Por Roberto Girola Em Artigos

Sou visto logo sou: do espelho materno ao selfie

Cunhada por Z. Bauman, a expressão “sou visto, logo sou” se contrapõe àquela do filósofo Descartes “penso, logo sou”, que introduziu a época moderna, fazendo da racionalidade o seu centro e o seu modelo.

As considerações de Bauman retomam aquelas de alguns pensadores contemporâneos e ajudam a compreender um aspecto marcante da sociedade atual, que deixou de lado a busca da racionalidade do ser para mergulhar na estética do consumo e na ilusão da segurança. Invadidos por câmeras, satélites e drones que nos observam por todo lado e tendo ao nosso alcance engenhocas que nos permitem “publicar” nossa imagem na Internet, somos ao mesmo tempo consumidores ávidos de sempre novas experiências visuais e, ao mesmo tempo, consumidos pela necessidade de nos “vender” (como produtos de consumo) e nos tornar “públicos”.

Tudo isso mereceria um aprofundamento, mas aqui pretendo seguir outro caminho e perguntar por que “ser vistos” é tão importante para a nossa psique. Na minha prática clínica, como psicanalista, tenho percebido que, em alguns casos, o paciente precisa “ser visto”. Nesses casos o uso do tradicional setting psicanalítico, em que o terapeuta senta atrás do paciente deitado no divã, pode ser aversivo e contraproducente.

O ser humano de fato somente passa a existir se ele for “visto” por uma mãe suficientemente boa para reconhecer sua existência e sua realidade. O que permite a constituição no ser do bebê, sua primeira experiência psíquica do si como self (si-mesmo), não é ver a própria imagem em um “espelho” qualquer (publicada na Internet, por exemplo), e sim espelhada no rosto humano da mãe, em suas reações, no seu sorriso, no seu olhar atento e preocupado.

A prática do selfie denuncia essa necessidade fundamental do ser humano, mas, ao mesmo tempo, mostra o quão pouco ele se sinta hoje realmente “visto” por alguém. Apesar das câmeras, das redes sociais e dos selfies, a sensação é, na maioria das vezes, de que não somos vistos por ninguém. A necessidade patológica de exposição, que nos faz renunciar à nossa privacidade (denunciada recentemente por um site russo que tornou públicas as imagens da vida particular dos cidadãos do mundo inteiro capturadas em câmeras na rua, em casa, no escritório etc.), brota da sensação terrível de não sermos vistos por ninguém.

Roberto Girola é psicanalista e terapeuta familiar

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