Por Deniele Simões Em Notícias

Diversidade não pode ameaçar unidade da Igreja, diz Francisco

“Ao longo destes dois milênios de cristianismo, uma quantidade inumerável de povos recebeu a graça da fé, fê-la florir na sua vida diária e transmitiu-a segundo as próprias modalidades culturais.”

Este trecho da Evangelii Gaudium, primeira exortação apostólica do Papa Francisco, remete à diversidade e ao pluralismo de ideias que permeiam a Igreja Católica, onde o cristianismo assume o rosto de várias culturas e dos vários povos que professam a mesma fé.

Foto de: www.jesuitasbrasil.com

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Para padre Libânio, fundamentalistas devem ser
ajudados e não rejeitados

No documento, Francisco salienta que, se for bem entendida, a diversidade cultural não ameaça a unidade da Igreja. “É o Espírito Santo, enviado pelo Pai e o Filho, que transforma os nossos corações e nos torna capazes de entrar na comunhão perfeita da Santíssima Trindade, onde tudo encontra a sua unidade”, escreve.

O Pontífice reconhece que algumas culturas estiveram intimamente ligadas à pregação do Evangelho e ao desenvolvimento do pensamento cristão, mas a mensagem revelada não se identifica com nenhuma delas e tem um conteúdo transcultural.

Diante disso, a mensagem que se anuncia sempre apresenta uma roupagem cultural. “Mas às vezes, na Igreja, caímos na vaidosa sacralização da própria cultura, o que pode mostrar mais fanatismo do que autêntico ardor evangelizador”, denuncia.

Esse fanatismo a que Francisco se refere muitas vezes abre espaço para a discórdia, afastando-se da premissa básica de que a centralidade da fé deve estar em Cristo e não nas estruturas eclesiais.

Para o missionário jesuíta, escritor e teólogo, padre João Batista Libânio, a linguagem da fé tem dois níveis importantes. O primeiro – e que não suscita dúvidas – é de que a unidade da Igreja dá-se em Jesus. “Não existe nenhuma dúvida nesse nível, mas se alguém pergunta o que significa ‘unidade da Igreja’, as interpretações divergem”, explica.

Segundo ele, as estruturas são cercadas de normas e determinações concretas, gozam de menor espaço interpretativo e, portanto, manifestam mais claramente uma direção e oferecem maior firmeza. “Pessoas que têm dificuldade de suportar a diversidade interpretativa das verdades preferem ater-se às estruturas por maior segurança”, ressalta.

Padre Libânio cita como exemplo os ministérios na Igreja, que estão a serviço do povo de Deus. “A afirmação parece clara. Encontra-se nos documentos da Igreja, nos discursos do magistério, mas um pároco interpreta que o serviço consiste em ele decidir o importante na paróquia. Outro julga que deve ouvir as pessoas”, pontua.

Foto de: Arquivo Pessoal

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Fábio Antonio Gabriel: "Infelizmente, muitas vezes,
privilegiam-se aspectos secundários que acabam
demonstrando a diversidade daqueles que creem
em Cristo como o único Salvador e, com base em
tal entendimento, promovem-se desavenças"

Já o professor de filosofia, bacharel em teologia pela PUC-PR e especialista em ética, Fábio Antonio Gabriel, ressalta que os próprios documentos da Igreja são muito claros no que concerne ao ponto para o qual convergem todos os elementos da fé cristã, ou seja, a fé em Cristo em harmonia com o mistério trinitário: Pai, Filho e Espírito Santo. 

O problema é que nem todos compreendem o essencial disso. “Infelizmente, muitas vezes, privilegiam-se aspectos secundários que acabam demonstrando a diversidade daqueles que creem em Cristo como o único Salvador e, com base em tal entendimento, promovem-se desavenças”, avalia.

Padre Libânio aponta como caminho discutir mais as interpretações das afirmações abstratas e gerais, assim como o sentido de tornar as coisas mais claras e precisas. “E procurar ver em que as estruturas concretizam ou não a doutrina. Esse é o caminho que percebo”, completa.

Divergências x fundamentalismo

O processo de intolerância dentro da própria Igreja tem registrado aumento significativo, ao começar pelo exemplo da França, onde grupos conservadores brigam motivados pelo fundamentalismo.

Um dos exemplos mais emblemáticos foi o do cardeal Marcel Lefebvre, que na década de 1970 se rebelou contra as mudanças implementadas a partir do Concílio Vaticano II. Lefebvre ficou conhecido por fundar a Fraternidade Sacerdotal de Pio X, que se dedicou à formação de padres e ao apostolado na forma pré-conciliar.

