Por Deniele Simões Em Notícias

Culto aos santos populares marca religiosidade vale-paraibana

A região metropolitana do Vale do Paraíba é uma das mais desenvolvidas do Estado de São Paulo. Dona de um parque industrial diversificado, ela também engloba uma gama enorme de comércio, serviços e atividades agropecuárias.

Além da economia pujante, o Vale do Paraíba é marcado por uma cultura fervilhante, também chamada de Cultura Caipira, que abarca uma série de fatores, com destaque para a religiosidade popular.

“É uma religiosidade híbrida, plural, formada historicamente a partir de tradições lusas, tradições africanas e tradições indígenas”, aponta a professora Cristiane Moreira Cobra, do Instituto Básico de Humanidades da e pesquisadora do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas de Práxis Contemporânea da Universidade de Taubaté (Unitau).

Foto de: Reprodução 

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O Vale é riquíssimo em devoções e a fé manifesta-se sob várias formas. Uma das mais comuns é o culto aos santos populares não oficializados pela Igreja Católica.

Cristiane Cobra, que além de professora é filósofa, mestre em Ciência da Religião e doutoranda em Ciências Sociais, explica a origem dessas devoções. “Segundo as pesquisas, a devoção popular surge mediante histórias de dor e sofrimento, martírios, mortes violentas por acidente ou decorrente da maldade humana.”

Ela ressalta ainda a coexistência de versões diversas sobre a vida desses santos de cemitério e as razões de suas mortes, já que a chamada rede de devoção constitui-se através da tradição oral.

Principais devoções

Para Cristiane, a devoção popular no Vale do Paraíba é realmente rica. Uma das práticas mais recorrentes é visitar túmulos de padres, crianças, mulheres e até andarilhos. Os fiéis atribuem muitas graças a essas pessoas.

É o caso de Neusa Carvalho Souza, de Pindamonhangaba (SP), que é devota do padre Vítor Coelho de Almeida, missionário redentorista que fez história em Aparecida (SP) e passa por processo de beatificação.

Padre Vítor é considerado santo pelos romeiros e dona Neusa diz ter alcançado muitas graças através dele. Uma delas foi casar bem a filha. “Continuo pedindo a intercessão dele para alcançar muitas outras graças, porque tenho certeza de que ele vai interceder por nós”, conta.

Além de Aparecida, outras cidades do Vale cultivam esse tipo de devoção. Na Rodovia dos Tropeiros, entre Cachoeira Paulista e Silveiras está localizado o Santuário de Santa Cabeça, que recebe muitas visitas. “É um local de peregrinação, por conta de uma cabeça de uma imagem de Nossa Senhora ali encontrada e que se tornou objeto de devoção popular ao longo de décadas”, conta a professora. A devoção baseia-se no culto a uma cabeça de uma imagem da Virgem Maria, que possivelmente foi encontrada por tropeiros no rio Tietê.

Foto de: Eduardo Gois / JS

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Regiane Miriam dos Santos, de
Taubaté, pede intercessão da
menina Danielle, em Taubaté

Na cidade de Cunha, Sá Mariinha atrai as atenções dos fiéis. “Era uma senhora negra, ‘rezadeira’, que é objeto de devoção também por décadas”, completa Cristiane. No local onde ela morou, hoje existe uma bica considerada santa e um centro de fé que recebe romarias com frequência. 

Taubaté também é um município rico em devoções de cemitério. No cemitério do Belém, um dos túmulos mais visitados é o da menina Danielle, que recebe doces, chupetas, presentes, balas e outras oferendas constantemente.

A cozinheira Regiane Miriam dos Santos, moradora do bairro Vila Olímpia, costuma rezar para a menina quando está em dificuldades. “Eu peço para ela, prometo que venho aqui rezar, trazer um presentinho para ela e então venho”, conta. A devoção à menina começou a partir da fama de santa, difundida pelos fiéis que frequentam o cemitério.

São José dos Campos, considerada a capital do Vale, tem a religiosidade popular bastante presente, conforme atesta a cientista social Maria Angela Piovesan Savastano, do Museu do Folclore da Fundação Cultural Cassiano Ricardo (Fccr). “O joseense é um povo muito rico no seu modo de rezar e tem até orações próprias”, justifica.

As devoções mais populares são ao padre Rodolfo Komorek, Madre Teresa do Jesus Eucarístico e a um objeto de gesso denominado Santa Perna, que está abrigado em uma capela com o mesmo nome.

Religiosidade marcada por múltiplos fatores

De acordo com Cristiane Cobra, existem três matrizes que explicam a influência do desenvolvimento da religiosidade popular na região do Vale. “A matriz colonizadora veio com jesuítas e bandeirantes, que trouxeram em sua bagagem seus hábitos cristãos, seus costumes, sua moral, sua viola, sua música, seus rituais, vestimentas, idioma etc.”, ressalta.

