Por Alexandre Santos Em Jornal Santuário

Medidas para incentivar parto normal geram polêmica

A profissional de recursos humanos Fabiane Ribeiro está grávida e já decidiu como quer que Heitor chegue ao mundo. “Creio que o parto normal seja mais saudável para o bebê e para mim. A recuperação da mulher é bem mais rápida e a qualidade de vida pós-parto também, sem contar que diminui os riscos de infecção”, argumenta.

Foto de: Arquivo Pessoal

Denise Claro - Arquivo Pessoal

Denise Claro: "Acho válidas (as medidas), porque
hoje muitas mulheres são submetidas a uma
cesárea desnecessária por puro interesse de
alguns médicos, que visam seu tempo e ganho
financeiro. Porém a mulher deve estar livre para
escolher. Nem todas as mulheres têm estrutura
emocional para um parto normal"

Apesar das vantagens, alguns medos permanecem. Por isso é necessário preparar também a cabeça. “Tenho medo de sentir dores por tempo prolongado. Venho me preparando psicológica e fisicamente para que tudo ocorra conforme o desejado. Tenho muito apoio do meu marido, família e amigos, e isso me dá segurança para tomar a decisão. Procuro não saber sobre experiências negativas de outras mulheres”, declara.

Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 40% dos partos no Sistema Único de Saúde (SUS) são cesarianos. Na rede privada, esse número chega a 84%. O percentual considerado aceitável pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 15%. Segundo relatório da OMS, o Brasil é o campeão mundial de cesarianas e está na contramão do mundo. A cirurgia, que aqui no Brasil tornou-se quase uma regra, é exceção em outros países, usada apenas quando há complicações no parto normal.

Foi o caso da jornalista Denise Claro Campos. Desde o início da gravidez ela se preparou para o parto normal. Porém, na última consulta, já com 39 semanas, a pressão da gestante estava alta, não havia dilatação nem qualquer sinal de trabalho de parto. “Minha pressão na gestação sempre foi baixa, então o fato de estar alta representava um risco para mim. Além disso, o bebê estava em posição difícil. Isso impossibilitou o parto normal”, recorda.

Apesar de preferir o normal, Denise não reclama do parto cesáreo. “A experiência foi tranquila. Minha primeira opção, para uma próxima gestação, continua sendo o parto normal, mas vejo a cesariana como necessária, em alguns casos. Na hora da cirurgia não senti dores, porém a recuperação nos primeiros dias foi bem difícil. Os primeiros dias foram os piores, com dores nos pontos, nos pés e nos músculos, devido à tensão. Mas o amor é maior do que tudo”, afirma.

Uma das explicações dos críticos para a prevalência de cesarianas é simples: é mais prático e rentável para os médicos fazer uma cirurgia rápida do que ficar à disposição da paciente durante horas. Por isso, muitos profissionais apresentam às pacientes todas as complicações que podem ocorrer num parto normal e as convencem a preferir a cesariana.

Para tentar reverter esse processo, no início de janeiro o governo federal lançou uma série de medidas para incentivar o parto normal no país. O alvo são as quase 24 milhões de brasileiras que têm cobertura de obstetrícia nos planos de saúde. As pacientes terão uma caderneta com o registro de todo o pré-natal. Médicos e hospitais terão de informar os percentuais de partos normais e cesarianas. Após 15 dias, se o plano de saúde não repassar as informações, terá de pagar multa de R$ 25 mil.

De acordo com a nova lei, médicos e hospitais só serão pagos se preencherem um relatório completo dos procedimentos aplicados desde o momento em que a mulher entrou em trabalho de parto. As mudanças entram em vigor em julho. A intenção é de que a gestante espere entrar em trabalho de parto, para o médico só então avaliar se há necessidade de uma cesariana. Se não for necessário, a primeira opção deverá ser sempre o parto normal.

Em nota publicada na imprensa, a Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp) se posicionou contrária às medidas do governo. Segundo a nota, as novas regras são inócuas e escondem os verdadeiros motivos para os altos índices de cesarianas no país.

De acordo com a Sogesp, o problema está relacionado à redução progressiva de leitos obstétricos em maternidades e hospitais credenciados, à falta de ambientação adequada nesses hospitais e de equipes de plantonistas presenciais.

Foto de: Arquivo Pessoal

Fabiane Ribeiro - Arquivo Pessoal

"A preocupação é de extrema
relevância para a gestante e
para o bebê, pois, segundo o
Ministério da Saúde, a cesariana,
quando não há indicação médica,
aumenta em 120 vezes o risco de
problema respiratório para o
recém-nascido e triplica o risco de
morte da mãe. O incentivo é ótimo,
em razão de todos os benefícios que
traz para a mãe e para o bebê",
diz Fabiane Ribeiro

A nota chama atenção para outros riscos: “Caso o plano de saúde entenda que a cesárea ocorreu sem necessidade, o médico pode não receber pela realização do parto. Imaginar que categorizar obstetras como bons ou ruins pelos seus percentuais de cesáreas seja a solução é, no mínimo, um desconhecimento profundo do problema”, diz o texto. 

O documento afirma ainda que o grande enfrentamento que o governo deve ter é com os planos de saúde, exigindo que as maternidades credenciadas tenham equipes de assistência obstétrica 24 horas de plantão. A Sogesp contesta até mesmo taxa ideal de 15% de cesáreas da OMS. Segundo a associação, tratam-se de dados antigos e nenhum país desenvolvido trabalha mais com esse percentual atualmente. 

Denise concorda com as medidas, mas acha que a decisão deve ser da mãe. “Acho válidas, porque hoje muitas mulheres são submetidas a uma cesárea desnecessária por puro interesse de alguns médicos, que visam seu tempo e ganho financeiro. Porém a mulher deve estar livre para escolher. Nem todas as mulheres têm estrutura emocional para um parto normal”, afirma.

Fabiane também vê a tentativa do governo com bons olhos. “A preocupação é de extrema relevância para a gestante e para o bebê, pois, segundo o Ministério da Saúde, a cesariana, quando não há indicação médica, aumenta em 120 vezes o risco de problema respiratório para o recém-nascido e triplica o risco de morte da mãe. O incentivo é ótimo, em razão de todos os benefícios que traz para a mãe e para o bebê”, conclui.

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