Por Roberto Girola Em Artigos

Narciso em alta (Parte 1)

Não há dúvidas de que estamos assistindo ao avançar de certo individualismo de caráter narcísico, que leva um número considerável de pessoas a se focarem essencialmente em si mesmas com uma reduzida capacidade de incluir o outro e, de forma mais genérica, o coletivo no seu horizonte psíquico. Isto não apenas é verificável na forma como a política é conduzida no Brasil e em outras partes do mundo, mas também em pequenas cenas do cotidiano que emergem das relações amorosas, de trabalho, das redes sociais, do comportamento no trânsito etc.

A estrutura narcísica é extremamente importante para a formação do ser humano. Paradoxalmente, é necessário um psiquismo adequadamente estruturado do ponto de vista narcísico para que o outro possa ser incluído no seu horizonte psíquico. Esta inclusão ocorre justamente a partir do momento em que a presença do mundo externo, no qual o outro está inscrito, não é percebida como ameaçadora para a existência do indivíduo (Self), assegurando-lhe a sua consistência e sobrevivência frente às intrusões e aos “barramentos” que vêm do mundo externo.

Diante da necessidade de se conectar, lançando-se fora de si, o indivíduo percebe a sua dependência e vê a sua onipotência narcísica sendo posta em cheque. O vínculo com o outro sempre envolve um movimento paradoxal. Por um lado, movido pela necessidade e pelo desejo, o chamado do amor. Por outro lado, diante da constatação da dependência, surge o ódio, que torna necessário “proteger” o mundo externo da agressividade destrutiva do inconsciente subjetivo.

A existência do ser humano é marcada por dois movimentos, expansão e retração, uma verdadeira diástole e sístole psíquica. Ele precisa se expandir, buscar a expressão mais plena possível do seu Ser (Self) no mundo, mas ao mesmo tempo deve aceitar se “recolher”, para que o outro possa encontrar lugar no seu universo psíquico. A escalada do narcisismo tem a ver com uma falha nesse sutil processo de amadurecimento do psiquismo, que envolve uma dinâmica de investimento do outro, mas também a aceitação da dependência que o processo vincular envolve e do “barramento” que o outro impõe necessariamente ao desejo do sujeito.

Embora o narcísico aparente arrogância e “poder”, na realidade ele está se protegendo do mundo externo, demonstrando sua fraqueza psíquica. Uma primeira causa da escalada do narcisismo supõe, portanto, uma “falha” nos processos que levam à constituição do Self do sujeito na primeira infância. (continua na Parte 2).

Roberto Girola é psicanalista e terapeuta familiar

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