Por Alexandre Santos Em Notícias

Representante da CNBB, dom Joaquim Mol, defende projeto popular

Numa eleição polarizada entre os dois partidos que governaram o país nos últimos 20 anos, as campanhas abusaram das acusações de corrupção. De um lado, o escândalo de desvio de dinheiro na Petrobrás. De outro, a construção de aeroportos em terrenos de familiares. De um lado, o Mensalão do PT, do outro, o Mensalão Tucano e a compra de votos para a reeleição.

Foto de: Alexandre Santos / JS

Dom Joaquim Mol - Foto Alexandre Santos JS

Dom Joaquim Mol: "As pessoas pensam que
político bom é aquele que lhe presta um favor.
Muitos alimentam esse pensamento por maldade,
mas tem gente que pensa assim por não conhecer
outra prática"

Leviano, mentiroso, incompetente... Os adjetivos se multiplicaram em ataques pessoais. A animosidade e o nível baixo dos debates transbordaram para as redes sociais e “viralizaram” nas rodas de conversa.

O processo eleitoral concluído no último dia 26 deixou clara a necessidade de mudanças estruturais fundamentais para o amadurecimento da democracia no Brasil. Entre elas, uma reforma política profunda, séria e comprometida com o bem do país.

Sobre o assunto, o JS ouviu o representante da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na Coalizão Democrática pela Reforma Política e Eleições Limpas, o bispo auxiliar de Belo Horizonte, dom Joaquim Mol. Ele defende que só será possível uma reforma política verdadeira se vier da iniciativa popular. “Os parlamentares jamais aprovarão algo que confronta seus interesses”, afirmou.

Jornal Santuário de Aparecida – Qual foi a contribuição da CNBB para as eleições 2014?

Dom Joaquim Mol – Durante a Assembleia deste ano, nós discutimos e aprovamos um texto chamado Projeto Brasil, feito para inspirar os subsídios dentro das dioceses.

Nós também divulgamos uma cartilha mais popular, de modo que as comunidades pudessem aproveitar na sua educação política. Outra coisa bacana é que produzimos dez pequenos vídeos sobre o mesmo conteúdo, de modo que pudessem ser projetados após uma missa ou durante uma reunião de grupo e assim fazer a conscientização política.

Isso para as eleições. Mas continuamos com uma proposta da reforma política discutida por diversas entidades da sociedade civil. Dessa discussão surgiu um Projeto de Lei de iniciativa popular. Continuamos arrecadando assinaturas, para que o projeto possa ser apresentado ao Congresso Nacional.

JSQuais são as principais propostas do Projeto de Lei?

Dom Joaquim – Primeiro, afastar o poder econômico das eleições, proibindo a doação de empresas, principal porta da corrupção no país. Segundo, eleições em dois turnos: no primeiro vota-se num programa de governo. No segundo, nas pessoas que vão colocá-lo em prática. Terceiro: Paridade de gêneros. Para cada homem candidato, o partido deve apresentar uma candidata. Quarto: regulamentação da democracia direta, artigo 14 da Constituição Federal: o plebiscito, o referendo e o projeto de lei de iniciativa popular. Dessa forma os eleitores participarão das principais decisões a serem tomadas no país.

JS O Brasil é um país em que, infelizmente, políticos compram e muitos eleitores se vendem. Como fazer esse trabalho de conscientização?

Dom Joaquim – A educação política se dá, na verdade, na prática da vida. A deseducação também. Desde que o Brasil foi descoberto, a prática vigente deseducou politicamente o povo. As pessoas pensam que político bom é aquele que lhe presta um favor. Muitos alimentam esse pensamento por maldade, mas tem gente que pensa assim por não conhecer outra prática.

Com essa proposta de reforma política, queremos também discutir essa questão, de modo que os eleitores possam escolher programas e pessoas para pô-los em prática. Não se trata de favor.

Nós vivemos uma democracia representativa: eu elejo você para me representar. O projeto diz: “em questões muito importantes para o país, os representantes não podem decidir. Eles têm de fazer um plebiscito para saber qual é a vontade do povo”. Isso é uma democracia direta, representativa com participação direta da população. Eu penso que assim nós reeducaremos o povo politicamente.

JSAs manifestações do ano passado mostraram a insatisfação do povo. O senhor acredita que esse mesmo poder de manifestação foi para as urnas?

Dom Joaquim – Penso que uma parte sim. Depois da redemocratização do país, a juventude entrou por um outro caminho. E vou dizer com muita franqueza: uma parte da juventude alienou-se muito profundamente. Não quero fazer julgamento moral, até porque culturalmente o individualismo tomou conta da consciência das pessoas. Todos nós somos, em certa medida, individualistas. Então os jovens ficaram assim.

Quando eles se dão conta de que está preocupado com os próprios problemas, mas a educação e a saúde estão ruins para todo mundo, começam a despertar.

JSNa sua visão e no pensamento da Coalizão, o que seria uma escolha bem feita?

Dom Joaquim – Nenhum cristão deve votar em quem, de fato, não conhece. O que é conhecer uma pessoa do ponto de vista eleitoral? Conhecer a trajetória que aquela pessoa fez de serviços ao bem comum. Se trabalhava em alguma comunidade, em algum bairro, alguma organização civil.

Segundo: Se essa pessoa tem compromisso com o conjunto da comunidade, da cidade, do estado ou se está querendo apenas uma promoção pessoal através da política e defender seus próprios interesses.

Terceiro: Não se deve votar em pessoas que são financiadas em grandes proporções por empresários. Pequenas quantias a gente considera que qualquer um pode doar para eleger aquela pessoa que acreditamos que vai fazer muito bem. Mas em grandes proporções não. Por quê? Porque nenhum grande empresário, seja da indústria, seja rural, financia um político gratuitamente. Ele sempre quer algo em troca.

Todos esses critérios representam também o compromisso com a vida. Candidatos que sejam comprometidos com a vida e que a defendam. A vida do feto, das crianças, dos pobres, dos indígenas, dos negros, de todas as pessoas.

Para saber mais sobre o Projeto de Lei de Iniciativa Popular, acesse: https://www.reformapoliticademocratica.org.br/

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