Por Roberto Girola Em Artigos

O instinto de morte

Em Além do princípio do prazer, Freud introduz uma radical mudança na sua teoria sobre o funcionamento psíquico. A mudança foi tão surpreendente que muitos dos seus seguidores não a aceitaram ou tenderam a minimizá-la.

Se até então Freud via na busca do prazer e na tentativa de evitar o desprazer o motor da força que move o psiquismo, a libido, a partir desse momento a sua atenção se volta para outro instinto básico que percorre a vida psíquica: o instinto de morte, ou, como alguns preferem, a pulsão de morte.

Mas afinal por que Freud resolve introduzir um conceito tão estranho na vida psíquica? Talvez se olharmos ao nosso redor, não seja tão difícil entender do que ele estava falando, pois hoje, mais do que nunca, esse “instinto” está presente em nossas vidas, de forma bastante visível.

Por que o ser humano resolve “predar” o meio ambiente em que vive, a ponto de tornar impraticável em longo prazo sua própria subsistência? Por que a tecnologia, que foi criada para facilitar nossa vida, passa a dominar nossa existência a ponto de nos escravizar? Por que a necessidade de comunicação leva o ser humano a viver mergulhado em um mar de “informações”, de apelos sensoriais acústicos, escritos e visuais que o oprimem e que o levam a um atordoamento mental que prejudica sua capacidade de “pensar”? Por que a necessidade de ser “inscritos” no mundo dos bem-sucedidos nos obriga a uma forma de servidão voluntária escravizante, marcada por uma submissão ao trabalho, ao consumo e aos rituais corporativos que não é “prazerosa” (e portanto não responde ao princípio do prazer)? Por que na era do “prazer sem limites” oferecido em todas as esquinas vivemos como nunca angustiados, deprimidos e melancólicos?

Por que os que se opunham à barbárie do “capital”, ao assumirem o poder são capturados pela mesma barbárie que tanto queriam combater?

Todos esses são sinais perturbadores da presença do instinto de morte que move o ser humano rumo à violência, à autodestruição, ao impasse e ao desligamento da vida e das forças criativas de Eros.

Roberto Girola é psicanalista e terapeuta familiar

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