A matriz indígena também permanece na cultura regional. A professora cita a diversidade de povos, rituais, crenças, costumes, danças, ritmos marcados nos pés, múltiplos idiomas e práticas alimentares, a relação de equilíbrio e respeito com os ciclos da natureza, a moralidade e as práticas sociais festivas tradicionais como fatores mais preponderantes.

E, por último, a matriz africana caracterizada pela força de povos diversos, trazidos violentamente para compor nosso país, trouxe hábitos alimentares, instrumentos musicais, idiomas, práticas rituais, danças, crenças, histórias e costumes que, sincreticamente, permaneceram e marcam a pluralidade da Cultura Popular Caipira e da religiosidade regional.

Foto de: Carolina Alves / JS

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Angela Savastano atribui força da religiosidade regional
ao convívioem comunidade no período áureo do café

Angela Savastano acredita que, em função de aspectos históricos, como a colonização, a presença de povos vindos da Europa e África, e a presença das manifestações indígenas, o Vale possui um traço muito rico e diversificado.

A cientista social cita também como influência na religiosidade a exploração do interior para o plantio de várias culturas, como o café. “O homem vai se afastando da cidade e esse isolamento físico fortalece essa característica de ser festeiro, de ser religioso”, comenta.

Segundo ela, na época em que a região vivia o ciclo do café, entre os séculos XVIII e XIX, as pessoas moravam em núcleos, onde vivenciavam momentos de fé sem muita interferência. “Eles resolviam seus problemas ali, com suas orações, suas preces e seus remédios. Então, isso tudo formou essa cultura que a gente chama de cultura caipira, que é muito forte no Vale do Paraíba”, conclui.

“Canonizados pelo povo”

Para Cristiane Cobra, as devoções populares surgem por iniciativa do povo, por identificação com histórias de sofrimento ou martírio. Porém, o reconhecimento e a oficialização da Igreja dependem de um árduo processo.

Angela Savastano costuma utilizar a expressão “canonizados pelo povo”, ao falar sobre os santos populares, que não foram reconhecidos pelo Vaticano ou não são conhecidos pelas autoridades eclesiásticas. “Não é um ritual de canonização oficial; o fiel coloca essa pessoa, principalmente depois de morta, com os outros santos canonizados. São os santos espontâneos e isso existe no mundo inteiro”, relata.

Segundo a cientista social, essa devoção desencadeia um comportamento bastante particular, que é a visita ao local onde o corpo do “santo” está enterrado e o depósito de flores e outras oferendas.

“Começam ali os rituais, também espontâneos, que o próprio homem cria, para dizer que esteve ali rezando por aquela pessoa santa, recebendo graças e provando isso”, explica.

Foto de: Arquivo Pessoal

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Cristiane Cobra: "A devoção popular surge mediante
histórias de dor esofrimento, martírios, mortes violentas
por acidente ou decorrente da maldade humana"

De acordo com a professora da Unitau, tanto no Vale como em outras regiões do país, a cultura popular é marcada não só pelo culto a esses santos, mas por festas, danças, músicas, comidas e outras práticas de cunho religioso. Ela ressalta que as congadas, moçambiques, jongos, festas do Divino, de São Benedito, folias de Reis e até mesmo o Carnaval têm raízes religiosas. 

Posicionamento da Igreja

Na avaliação de Cristiane, os santos oficiais inicialmente dependiam da avaliação hierárquica do Vaticano, que verificava a vida exemplar dos candidatos à santidade. “Porém, no decorrer da história e com o desenvolvimento científico, a Igreja passou também a considerar e avaliar cientificamente a credibilidade dos possíveis milagres”, justifica. Só que, para quem crê, os santos não oficiais podem ter a mesma força daqueles já oficializados. “Importam mais a identificação e a fé do povo”, salienta.

A posição oficial da Igreja Católica em relação a essas devoções é de acolhimento e respeito. “Independentemente de serem reconhecidas ou não, há um profundo respeito”, explica mestre em Ciências da Religião e doutor em Sociologia, padre José Carlos Pereira.

Segundo ele, o tema foi tratado no Documento de Aparecida, fruto da Conferência do Conselho Espiscopal da América Latina e Caribe, em 2007. No texto, os bispos latino-americanos afirmam que é preciso respeitar as manifestações populares que estão dentro das paróquias e Igrejas.

Na opinião da especialista da Unitau, a Igreja Católica amplia-se e enriquece-se ao acolher as devoções populares e buscar compreender a fé popular com respeito e interesse. “Incentivar pesquisas nessa área, assim como analisar os inúmeros resultados já disponíveis de pesquisas sobre devoções populares e religiosidade popular é um excelente caminho”, pontua.

