Por Jornal Santuário Em Notícias Atualizada em 18 MAR 2019 - 12H00

Criança “birrenta” pode virar adolescente antissocial


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Debulhar-se em lágrimas, gritar ou até chutar alguém ou algum objeto que está por perto. Essas são algumas técnicas utilizadas por crianças que fazem “birra” para chamar a atenção de quem está por perto.

A birra é uma atitude comum, segundo a psicóloga Ana Paula Casagrande Silva, a criança faz birra para conseguir algo e que tal comportamento ocorre diante de episódios de frustração. Muitas vezes, são os próprios pais que estimulam isso.

Segundo o psiquiatra Guilherme Torres, a birra faz parte do comportamento infantil e surge por volta do primeiro ano de idade, como tentativa da criança de expressar vontades e demonstrar certa independência.

Torres avalia que até crianças mais quietas podem apresentar esse tipo de comportamento e que uma das explicações para isso é a imitação. “Ao ver um amiguinho chorar ou se comportar mal por um objeto de desejo e conseguir, a criança, involuntariamente, tende a repetir e tentar a sorte também”, ensina.

De acordo com Ana Paula, outra situação que pode acabar em birra é quando a criança quer chamar a atenção dos pais, simplesmente por passar despercebida.

Há também os casos em que a birra vira moeda de troca. Ela cita como exemplo uma criança que está jogando videogame mas é avisada pelos pais que chegou a hora de dormir. Após chorar intensamente, os pais cedem, permitindo mais 30 minutos de jogo. “A partir de então, a criança aprende a fazer birra quando tem algum pedido negado, pois após ter apresentado esse comportamento conseguiu que os pais cedessem”, explica.

De acordo com a psicóloga, geralmente os pais acabam cedendo aos apelos e isso aumenta a probabilidade de os pequenos fazerem birra novamente diante de outras situações de frustração, já que houve recompensa.

A situação tende a ser pior em locais públicos, porque os pais envergonham-se e atendem ao pedido dos filhos para cessar a pressão. “Outras circunstâncias que facilitam é quando os pais estão cansados, tendo menos paciência para tolerar a birra, ou realizando outras atividades cuja birra atrapalhe, como atender ao telefone, assistir a um programa de televisão, ler um livro etc.”, pontua.

Desse modo, a birra acaba por tornar-se um “ciclo vicioso”, em que os pais cedem porque já não suportam mais o choro e os gritos, fortalecendo os comportamentos de birra, que passam a acontecer cada vez mais. 

Ignorar é a melhor solução

Alguns pais usam a estratégia da punição para lidar com a birra dos filhos, batendo ou colocando os pequenos de castigo. Será que esse é o melhor caminho para driblar o problema?

Para Ana Paula, ignorar é a melhor solução. “Ao discutir, gritar, bater ou ceder, estarão dando atenção a esse comportamento e aumentando as chances de que o mesmo continue a ocorrer”, adverte.

Por outro lado, quando o comportamento é ignorado, a frequência acaba diminuindo. A psicóloga explica a dinâmica: “Sem plateia, não há show. Além disso, a atitude dos pais de bater ou gritar com os filhos é um modelo inadequado, podendo contribuir para o aprendizado de comportamentos agressivos”.

Afinal, uma das maneiras de as crianças aprenderem é observando as pessoas. Diante disso, ela não recomenda fazer o que não deseja que os filhos façam.

Os pais devem ensinar aos filhos comportamentos adequados, dentre eles, habilidades sociais cuja aprendizagem pode prevenir problemas de comportamento. “Estudos mostram que crianças com habilidades sociais relacionam-se melhor com as pessoas e têm menor risco de apresentarem diversos problemas psicológicos na infância, como timidez, fobia social, depressão e ansiedade”. 

Por que os pais não devem ceder?

Ana Paula alerta que, ao ceder à birra, os pais estão ensinando a criança que tal comportamento é efetivo para lidar com frustrações e, portanto, ela continuará agindo assim. “Quanto mais os pais cedem, mais frequentemente a criança fará birra”, explica.

Ela ressalta que amar os filhos não é fazer ou dar tudo o que eles querem, mas ensinar limites e o seguimento de regras. Assim, a criança vai aprendendo o que é certo ou errado, construindo seus valores.

Ao contrário, se os pais cederem a todos os desejos dos filhos, o resultado é a tolerância à frustração. “Podem tornar-se pessoas com dificuldades para lidar com limites e resolver problemas”, adverte a psicóloga.

Além disso, essas crianças poderão apresentar sérios problemas de comportamento antissocial no futuro, como mentir, agredir, destruir e até mesmo roubar, podendo ser rejeitadas pelos colegas. 

Outras dicas 

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O psiquiatra Guilherme Torres passa outras dicas que vão ajudar os pais a lidarem com a birra. Confira: 

̶  Em vez de “explodir”, os pais devem agir com firmeza, autoridade e muita calma.

̶  Pais devem ter em mente que a capacidade em aceitar regras faz parte do amadurecimento da criança e se desenvolve ao longo do tempo.

̶  Muita atenção ao lidar com a birra, pois crianças que nunca são contrariadas tendem a se tornar adultos agressivos, irritadiços e com tendência à depressão.

̶  Quando não há limites a criança sente mais insegurança e maior dificuldade em ficar longe dos pais ou de se relacionar com outras pessoas.

̶  Se os pais cedem a cada desapontamento do filho, estimulam uma personalidade que não sabe lidar com a frustração.

̶  A frequência de choros e outras formas de mau comportamento para conseguir algo pode indicar um problema mais sério e, nesses casos, vale procurar ajuda de um especialista.


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