Por Alexandre Santos Em Notícias

Dom Petrini analisa desafios pastorais sobre a família

Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização. Esse será o tema do Sínodo Extraordinário dos Bispos, que acontece em outubro, no Vaticano.

Foto de: Eduardo Gois / JS

Dom Petrini - Eduardo Gois JS

"Para crescer sem problemas, uma criança
precisa de vacinas, de alimentação, de escola.
Porém, há uma necessidade muito maior:
crescer com pai e mão por perto"

Em novembro, o Papa Francisco enviou a todas as dioceses do mundo um questionário. O objetivo é ouvir os fiéis sobre as visões de família existentes na sociedade.

O JS falou com o presidente da Comissão para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom João Carlos Petrini.

 

Jornal Santuário de Aparecida – Qual a importância do questionário?

Dom João Carlos Petrini – O Papa não quer que o sínodo se limite a repetir o que a doutrina da Igreja diz sobre matrimônio e família. Ele quer ouvir os fiéis. É uma atitude admirável. O que a Igreja dirá não poderá ser um discurso teórico, abstrato, distante das alegrias e tristezas que o povo enfrenta. “Para crescer sem problemas, uma criança precisa de vacinas, de alimentação, de escola. Porém, há uma necessidade muito maior: crescer com pai e mãe por perto”

JS – