Por Pe. Evaldo César de Souza, C.Ss.R. - Jornal Santuário Em Artigos

O buraco é mais embaixo

Não sejamos otimistas e alienados. Há, de fato, uma crise política e econômica rondando ferozmente a nação brasileira. O que não é exceção no mundo, basta olhar as últimas instabilidades da União Europeia e as quedas bruscas das bolsas asiáticas, especialmente na China, gigante da economia planetária e cujas oscilações refletem imediatamente em todo o planeta.

Mas aqui no Brasil a crise não é momentânea, mas fruto de um processo histórico de incompetência administrativa unida com a avassaladora vontade de levar vantagem em tudo. O problema do país, na sua raiz, é a incapacidade que temos, enquanto nação e cultura, de pensar no bem comum antes de colocar nossos interesses em jogo. O “bem público” no país é terra de ninguém, enquanto cada um tenta, dentro de suas ganas, salvaguardar o que está no âmbito de seu espaço privado. Temos problemas com distribuição de renda, de terras, de educação, de saúde. Somos mestres em lutar pelo “meu” e deixamos o “nosso” ao Deus-dará. E já que o público é de ninguém, está armada a farra do boi entre os quais somos obrigados a eleger para cargos administrativos e legislativos. Nossos prezados políticos, e as exceções, se existem, só servem para reforçar a tese, nadam de braçada no que é público e transformam o bem comum em benesses privadas. Enriquecem-se com os bens da nação. E não me venham falar de Mensalão e Petrolão – estes dos escandalosos processos de corrupção dos bens públicos são apenas o aqui e agora de uma história de espoliação dos bens comuns a que assistimos ao longo dos últimos quinhentos anos.

Um exemplo clássico: no tempo em que a Coroa Portuguesa dominava o país e cobrava das minas brasileiras um quinto do ouro extraído, já existia o contrabando e a técnica de garantir também o próprio quinhão – o ouro escondido nos chamados “santos do pau oco”, ou seja, aquelas imagens de santos que eram perfuradas por dentro e pelas quais o ouro escorria das Minas Gerais sem que ninguém o notasse.

A história política do país tem sido marcada por essas falcatruas, amparada pelo poder instituído e mascarada pelos processos burocráticos de uma justiça que está longe de ser cega. Aqui todos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros. Com isso, quero apenas afirmar que a crise, pela qual passa o país, não pode se tornar argumento válido para justificar atitudes irracionais de sublevação popular. Antes, a crise precisa resgatar a história, recuperar a responsabilidade de agentes e personagens de nossa política, balizar nossas decisões e ampliar as discussões populares.

O bombardeio de informações que recebemos pela mídia parecem nos manter antenados, mas admito que com tanta informação já nem temos capacidade de analisar o que de fato acontece por aqui e se há, nessas trevas todas, alguma luz no fim do túnel. O certo é que a crise não nasceu ontem nem nasceu somente com a corrupção do atual governo. O buraco, no Brasil, é mais embaixo!

Padre Evaldo César de Souza é diretor de produção/operação da TV Aparecida

Escrito por
Padre Evaldo César Souza, C.Ss.R, diretoria da Fundação Nossa Senhora Aparecida (FNSA) (TV Aparecida)
Pe. Evaldo César de Souza, C.Ss.R. - Jornal Santuário

Jornalista e missionário redentorista

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