Por Roberto Girola Em Artigos

O olhar dos outros

Certa vez, um paciente que acabava de mudar de apartamento, falava-me sobre a sua sensação de estar sendo observado o tempo todo. Voltava a falar desse incômodo quase em toda sessão, até eu perguntar se as janelas do seu apartamento davam para algum prédio próximo. Ele então admitiu que o seu apartamento tinha uma bela vista sobre a cidade e que não havia nenhum prédio próximo, mas que, ao longe, alguém poderia estar observando sua vida com um telescópio.

Creio seja essa a sensação descrita pelo nosso leitor: para ele a vida parece transcorre sob o olhar perscrutador e severo dos outros. Trata-se de um olhar que captura o psiquismo e o aprisiona, transmitindo uma sensação de insegurança e de inadequação. Infelizmente esse sintoma não é tão raro. Muitas pessoas vivem atormentadas, de forma mais ou menos intensa, pela dúvida diante daquilo que “os outros” podem estar pensando delas.

Trata-se de uma “impossibilidade” do sujeito de se referir a si-mesmo, ou melhor, ao Si-mesmo, ao próprio Self, emanação da estrutura narcísica mais fundamental, que, como uma espinha dorsal, oferece suporte ao psiquismo como um todo.

Para esse tipo de estrutura mental é muito difícil referir a si as experiências vividas no dia a dia e olhá-las a partir de um “ponto de vista” interno. É como se o psiquismo se sentisse sem sustentação, fragmentado, sem uma estrutura portante, uma espinha dorsal que o mantenha unido. O recurso ao ambiente, ao seu espelhamento, é necessário e constante para fugir dessa sensação de fragmentação. É como se alguém precisasse se olhar no espelho para não sucumbir à angústia de não existir. Neste caso, o espelho são os outros.

Trata-se de estruturações psíquicas primitivas, que exigem um “trabalho” terapêutico demorado com um profissional qualificado para que possa haver uma reformulação dos processos inconscientes que levaram a esse tipo de trauma. Sem esse trabalho nunca a pessoa sentirá de estar vivendo e sim se sentirá constantemente vivida pelo olhar do outro.

Roberto Girola é psicanalista e terapeuta familiar

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