Por Roberto Girola Em Artigos

O falso Self

“Vivemos em uma sociedade de rótulos. Cada escolha, preferência ou estilo de vida é passível de ser encaixada em um 'item da tabela'. Como isso reflete na personalidade da pessoa? Não seria uma forma de limitar a capacidade de existir e ser?” (Márcia Galveto Dias, RS)

A capacidade de existir e ser está ameaçada. As consequências? Uma sensação de inutilidade, de não existência, de inconsistência, de precariedade e de vazio.

Na época em que Freud iniciou seus estudos sobre os problemas que afetavam o funcionamento mental, se deparou com determinados tipos de neuroses cuja origem era basicamente associada ao fenômeno da repressão.

De forma bastante simplificada poderíamos dizer que, diante do conflito existente entre os instintos provenientes da dimensão inconsciente e as limitações impostas pela realidade, a mente pode optar pela repressão do desejo inconsciente, gerando algum tipo de neurose, ou então, de forma mais radical, cindir-se, gerando um funcionamento em que o mundo interno se sobrepõe à realidade externa, desfigurando-a (psicose) ou manipulando-a (perversão).

No caso das neuroses prevalece o que Freud denominou como “princípio de realidade”. Isto acontece sob o crivo de uma instância interna chamada “superego”, que barra os desejos que se originam no inconsciente, fazendo com que só uma parte deles possa se realizar e reprimindo o resto, que acaba se manifestando sob a forma de sintomas neuróticos.

Na atualidade, porém, as imposições vindas da realidade externa não visam apenas reprimir o desejo e sim muitas vezes incentivá-lo, estimulando o consumo de determinados produtos, apresentados como “agregadores” da estrutura narcísica. Não importa se o produto é um celular, um carro, uma roupa, um programa de lazer ou uma viagem, o importante é que a mente se depara com a “necessidade” vinda do mundo externo de vestir determinados rótulos ou estilos de vida pré-determinados, disponíveis na prateleira do sucesso ou do “bem-estar”.

Neste caso a estrutura superegoica opera uma inversão, em vez do desejo ser um produto do mundo interno, processado através da capacidade de sonhar do indivíduo, ele se abre caminho de fora para dentro, como uma imposição que acaba sendo associada à estrutura narcísica, como forma de existir ou de ser “algo”. Quando o Eu não se constituiu de forma adequada, o indivíduo se vê à mercê de dimensões de falsa existência, de falso Self, que ameaçam o emergir de sua personalidade autêntica.

Roberto Girola é psicanalista e terapeuta familiar

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