Por Roberto Girola Em Artigos

Sob o domínio da culpa

Mesmo quando estou em momentos de lazer sinto a sensação de culpa e de estar jogando tempo fora (Anônimo)

A culpa é um sentimento que se instala no psiquismo de forma mais ou menos sorrateira, sem que muitas vezes suas causas sejam conscientemente percebidas. As raízes profundas da culpa permanecem frequentemente desconhecidas.

Não é raro, durante o processo de uma análise, que o paciente identifique comportamentos aparentemente estranhos, irracionais, instintivos, que parecem ter um único propósito: punir quem os protagoniza. Também nesse caso, nem sempre o indivíduo é consciente de estar se punindo. Algumas situações parecem ser apenas frutos do acaso.

Pesquisando melhor e começando a prestar atenção, é possível descobrir que na realidade as situações não são casuais. O inconsciente é extremamente criativo nesse sentido. A punição pode envolver um simples esbarrão que cria uma situação desagradável com alguém, um gesto inadvertido que leva o indivíduo a se machucar ou a quebrar algo valioso, ou até um acidente mais grave.

Em situações de lazer a sabotagem aparece através de uma “não autorização” parecida àquela descrita pelo nosso leitor, ou então pela introdução no “programa” de uma situação que acaba estragando tudo, sendo que, pensando bem, isso seria inteiramente previsível.

Se há autopunição é porque o inconsciente está vivendo uma situação de culpa que está precisando ser expiada. Mas, afinal, culpa de que? Responder a essa pergunta não é fácil. A culpa pode surgir de situações que envolvem relações com o ambiente. Na percepção inconsciente, é como se o simples fato do sujeito interagir com o ambiente provocasse incômodo. Naturalmente isto piora quando o outro tende a assumir o papel de vítimas, na tentativa de manipular a relação.

Aprofundando os sentimentos de quem vive essas situações não é raro descobrir que na origem de tudo tem a “culpa de existir”. Trata-se da mais radical das culpas, uma não autorização à existência, um sentimento de inutilidade que impede o indivíduo de se tornar “sujeito” da própria existência, ou seja, de se perceber como um ponto de referência para si mesmo e para os outros.

Roberto Girola é psicanalista e terapeuta familiar

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Roberto Girola
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