Por Alexandre Santos Em Notícias

Brasil tem índices alarmantes de partos cesarianos

O Brasil é o campeão do mundo de partos cesarianos. Cerca de 52% dos nascimentos no país são feitos através da cirurgia. Na rede privada, esse percentual chega a 83%. A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que esse índice não ultrapasse 15% dos casos.

Foto de: sxc.hu

Parto cesárea - sxc.hu

Segundo a OMS, não existem evidências científicas que justifiquem mais do que 15% de cesáreas

 

Os dados são da pesquisa Nascer no Brasil – Inquérito Nacional sobre Parto e Nascimento, realizada entre 2011 e 2012 pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Divulgada no final de maio, a pesquisa acompanhou pré-natal e parto de 23.894 mulheres em maternidades públicas, privadas e mistas em 191 municípios de todos os estados.

Para falar sobre o assunto, o JS conversa com a obstetriz Marília Gut. Para ela, a principal causa é a falta de informação.

JS – Por que os médicos, no Brasil, incentivam as mulheres a fazer cesárea, contrariando as recomendações da OMS?

Marília Gut – Infelizmente, a realidade obstétrica atual é alarmante. Segundo a OMS, não existem evidências científicas que justifiquem mais do que 15 % de cesárea. Existem diversos motivos para esses números. Por exemplo, alguns mitos sobre fatores que inviabilizariam um parto normal. Entre eles, circular de cordão, cesárea anterior, falta de dilatação, entre muitos outros.

JS – Por isso as mulheres têm medo de fazer parto normal no Brasil?

Marília – Somos uma sociedade totalmente influenciada por culturas. Os meios de comunicação só mostram mulheres sofrendo durante os partos normais ou partos em que ocorre a morte da criança ou da mãe. Há também a experiência de outras mulheres que passaram por situações traumatizantes. Todas essas informações, somadas aos medos que cada mulher carrega em si, minam a confiança no próprio corpo. Frases como “quero ter parto normal” seguidas de “nossa, como você é corajosa” não a auxiliam na decisão.
Defendo que a mulher precisa se informar, saber quais são as evidências científicas acerca da gestação, quais as fases do trabalho de parto, como ocorre a dilatação e principalmente qual a fisiologia do seu corpo.

JS – Quais riscos podem haver no parto normal e como eles são controlados?

Marília – O parto normal em si não traz riscos, porém é necessário que seja bem monitorado e conduzido. Auscultar o coração do bebê frequentemente, não romper a bolsa artificialmente e não usar medicamentos são medidas que aumentam a chance de um parto normal sem complicações. Caso ocorra alguma complicação, é preciso que a equipe intervenha com os procedimentos necessários, como reanimação neonatal, se necessário, massagem uterina, uso de fármacos que controlem o sangramento e, se necessário, pedir a intervenção médica.

JS – Quais os benefícios do parto normal?

Marília – Como o próprio nome já diz, o parto normal é aquele que é “normal”. Existe uma diferença entre o parto normal e o natural, que não possui intervenções como uso de ocitocina sintética, episiotomia (corte realizado no períneo) ou anestesia.
Em um parto normal ou natural, a recuperação é mais rápida. Além disso, o hormônio responsável pela contração é o mesmo responsável pela produção de prolactina, responsável pela liberação do leite materno. Então dificilmente a mãe que dá à luz dessa maneira não produzirá leite. O parto normal também diminui o risco de prematuridade fetal, já que o trabalho de parto só inicia quando o bebê já está “pronto”. Além disso, durante o processo, o bebê recebe todos os hormônios que o preparam para a vida extra-útero.

JS – Quais os riscos e consequências da cesárea?

Marília – A cesárea é uma cirurgia de grande porte, que só deveria ser realizada em casos de necessidade, como por exemplo placenta prévia, bebê em posição transversa, herpes genital no momento do trabalho de parto, descolamento prematuro de placenta. Outros casos devem apresentar uma razão especial baseada em evidências cientificas.
Mulheres que passam por cesarianas são mais suscetíveis a infecções, sangramentos excessivos, dores pós-parto. Existe ainda risco de prematuridade fetal e dificuldades com a amamentação.

JS – Que tipo de acompanhamento uma obstetriz realiza?

Marília – A obstetriz é uma profissional com graduação em Obstetrícia ou formada em Enfermagem e especialização em Obstetrícia. O termo vem do latim obstare, que significa estar ao lado.
Então nós trabalhamos na educação e na promoção da saúde das mulheres, dos recém-nascidos, das famílias e da comunidade com foco especial no gerenciamento do cuidado e na atenção às mulheres durante a gestação, parto e pós-parto.

JS – A partir de quantos meses a gestante começa a ser acompanhada?

Marília – O acompanhamento pode acontecer desde as primeiras semanas de gestação e segue no pós-parto, com orientações de cuidados com o recém-nascido, auxilio na amamentação, entre outras dúvidas que surgem no período.

JS – Que tipo de recomendações você dá a uma mulher que inicia seu processo de gestação?

Marília – Principalmente que ela busque se informar, saber qual a realidade obstétrica brasileira, acreditar no seu próprio corpo e principalmente que ela busque uma equipe que tenha atuação baseada em evidências científicas.

JS – Ultimamente tem se falado muito nas doulas? O que é uma doula?

Marília – Apesar de não possuírem formação técnica na área da saúde, elas oferecem suporte físico e emocional, orientando e assistindo a gestante no parto e nos cuidados com o bebê.
Elas atuam tanto no parto hospitalar quanto domiciliar. É fundamental que doula e gestante criem um vínculo e que a equipe que prestará assistência aceite a presença dessa profissional.

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