Por Roberto Girola Em Artigos

Narciso em alta (Parte 2)

Lacan, um famoso psicanalista francês, criou o conceito de Grande Outro, uma instância inconsciente expressão da cultura e organizador do “discurso” através do qual o sujeito se significa e se constitui na sua relação com o mundo. As relações com os outros e a inserção no coletivo são marcadas, na sua visão, pela forma como o sujeito se inscreve no “Grande Outro”, considerado como um “regulador” que “barra” o seu desejo.

Como foi observado pela corrente de pensamento pós-moderna, embora a partir de outra perspectiva teórica, a estética do discurso se tornou mais importante do que o seu conteúdo, já que este não pode ser tomado como algo que está além do próprio discurso, algo que o antecede e o determina. Isto é claramente perceptível na propaganda, no videoclipe e na linguagem midiática em geral, cuja sedução não está na coisa em si, mas na forma como ela é transmitida. O consumidor não compra um perfume pelo perfume e sim pelos cenários sofisticados, elegantes e sensuais aos quais a propaganda do perfume remete e com os quais ele se identifica.

Zygmunt Bauman, a partir de um olhar mais sociológico, chega a usar o termo liquidez para caracterizar o que regula o nosso viver em sociedade, em contraposição à solidez dos referenciais sociais do passado já desaparecidos.

Mesmo com essas mudanças, o Grande Outro não desapareceu do universo psíquico como organizador dos processos de simbolização. O homem contemporâneo ainda se dobra às exigências de um determinado discurso que lhe é imposto e o determina.

Afinal, o discurso do Grande Outro seria também um discurso “fraco”, incapaz de conter a eclosão do narcisismo? Além disso, em um mundo globalizado, fica difícil falar de “um” Grande Outro, já que existem parâmetros profundamente diferentes que “regulam” o discurso de um sueco, de um brasileiro, de um judeu ou de um islâmico. A babélica confusão das línguas contribui para o caos psíquico subjetivo.

Finalmente, outro fator emerge: como já foi dito nesses artigos e por numerosos psicanalistas e filósofos, o Grande Outro do mundo ocidental não “barra” o desejo e sim encoraja o gozo, no qual se sustenta a sociedade do consumo, jogando o sujeito à sombra da falta, como um universo sombrio, pois desejo nenhum pode ser preenchido no frenesi do consumo. Paradoxalmente: narciso em alta, prazer em baixa.

Roberto Girola é psicanalista e terapeuta familiar

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