Cientista social explica ligação entre humano e divino

A necessidade de ligação do homem com uma força superior é algo inerente ao ser humano. A explicação é da cientista social Angela Savastano. “Nós, homens e mulheres, somos frágeis e, assim como sempre buscamos a sabedoria e entender os fenômenos, há a necessidade de estar protegido”, salienta.

Segundo Angela, a proteção é algo necessário ao homem em todos os sentidos, não só no tocante à saúde e à alimentação como sob o aspecto espiritual. “A maior necessidade, além do físico, é do espírito e, por isso, o homem recorre a quem pode ajudar.”

Foto de: Carolina Alves / JS

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Irmão Alberto Gobbo: "Se as palavras comovem,
como diz São Paulo, o exemplo arrasta e as pessoas
ficam mesmo encantadas com a virtude dos santos"

A pesquisadora diz que esse fenômeno é comum em todo o mundo e que as pessoas, por serem frágeis, criam caminhos para sentir-se protegidas. Isso faz com que, muitas vezes, o ser humano busque proteção até mesmo nos objetos.

“Eu tenho um santo, peço para o padre abençoar e levo esse objeto para a minha casa, para me proteger”, exemplifica. O mesmo pode ocorrer com um símbolo do Divino Espírito Santo, ou com ervas consideradas sagradas, no caso de outras religiões e cultos.

De acordo com Angela, até mesmo os ateus podem manifestar essa necessidade de proteção. “É muito comum a pessoa dizer que não acredita em nada, mas na hora do perigo, pronuncia o nome de Deus ou de Nossa Senhora.” Isso reforça a existência de algo superior ao próprio ser humano, que ele não compreende, mas demanda a necessidade de proteção.

Ainda segundo a pesquisadora, o homem tem o costume de experimentar aquilo que parece trazer mais proteção. “E o Vale do Paraíba tem esse catolicismo folclórico, cheio de rezadores, que não são os padres ou figuras oficiais da Igreja, mas pessoas que rezam”, detalha.

Esse fenômeno faz com que orações sejam decoradas e recriadas, a partir da leitura de mundo dessas pessoas, conferindo uma riqueza muito grande à religiosidade regional.

Salesianos aguardam reconhecimento de padre Rodolfo

 O sacerdote polonês salesiano Rodolfo Komorek é considerado santo em São José dos Campos, mesmo ainda não tendo sua santidade reconhecida pelo Vaticano.

O religioso, que viveu na cidade entre 1940 e 1949, sofreu com a tuberculose e, mesmo desenganado, não deixou de assistir os doentes e mais necessitados. Foi daí que nasceu a fama de santidade.

“Ele andava a pé, não pegava carro. Humilde, fez voto de pobreza e é considerado um santo. Era um homem especial”, conta Angela Savastano. Para ela, o religioso foi eleito santo pelo povo.

Foto de: Reprodução

Devoções Regionais - Foto Reprodução

O irmão salesiano Alberto Gobbo, da paróquia Sagrada Família, onde estão depositadas as relíquias de padre Rodolfo, diz que o caminho é longo até a canonização. 

Segundo ele, o processo de beatificação tramita no Vaticano e é acompanhado pela Congregação Salesiana, que já possui oito santos reconhecidos oficialmente.

Até o final da década de 1990, o corpo de padre Rodolfo estava no cemitério que leva o mesmo nome do religioso. Depois, houve a transferência para a paróquia e hoje o túmulo passa por reformas.

Ao falar sobre padre Rodolfo, irmão Alberto cita a existência de pelo menos sete mil graças alcançada pela intercessão do sacerdote polonês. “São pessoas que obtiveram curas de doenças, tiveram filhos que se libertaram das drogas, do álcool”, explica.

A procura pelo túmulo do religioso já foi maior, mas a devoção ainda permanece. Irmão Alberto acredita que as pessoas necessitam de santos e o culto ao padre Rodolfo vai ao encontro dessa necessidade.

Para o irmão salesiano, o exemplo de pessoas como padre Rodolfo é capaz de unir os fiéis. “Se as palavras comovem, como diz São Paulo, o exemplo arrasta e as pessoas ficam mesmo encantadas com a virtude dos santos”, justifica, ao citar os exemplos de Madre Teresa de Calcutá, Francisco de Assis, entre outros.

Ele acredita que os santos fazem as pessoas despertar um pouco mais de fé em Deus e de esperança para o bem. “A devoção aos santos é isso: são nossos advogados, nossos intercessores diante de Deus. Isso cai na onda do povo e ninguém mais tira”, acrescenta.

A diocese de São José dos Campos tem três processos de beatificação em andamento: padre Rodolfo Komorek, madre Teresa do Jesus Eucarístico e o mártir leigo Franz de Castro, que atuou junto à Pastoral Carcerária na década de 1970.

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