Mesmo diante dos apelos do então Papa João Paulo II, em 1988, Lefebvre ordenou novos bispos para Fraternidade. Acabou sendo excomungado, juntamente com os quatro religiosos ordenados. Em janeiro de 2009, no desejo de recompor a ruptura ocorrida com a Fraternidade, o Papa Emérito Bento XVI revogou a excomunhão desses religiosos.

De acordo com padre Libânio, existem duas atitudes a serem tomadas em face de atitudes fundamentalistas, como a que teve Lefebvre. Quanto às pessoas, cabe a prática da caridade, da compreensão e, enquanto possível, ajudar os fundamentalistas a encontrar a paz interior. “Não poucos são conservadores por insegurança existencial, por razões afetivas, por busca de reconhecimento social, por problemas pessoais. Eles carecem ser ajudados e não rejeitados”, pontua.

Foto de: Arquivo Pessoal

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Flávio Sofiati: "À medida que a
Igreja vai se articulando em
estruturas, cria mecanismos de
sobrevivência que vão para além
da fé em Cristo"

Ainda segundo o jesuíta, no nível da discussão teórica é importante desvendar e revelar o que se esconde por trás do fundamentalismo, tentando confrontá-lo com as atitudes e práticas de Jesus.

Diversidade de carismas e unidade

Mesmo com a divergência entre fiéis que professam a mesma fé, a Igreja Católica mantem-se firme como uma instituição sólida, com mais de dois mil anos de existência.

Qual seria, então, o segredo para sobreviver ante a essas intolerâncias? Padre Libânio aponta que, diferentemente de outras instituições e por sua longa tradição e amplitude – mais de 1 bilhão de membros – consegue “bom jogo de cintura”. “Se, de um lado, legisla e determina as estruturas, de outro, conhece o princípio da ‘epikeia’, que lhe permite flexibilidade na maneira concreta de vivenciar a estrutura”, explica.

Segundo o jesuíta, tal princípio remete à capacidade de interpretação da estrutura sem apego à letra, mas ao espírito que presidiu o legislador. “Jesus deu muitos exemplos na sua vida. Basta citar o de lavar as mãos antes das refeições. Quando o interpelaram porque ele não o observara, contesta que importante é ter o coração limpo”, contextualiza.

O teólogo Fabio Antonio Gabriel reforça lembrando que a beleza da Igreja reside justamente nesse constante reavaliar-se e, apesar dos limites, continuar evangelizando.

Para ele, as nomeações de bispos, por exemplo, acabam por conduzir a um direcionamento importante para a superação das intolerâncias. “Se o Vaticano nomear mais pastores com experiência de paróquia, de contato com o povo, nunca de simples e de meros burocratas – embora também necessários – teremos uma Igreja mais humana e em diálogo com as alegrias e com as esperanças dos nossos dias atuais”, conclui.

Para sociólogo, conflitos acompanham tendências

Se o que une os cristãos é a fé em Cristo, isso pressupõe um carisma. A opinião é do especialista em sociologia da religião, Flávio Munhoz Sofiati. “À medida que a Igreja vai se articulando em estruturas, cria mecanismos de sobrevivência que vão para além da fé em Cristo e que pressupõem elementos que ultrapassam a própria experiência de fé”, justifica.

Sofiati acredita que, para estruturar uma Igreja, além do carisma são necessários outros elementos que deem sentido à sua permanência na sociedade.

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No caso da Igreja Católica, em determinado período da história havia a composição com o Estado, mas hoje as estruturas estão arraigadas à sociedade civil. Em função disso, a Igreja acaba vivenciando as experiências de disputa da própria sociedade civil. 

Sob a ótica da sociologia da religião, Sofiati aponta uma dinâmica baseada em várias tendências, que são formadas a partir de grupos dentro da Igreja Católica e que se relacionam prioritariamente com setores específicos. “É a partir dessa lógica que você acaba tendo um tipo de relacionamento que, em vez de priorizar a fé em Cristo, tem outros elementos.” De certo modo, isso afasta-se da perspectiva comunitária, que é a base do cristianismo.

Principais correntes do catolicismo brasileiro

De acordo com Sofiati, é possível identificar quatro tendências bem claras dentro do catolicismo brasileiro. O sociólogo explica cada uma delas.

Tradicionalistas – Grupo bastante ligado à questão da hierarquia e outros aspectos voltados à experiência mais tradicional da fé católica. Tem como principais expoentes os movimentos Opus Dei, Arautos do Evangelho e a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP).

Reformistas – Grupo formado por setores que atuam na perspectiva de evangelização sob a ótica educacional. Têm uma relação estreita com aspectos relacionados aos direitos humanos. É basicamente composto por congregações de freiras e padres, como maristas, salesianos, paulinos, paulinas, entre outros.

