Por Roberto Girola Em Artigos

Tempo sem história

Para o nosso mundo interno o que vivemos do ponto de vista emocional e o que significamos a partir dessa experiência não é percebido automaticamente como uma experiência de caráter temporal. Nossas experiências mais intensas do ponto de vista emocional são percebidas e vividas “como se” fossem eternas. Ao ligar experiências atuais com lembranças recalcadas (e, portanto, inacessíveis à consciência) o nosso mundo interno distorce o valor das experiências atuais de várias formas.

Uma primeira distorção tem a ver com a “intensidade emocional” que atribuímos às experiências atuais. Tal sobrecarga não vem dos fatos atuais e sim de uma carga afetiva “guardada” no inconsciente, com um equilíbrio energético instável, que busca uma descarga, projetando em eventos atuais a emoção represada, ligada a experiências emocionais do passado. Daí a sensação que “exageramos” ao reagir a determinadas situações do nosso dia a dia que não mereceriam tanta atenção.

A segunda distorção se deve à dificuldade de colocar os fatos na “linha do tempo”. Tudo para o inconsciente parece “eterno”. A história tem a importante função de colocar o que vivemos em perspectiva, mostrando que a nossa forma de conceber as coisas é pontual, inserida em um determinado ponto da linha do tempo. O que percebemos como absolutamente “normal e necessário”, na realidade, já foi vivido de forma totalmente diferente pelo homem em outras épocas e em outros contextos históricos e sociais.

A expressão “na realidade”, mostra que estamos às voltas com o núcleo psicótico do nosso inconsciente que tende a tornar “real” o que nós percebemos como tal. Essa “realidade psíquica” é percebida como “inquestionável”, algo que “sempre foi assim”.

A história nos deveria ensinar alguma coisa, mas, não no sentido clássico de que a História é mestra de vida. Se assim fosse, a história não teria nunca nos ensinado nada, pois a humanidade vive repetindo seus erros. O que a história pode nos ensinar é que o que vivemos é “historicamente” situado e marcado por um “ponto para ver as coisas” peculiar de nossa época, algo que futuramente parecerá engraçado e até absurdo, assim como hoje nos parece absurdo o trabalho infantil na era industrial ou a visão do casamento e da família na antiguidade.

Roberto Girola é psicanalista e terapeuta familiar

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