ser sempre consentir-lhes uma vida digna através do trabalho” (128).

Infelizmente, ainda hoje, nem todos têm acesso a um trabalho digno. Muitos cidadãos de nações menos desenvolvidas, por exemplo, são submetidos pelas potências mais desenvolvidas por meio de monopólios globalizados que, além de tirarem a chance de crescimento de todo e qualquer pequeno negócio, exploram seus trabalhadores, sob a falsa alegação de estarem promovendo a inserção social.

Por conta de seu discurso a favor da igualdade social, Francisco vem sendo erroneamente chamado de comunista por alguns. Mas o próprio pontífice esclareceu: “Não sou comunista, o que acontece é que a pobreza está no centro da mensagem do Evangelho”. O Papa na verdade faz um apelo para que possamos olhar com mais afinco e compaixão para os tantos marginalizados e excluídos sociais, abandonando nosso egoísmo.

Mariana da Cruz Mascarenhas é jornalista, articulista e crítica de economia e cultura

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