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Radicais – Tendência composta por setores ligados ao cristianismo da libertação, referenciado pela teologia da libertação. Sofiati relata há certo enfraquecimento do movimento, mas admite que a presença do grupo na sociedade ainda é muito relevante. As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), pastorais sociais e alguns setores de pastorais juvenis são tidos como principais exponentes.

Modernizadores-conservadores – Tendência predominante em parte dos meios católicos nacionais que utiliza linguagem midiática para passar a mensagem cristã. Possui conteúdo de ideias muito próximo aos tradicionalistas, mas com roupagem moderna. É composta basicamente pela Renovação Carismática Católica (RCR) e segmentos agrupados em torno dela, como as comunidades de vida e aliança.

Concílio Vaticano II impulsiona diálogo interno

Fábio Antonio Gabriel pondera que, nos primórdios do cristianismo, conforme a fé cristã se expandia, crescia a necessidade de justificar, sempre que possível, seus pontos essenciais.

“Igualmente, à medida que se dogmatizava a fé cristã e se valorizava sobremaneira os dogmas cristãos, perdeu-se muito da experiência primeira das primeiras comunidades cristãs”, problematiza. A situação agrava-se no período dos acordos históricos entre Igreja e Estado.

De acordo com o teólogo, o Concílio Vaticano II preocupou-se em superar uma visão que acreditava que a Igreja existia como sinônimo de hierarquia. “Passou a compreender a instituição como Povo de Deus, assim reconhecendo-a e reconhecendo também que era preciso entrar em diálogo, tanto com as demais igrejas cristãs como também com outras religiões, principalmente com as demais religiões monoteístas”, pontua.

Para Sofiati, quando se fala nas reformas dos últimos pontificados, não se pode esquecer das mudanças impulsionadas pelo Vaticano II que, de certa forma, irritaram alguns grupos mais tradicionalistas.

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Em relação às reformas que o Papa Francisco poderá empreender, ele acredita que cada grupo ou tendência tem uma expectativa diferente. “Se você pegar, por exemplo, a teologia da libertação e o movimento carismático, que são hoje os grandes concorrentes no caso latino-americano, os primeiros se dizem herdeiros do Vaticano II, mas por outro lado você tem também o discurso carismático dizendo a mesma coisa, ou seja, que são os verdadeiros herdeiros do Concílio”, diz Sofiati. 

O sociólogo avalia que, por mais que haja uma tendência – no caso de Bento XVI, mais voltada ao conservadorismo e, no caso de Francisco, mais alinhada à lógica de diálogo com a modernidade –, os discursos de todos os papas são pautados na interpretação das várias correntes de pensamento da Igreja.

Ainda de acordo com Sofiati, é justamente esse o segredo do catolicismo: a capacidade de haver uma hierarquia capaz de passar uma mensagem em que todos a reinterpretam segundo a sua perspectiva e realidade.

Entre tolerâncias e intolerâncias, a dignidade da pessoa humana

Mesmo que as fronteiras entre as várias tendências de pensamento católico sejam muito tênues e, muitas vezes, não haja consenso entre elas próprias, Sofiati acredita que é esse pluralismo de ideias que mantenha a Igreja Católica “de pé” por tantos anos.

Entre tolerâncias e intolerâncias, muitos acabaram sendo afastados, como o frei Leonardo Boff, um dos maiores expoentes da teologia da libertação, e o próprio cardeal Lefebvre, ícone do tradicionalismo.

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Mas, diante de atos extremos, como deve ser a postura do verdadeiro cristão?

Para o teólogo Fábio Gabriel, sempre é preciso priorizar o respeito ao outro e a valorização da dignidade da pessoa humana. “Sem isso, todo discurso religioso perde-se no vácuo”, diz.

Gabriel vai além: “talvez o grande problema é que, diferentemente das primeiras comunidades em que as pessoas aderiam à fé cristã, hoje já nascemos cristãos e muitas vezes ‘ser cristão’ é apenas um slogan social que muitos assumem sem nenhuma prática efetiva de ação de solidariedade”.

Padre Libânio também lembra que o Papa Fancisco tem insistido numa Igreja que saia de si para ouvir as pessoas e aproximar-se delas. “Atitude oposta ao fundamentalismo”, justifica.

Na avaliação do religioso, é preciso aprender a analisar esses movimentos. “Nenhum deles tem toda a verdade. Só há o caminho do diálogo”, pondera. Ele reforça a necessidade de compreensão, caridade e o desejo sincero de ajuda, sobretudo nos casos mais radicais.

 

 

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