Por Roberto Girola Em Artigos

Preservar o Mistério

Uma das características do nosso tempo é a necessidade de “exposição”. O que não é “publicado” nas páginas dos jornais, nas redes de televisão ou nas redes sociais parece não existir. Paralelamente a essa necessidade de exposição publicitária, que faz com que de alguma forma tudo e todos se tornem produtos a serem ”comprados”, há uma necessidade de tornar visível e compreensível tudo o que é oculto. A aceitação do mistério está fora de questão. Tudo parece exigir uma explicação, que permita fugir da angústia do inominável, da turbulência emocional do pensamento que não pode ser pensado.

Na tradição judaico-cristã, uma exigência da lei divina é que o nome de Deus “não seja nominado em vão”. Na tradição judaica o mandamento é assumido com todo rigor, o nome de Deus é transcrito na língua hebraica de tal forma que se torna impronunciável. Vale a pensa frisar que nessa tradição dizer o nome de alguém equivale a se apropriar de sua “realidade”.

No entanto acredito que por trás disso possamos vislumbrar um sentido teológico mais profundo. Trata-se da necessidade de aceitar que há algo que não pode ser “nomeado”, que permanece fora do alcance do humano. Como frisava Rudolf Otto na sua famosa obra sobre o Sagrado, a ideia de Deus remete ao totalmente Outro, mistério ao mesmo tempo tremendo e fascinante. Em filosofia, este é o conceito de transcendência que algumas linhas filosóficas aceitam e outras não.

Creio que a física quântica também tenha nos aproximado de um conhecimento da matéria e do cosmo que inclui a possibilidade do imponderável, de uma realidade que não é reduzível a uma lei fixa e previsível. Há no próprio amago do cosmo e da matéria algo que continua nos remetendo ao mistério.

Na Psicanálise também temos algo parecido, embora não exatamente igual. Creio que Lacan quando afirma que o Real é inalcançável, está falando de algo muito parecido, que ele inclui na lógica do discurso, pois de fato para ele o Real está fora do alcance do discurso. Podemos significar aquilo que nossas percepções nos “comunicam”, construindo uma visão da realidade, mas ela é sempre um discurso subjetivo, passível de ser questionado com novas experiências.

Poder voltar a incluir o Mistério no horizonte da nossa mente é extremamente importante, embora isso comporte uma experiência emocional perturbadora.

Talvez seja esse o sentido do Natal cristão, se compreendido em toda a sua profundidade e alcance.

Roberto Girola é psicanalista e terapeuta familiar

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