Por Pe. José Luis Queimado, C.Ss.R. - Jornal Santuário Em Artigos

Somos brasileiros canalhas

Somos todos canalhas! Esse é o título de um livro escrito por dois pensadores contemporâneos, Júlio Pompeu e Clóvis de Barros Filho. O termo canalha chegou até nós pelo italiano canaglia, que por sua vez tem a sua raiz no latim canalis (canis), e significa cão. Hoje, o significado da palavra já se distanciou bem de sua etimologia. Os canalhas já não são mais aqueles pobres e abandonados das cidades romanas ou gregas, que eram como cães de rua. No presente, canalha significa pilantra, mau-caráter, velhaco, aproveitador, sacana. Mas será mesmo? Somos todos canalhas?

Há grandes indícios que corroboram a tese acima. Em nosso país, um dos maiores problemas é aceitar como natural o jeitinho brasileiro, uma das mais depravadas formas de eufemizar a podridão que nos corrompe.

Mas muitos podem redarguir assim: quem nunca errou? Quem nunca subornou um policial nas estradas? Quem nunca comprou um advogado ou um juiz? Quem nunca tirou vantagem de alguém mais fraco ou menos informado? Quem nunca trafegou pelo acostamento? Quem nunca sonegou à Receita Federal? Quem nunca usou uma carteirinha falsa de estudante ou mentiu a idade do filho para obter vantagens? Quem nunca furou a fila ou se aproveitou de seu status? Quem nunca usou produtos piratas, achando-se na razão? Errar é humano, mas quão humano pode ser o que cultiva com carinho o vírus da corrupção como se fosse uma rosa rara no jardim de sua vida? A resposta deve ser pessoal!

Sim, erramos, e gostamos de colocar a culpa nos outros. Alguém deve ser culpado por tanta violência neste país, mas não tem nada a ver com a nossa ferocidade no trânsito ou com a nossa virulência nos meios virtuais; há corrupção tremenda e vergonhosa, mas nada se relaciona com as nossas atitudes que visam ao benefício próprio ou da própria família; há ladrões sobrando nesta Terra de Santa Cruz, mas não temos ligação com qualquer tipo de roubo quando fazemos um gato na rede elétrica, ou pegamos emprestado o sinal da TV a cabo, ou usamos por um momentinho a vaga do estacionamento reservada ao deficiente e ao idoso. Se começássemos a lutar contra a praga das corrupçõezinhas cotidianas, daríamos passos significativos para melhorar o caráter de nossa sociedade. A hipocrisia é a mãe da canalhice!

Para concluir, é injusto dizer que todos pensam ser o jeitinho brasileiro um tesouro da nossa cultura, mas grande parcela da população brasileira busca incansavelmente argumentos para respaldar os seus erros e os seus gestos corruptos, o que torna o país cada vez mais achincalhado. Se é fato que somos todos canalhas, poderíamos ao menos admitir que isso é um erro fatal para o nosso crescimento cultural, intelectual e espiritual. Enquanto insistirmos na hipocrisia de que os maus elementos são sempre os outros, e nos pusermos num pedestal onde ficam somente os imaculados e os bastiões da integridade, jamais concertaremos o nosso país, pois muitas devassidões têm origem no nosso próprio quintal.

Padre José Luís Queimado, C.Ss.R., é diretor do Portal A12.com

Escrito por
Pe. José Luis Queimado, C.Ss.R. (Arquivo Santuário Nacional)
Pe. José Luis Queimado, C.Ss.R. - Jornal Santuário

Redentorista, formado em Filosofia e Teologia. Pesquisador das Sagradas Escrituras e História. Acumulou experiência nas Missões Populares e no Santuário Nacional de Aparecida.

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