Por Roberto Girola Em Artigos

O que esperar do outro e de si mesmo?

As pessoas mudam ou melhoram?

A pergunta abre duas possibilidades de entendimento. Pode esconder a angústia diante do “outro” que não muda e o desejo que ele possa mudar, ou então pode refletir a angústia diante da sensação de que mudar a si mesmo é muito difícil.

No meu livro A psicanálise cura? traço um percurso ao longo dos desenvolvimentos da teoria psicanalítica em busca da resposta que a Psicanálise dá em relação à possibilidade de “cura” de quem procura o processo terapêutico da análise.

Os termos mudança, melhoramento, cura, remetem à esperança que o ser humano possa dominar seus demônios internos e introduzem a primeira questão: o “desejo” de cura. Qualquer mudança supõe uma necessidade interna e um desejo de mudança. Neste sentido, não é possível mudar o outro. Apenas podemos apostar na possibilidade de mudar algo em nós mesmos, desde que percebamos a necessidade de mudar.

Mas isso não é suficiente. Uma vez percebida a necessidade de mudar, é necessário responder à pergunta sobre “o que” precisa ser mudado. As tentativas de mudança podem ser frustradas pelo simples fato de que erramos o alvo. Frequentemente a forma como encaramos a mudança pode reforçar o problema, pois o que realmente está à raiz do incômodo geralmente não é percebido pela consciência. Neste caso, o processo terapêutico é fundamental.

A terceira questão é o “como” mudar. A “cura” dos problemas psíquicos não pode ser confundida com a cura no sentido médico. A cura da alma nunca corresponde a uma verdadeira erradicação do mal, como no caso da doença do corpo. Como sustentam alguns psicanalistas, a cura deve ser entendida mais como uma maturação (como a cura do queijo), que transforma, sem erradicar. As nossas feridas e falhas permanecem na psique e não podem ser erradicadas. Elas apenas podem ser integradas através de um processo de assimilação que nos permite lidar com elas de outra forma, tornando-nos conscientes do que está à raiz do problema e procurando domar o cavalo selvagem que é o nosso inconsciente.

Roberto Girola é psicanalista e terapeuta familiar

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