Por Marcus Eduardo de Oliveira - Jornal Santuário Em Artigos

Segregação social

O Brasil é um dos poucos países em que a engenharia civil faz questão de deixar sua marca para contribuir com a segregação social. Faz isso em relação aos elevadores sociais e de serviços, diferenciando quem pode usar um e outro; e também faz isso nos apartamentos de alto padrão, em relação aos quartos de empregadas domésticas, que mais parecem gaiolas fechadas de tão pequenos e com pouca ventilação.

É assim que a segregação social grassa por aqui, ainda que, em alguns casos, seja escamoteada.

Mas os fatos falam por si: estamos num país que produz e exporta aviões, mas um terço de nossas residências não tem água encanada. Se a agricultura aqui praticada já pode ser considerada como pertencente ao agribusiness, deve-se também se levar em conta a existência de uma massa de mais de 7 milhões de pessoas que enfrentam diuturnamente o drama da fome, num país dono do quinto maior espaço territorial do mundo.

É nesse sentido que Celso Furtado (1920-2004) foi pontual ao afirmar que “o Brasil nunca se desenvolveu, apenas de modernizou, visto que desenvolvimento verdadeiro só existe quando a população em seu conjunto é beneficiada”.

De nada adianta aumentar o PIB e colocar a economia na sexta posição da pujança econômica mundial, se há um contingente de atormentados sofrendo as chagas da segregação social.

Esse antagonismo entre ser moderno e ser desenvolvido tem ajudado a criar no Brasil uma separação de castas, de classes sociais bem ao estilo marxista, evidenciando as diferenças e segregando na acepção do termo.

É por isso que, de um lado, estão os ricos-milionários, em contraste aos pobres-miseráveis, da ponta oposta. Nas palavras de Cristovam Buarque, a esse respeito, “os primeiros vivem e desfrutam dos prazeres no luxo; os segundos se esforçam e acotovelam-se para pegar as sobras do lixo. A educação de uns vai até a universidade, a de outros não chega à alfabetização”.

Enquanto uns estão incluídos na produção econômica vendendo sua força de trabalho, tantos e tantos outros se encontram excluídos do consumo, alijados do banquete da alimentação básica.

Com isso a exclusão social brasileira parece se diferenciar das demais exclusões mundo afora, visto que no Brasil não se concentram só a renda e a riqueza; mas também os privilégios e os benefícios.

Por isso a desigualdade, além de promover a exclusão propriamente dita, gera dificuldades e nega constantes direitos. Os privilégios são para poucos; a negação de direitos, para muitos.

Nossa típica exclusão social parte da constatação de uma situação inusitada e desleal: por aqui há os que são incluídos na produção, como dissemos acima, mas permanecem excluídos do consumo. Produzem, mas não compram.

De que forma isso acontece? Aqueles que conseguem trabalho, independentemente das condições em que exercem seus ofícios e auferem rendimentos, podem ser considerados os “incluídos” na produção – pois ajudam a dinamizar o processo produtivo.

No entanto, esses mesmos se convertem em “excluídos” do consumo, pois os baixos rendimentos impossibilitam o acesso aos bens e serviços produzidos na economia de mercado.

O sistema econômico, por vezes, é tão perverso que “usa” o mesmo indivíduo em duas diferentes situações: primeiro, o “inclui” no ato produtivo, usando sua mão de obra remunerada em baixos salários e, como decorrência não lhe entrega poder de compra suficiente, compatível com um nível médio de subsistência, logo, o descarta a seguir excluindo-o assim do consumo.

Para tomarmos um ilustrativo exemplo disso, essa é basicamente a situação dos trabalhadores braçais da construção civil que constroem escolas e universidades, mas, em geral, não conseguem matricular seus filhos. Assim são “convertidos” em “excluídos”, excluindo também seus filhos do acesso às universidades e escolas que seus braços ajudaram a levantar.

Assim também é a história peculiar dos metalúrgicos que fabricam carros de luxo a alto custo; mas, em geral, jamais irão conhecer a sensação de guiar um desses. De igual maneira ainda é a situação do trabalhador que monta os modernos aparelhos de ar- condicionado, mas que, em épocas de calor intenso, por lhes faltarem recursos suficientes para a aquisição de um desses, não conhecerão o frescor causado pelo uso do aparelho de ar-condicionado.

Por fim, e não muito diferente dos demais exemplos, essa é a situação específica do operário da construção civil responsável por erguer prédios residenciais de elevadíssimo padrão.

Depois de levantados esses prédios, caso esse operário perca o emprego na construção civil e venha a encontrar ocupação num desses condomínios de luxo – uma vez que residir num desses será quase impossível – lhe será reservado, com exclusividade, os elevadores de serviços, para que não se “misture” aos moradores que utilizam os elevadores sociais que ele mesmo ajudou a construir.

E assim grassa a segregação social por aqui.

Triste realidade!

 

Marcus Eduardo de Oliveira é economista, mestre pela USP, com passagem pela Universidade de Havana (Cuba)

Escrito por
Marcus Eduardo
Marcus Eduardo de Oliveira - Jornal Santuário

Marcus Eduardo de Oliveira é economista especializado em Política Internacional

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