Por Alexandre Santos Em Jornal Santuário

Casa presta assistência a soropositivos na Paraíba

Em 1999, o então policial militar Edson dos Santos Silva trabalhava, se divertia, não tomava qualquer medicação, até que começou a notar o surgimento de pequenos tumores pelo corpo. Ao fazer os exames, a descoberta: Edson tinha Aids. Hoje aposentado, o ex-policial relata o medo que sentia. “Logo que confirmou comecei a tomar o coquetel de remédios. Sofri muitos efeitos colaterais. Algumas pessoas não resistiam, e isso me assustava”, recorda.

Foto de: Casa de Convivência João Paulo II

Casa de Convivência João Paulo II - Casa de Convivência João Paulo II

Casa de Convivência João Paulo II presta assistência a
200 soropositivos de baixa renda e acolhe pessoas de
cidades vizinhas que precisam ir à Capital Paraibana
para fazer tratamento no hospital de referência

Edson é apenas um dos milhares de casos de infecção por HIV no Brasil. Levantamento recente do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) aponta que o índice de novos infectados pelo vírus no país subiu cerca de 11% entre 2005 e 2013. Nesse sentido, o Brasil está na contramão do mundo, onde, no mesmo período, a quantidade de casos caiu 27,5%. Segundo os dados da ONU, mortes relacionadas com o vírus registraram queda de mais de um terço, nos últimos 10 anos.

De acordo com o relatório, até o ano passado, 35 milhões de pessoas viviam com o HIV em todo o mundo. No Brasil, são 730 mil soropositivos. Estima-se que 44 mil pessoas tenham sido infectadas com o vírus só em 2013. Ainda segundo os dados da ONU, 16 mil pessoas com HIV morreram no ano passado e mais de 327 mil se tratam com antirretrovirais.

Edson já toma o coquetel há 15 anos e, segundo ele, leva uma vida normal. “Procuro seguir o tratamento e faço exames de rotina. Agora busco uma qualidade de vida melhor”, afirma.

Há seis anos, Edson começou a participar das atividades da Casa de Convivência João Paulo II, em João Pessoa (PB). O espaço presta assistência a portadores de HIV em situação de vulnerabilidade e, em alguns casos, também às famílias dos pacientes.

Além de ajudar na realização do tratamento correto, a casa oferece eventos, oficinas, educação, orientação psicológica, apoio espiritual, momentos de escuta e de orações. “Se não fosse essa casa, acho que muitos de nós já teriam morrido. Aqui recebo tratamento correto, alimentação, apoio psicológico e aprendo a me defender do preconceito. Um portador de Aids tem os mesmos direitos de viver e ser feliz, porque continuo sendo um ser humano igual a todos”, afirma o ex-policial.

Ligada à Arquidiocese da Paraíba, a Casa conta com uma equipe de oito pessoas e é administrada pela Comunidade Católica Missionária Salve Maria. A coordenação fica por conta da fundadora da comunidade, Maria Goretti Felismino. O projeto é mantido pela Arquidiocese, em parceria com o Governo do Estado da Paraíba, através do Fundo de Erradicação da Pobreza. Há também um convênio junto ao Ministério da Saúde, além de doadores que abraçam a causa.

Outra fonte de renda são os trabalhos realizados na Casa, como minijardins, bordados, reciclagem de garrafas de vidro; artesanato e a produção de medicamentos e suplementos alimentares a base plantas medicinais. Os itens ficam à venda na própria Casa de Convivência.

Hoje a Casa de Convivência atende a cerca de 200 portadores, na faixa etária entre 20 e 70 anos. A equipe também acompanha o pré-natal de gestantes portadoras do vírus, na luta para não transmitir a doença ao bebê.

O projeto surgiu em 1996, numa sala na Cúria Metropolitana. A demanda foi tanta que foi necessária a aquisição de uma casa. A partir de parcerias com a Caritas e a instituição alemã Miserereor, foram desenvolvidas várias atividades. Em 2012, a pedido da Secretaria de Saúde do Estado, a casa passou a acomodar pessoas vindas de outros municípios para fazer tratamento no hospital de referência. Para isso, também foi firmado um convênio com o Ministério da Saúde.

De acordo com a coordenadora, a principal necessidade das pessoas é o apoio humano. “A escuta é um dos meios mais eficazes diante dos sofrimentos e conflitos. Fazemos eles entenderem que continuam sendo importantes e amados, que a vida é valiosa e precisa continuar sendo vivida. Começa uma nova etapa, é preciso ter e valorizar mais o cuidado consigo mesmo e com os outros, aderindo ao tratamento com responsabilidade e acreditando que Deus os ama muito, vivendo esse amor no dia a dia”, ressalta.

Já há 10 anos coordenando o projeto, Goretti afirma que o maior sofrimento dessas pessoas vem do preconceito e da discriminação. “Há casos absurdos de rejeição, por familiares, amigos e pela sociedade”, revela. Edson concorda: “superar o preconceito e a discriminação é muito mais complicado, pois destrói uma vida, destrói os sonhos de muitas pessoas. É muito difícil ser rejeitado pela sociedade. As pessoas com Aids precisam ter todos os seus direitos garantidos”, desabafa.

Segundo Goretti, após o atendimento e a escuta, realizados na Casa, vidas têm sido reconstruídas. “Muitas vezes, eles chegam aqui sem esperança, achando que a vida acabou. Na convivência com outras pessoas, percebem que é possível superar tudo isso e recomeçar uma nova vida. Surge um novo horizonte diante deles”, afirma.

Além de apoio psicológico e espiritual, a Casa realiza os chamados grupos positivos, onde são trabalhadas diversas temáticas que visam a contribuir para uma melhor qualidade de vida. Os pacientes também recebem orientações jurídicas, para acessar o benefício previdenciário, ajuda alimentar mensal, café da manhã e almoço, visita domiciliar e hospitalar, oficinas de valorização social e acompanhamento ao setor de adesão ao tratamento”, explica.

Feliz com apoio que recebe na Casa de Convivência João Paulo II, Edson manda um recado a quem, como ele, convive com o HIV. “Os desafios são diários. Não desista da vida, ela continua linda. Eu tenho vencido a cada dia. Vamos adiante, vale a pena”, incentiva.

 

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Por Alexandre Santos, em Jornal Santuário

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