Por Marcus Eduardo de Oliveira - Jornal Santuário Em Artigos

Tornando o planeta capaz de sustentar a vida

Inequivocamente, a crise ambiental é uma característica e uma consequência lógica de um modelo de crescimento econômico que ignora por completo a integração do elemento ecológico na sua racionalidade.

Não muito diferente disso, a crise social – evidenciada nas mais de 950 milhões de pessoas que enfrentam a fome diariamente e no contingente de 1,4 bilhão de pessoas que vivem com menos de US$ 1,25/dia –, é fruto de descaso dos formuladores de políticas públicas.

Entender essas crises e, mais que isso, mensurar seus impactos à humanidade são de extrema importância para superá-las.

Especificamente em relação à crise ambiental, coube a Jonathan Foley, diretor do Instituto do Meio Ambiente da Universidade de Minnesota (EUA), coordenar um amplo estudo para mensurar aspectos inerentes dessa crise a partir do entendimento dos processos ambientais (fronteiras planetárias) que já se encontram ameaçados, tornando assim o planeta incapaz de sustentar a vida.

Dos nove processos estudados, três deles apresentam margem de saturação, cujo limite ambiental máximo já foi cruzado: 1) a concentração de CO2 na atmosfera (mudança climática); 2) a substancial perda de biodiversidade; e 3) a poluição dos rios e oceanos por nitrogênio e fósforo, despejados pelo constante uso de fertilizantes.

O desafio que se coloca à humanidade, diante desses fatos, é único: promover a erradicação da pobreza e alcançar a sustentabilidade ambiental, evitando a ultrapassagem das fronteiras planetárias e sociais, trazendo a humanidade para a convivência num espaço seguro e equilibrado.

No entanto, diante desse quadro, uma pergunta se apresenta bem oportuna: eliminar a pobreza absoluta, diminuindo ou eliminando a desigualdade social, implica em aumento de pressão sobre as fronteiras planetárias?

Estudo divulgado pela conceituada Oxfam Internacional, confederação que reúne 15 organizações que estão trabalhando juntas em 92 países para encontrar soluções para a pobreza e a injustiça, responde a essa pergunta ponderando que não há pressão sobre a questão ambiental, uma vez que o “alívio” aos problemas sociais acima mencionados pode ser alcançado a partir do uso de poucos recursos adicionais.

Para melhor ilustrar esse fato, cabe trazer na íntegra o conteúdo desse estudo em relação a essa questão.

No que diz respeito aos alimentos, a conclusão é que fornecer as calorias adicionais necessárias a 13% da população mundial que enfrenta a fome exigiria apenas 1% do atual abastecimento global de alimentos. Em relação à energia, os dados sugerem que levar a eletricidade a 19% da população mundial que atualmente não tem acesso a ela poderia ser alcançado com menos de 1% de aumento nas emissões globais de CO2; e, por fim, quanto à renda, a conclusão é que acabar com a pobreza de renda de 21% da população global que vive com menos de US$ 1,25/dia exigiria apenas 0,2% da renda global.

Diante disso, outra conclusão do referenciado estudo chama a atenção: a verdadeira pressão sobre as fronteiras planetárias reside pelo lado do consumo excessivo de recursos praticados por aproximadamente 10% da população mundial mais rica, amparados, para tanto, nos modelos de produção das empresas que produzem para essa faixa populacional consumir.

Em relação a isso, olhando para três pontos principais, carbono, renda e nitrogênio, tem-se que: 1) cerca de 50% das emissões globais de carbono são geradas por apenas 11% das pessoas; 2) cinquenta e sete por cento da renda global encontram-se nas mãos de apenas 10% das pessoas, e, por fim, 3) trinta e três por cento do orçamento de nitrogênio sustentável do mundo são utilizados para produzir carne para as pessoas da União Europeia, aproximadamente 7% da população mundial.

Resultado: a pressão criada sobre as fronteiras planetárias reside, globalmente, nas ações dos consumidores mais ricos do mundo. Isso tem feito a humanidade viver além dos recursos do planeta, consumindo recursos renováveis da Terra como se tivéssemos à nossa bel disposição mais de um planeta para abusarmos e nos satisfazermos.

Marcus Eduardo de Oliveira é economista especializado em Política Internacional

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