Por Alexandre Santos Em Notícias

“Deserto é lugar de nos conhecermos mais”, diz padre

“Voltando do Jordão, foi conduzido pelo Espírito ao deserto, onde foi tentado pelo demônio durante quarenta dias. Durante esse tempo, ele nada comeu e, terminados esses dias, teve fome.”

É assim que o capítulo quatro do Evangelho segundo São Lucas descreve os quarenta dias nos quais Jesus se preparou para iniciar a vida missionária, que culminaria com a sua Paixão e morte.

Foto de: Arquivo Pessoal

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Padre Pedro Cunha: "No deserto, temos tempo
para rezar, temos o silêncio, a luz. O deserto deve
nos testar e, ao mesmo tempo, nos preparar"

Em toda a Bíblia, a experiência do deserto expressa esse aspecto de treinamento, onde o homem se priva das regalias e se prepara para enfrentar suas batalhas.

No deserto, o povo de Deus, libertado da escravidão do Egito, passou quarenta anos até chegar à terra prometida. Ao longo desse tempo, inúmeras vezes Moisés precisou relembrar os feitos de Deus a um povo impaciente e incrédulo.

Essa tensão entre o desejo de corresponder ao amor divino e a fragilidade humana está presente nos textos relacionados ao tempo da quaresma, iniciado no último dia 5. A experiência desértica relembra a necessidade de conversão, de retomada da fé, da caridade e da intimidade com Deus por meio da oração.

Para padre Pedro de Almeida Cunha, que lançou recentemente o livro Quaresma: uma palavra para cada dia, a imagem do deserto tem a força de colocar o homem diante de seus próprios limites. “Essencialmente o deserto é lugar de nos conhecermos mais, analisarmo-nos mais. Somos obrigados a verificar exatamente quem somos e quais são nossas forças. No deserto, temos tempo para rezar, temos o silêncio, a luz. O deserto deve nos testar e, ao mesmo tempo, nos preparar”, reflete.

O padre recorda que, nos 40 dias da quaresma, a Igreja convida cada um a viver aspectos muito importantes da vida cristã: a oração, a penitência, o jejum, a caridade. “Viver esse tempo quer dizer colocar em prática estas realidades até o limite de nossas forças. A quaresma não é um tempo só para coisas interiores, mas também para realidades práticas que possam transformar a nossa vida e a vida da sociedade”, argumenta.

Por que fazer jejum e penitência?

Tempo de preparação para a celebração da Páscoa, a Quaresma tem como alguns dos seus pilares o jejum e a penitência. De acordo com o padre Pedro Cunha, essa prática está ligada ao amor que Jesus tem pela humanidade, capaz de levá-lo a aceitar passar por um sofrimento sem precedentes. “Nossa penitência tem mais sentido quando é feita a partir desse contexto do amor de Jesus, e não com base no sofrimento pelo sofrimento”, alerta.

Na busca de uma penitência para viver durante a Quaresma, muitas pessoas resolvem deixar pequenos hábitos prazerosos do dia a dia, como comer chocolate ou tomar refrigerante. Embora seja um tempo de conversão, que convida a uma mudança de vida, de hábitos, de atitudes, muitos, após esse período, voltam a agir da mesma maneira que agiam antes.

O padre Pedro explica que essas práticas estão mais ligadas ao jejum. Para ele, o simples ato de abrir mão de uma coisa de que gosta já é um sinal de que se está disposto a repensar a própria vida. Contudo, ele ressalta que melhor seria se essa atitude mobilizasse a vida na direção da fraternidade em relação ao outro. “Não basta deixar de comer chocolate, é preciso que o chocolate que eu deixei de comer seja presenteado a alguém que não tem condições de comprar um”, aponta.

Segundo ele, o sentido para o exercício da caridade é a própria paixão de Cristo. “O maior sentido da morte de Jesus foi o seu imenso amor por nós. O sentido maior de nossa quaresma consiste em o reconhecermos na pessoa de cada irmão, especialmente os mais pobres e abandonados”, conclui.

Clima de sobriedade

Durante o período da quaresma, as paróquias e comunidades deixam de usar flores para ornamentar as igrejas. Revestidos com toalhas e paramentos de cor roxa, os espaços litúrgicos ganham um tom sóbrio e austero. Em muitas paróquias mantém-se o costume de cobrir as imagens durante esse período.

Padre Pedro explica que na quaresma a Igreja se despe de toda beleza exterior, por isso não se usam flores, não se canta aleluia e usam-se poucos instrumentos musicais. “Com isso, queremos dizer que, em nossa meditação sobre a entrega de Jesus, ele se despiu de tudo por amor a nós. Tendo sido morto, na Páscoa ele ressurge. Nós também morremos para tudo o que é glamouroso, mas a certeza que nos acompanha é a de que, na manhã da ressurreição, música, flores, cantos e festa serão certezas de vida”, reflete.

Vida de oração

A prática da oração também é incentivada de maneira mais intensa durante esse período. Na quaresma, cada católico é convidado, de modo especial, a cultivar e aprofundar a próprio relacionamento com Deus na intimidade.

De acordo com o sacerdote, o incentivo é importante, pois há várias maneiras de se relacionar com o Criador. Segundo ele, há católicos que são muito orantes, mas também existem os que quase não rezam. “Rezar é conversar com Deus. Nós só conversamos com alguém quando esse alguém é importante para nós, e temos amor por ele. Ou quando precisamos e não há outro jeito. Há católicos que rezam por amor a Deus, sentem-se à vontade para conversar sempre. Mas também há católicos que não têm intimidade nenhuma com Deus e só rezam quando precisam pedir alguma coisa”, afirma.

Contudo, o padre ressalta a importância de orar em qualquer tempo. Segundo ele, embora contenha um incentivo maior à oração, a quaresma não sugere um jeito diferente rezar. “A oração nesse tempo deve ser como em qualquer outro: verdadeira, autêntica, simples e sincera”, destaca.

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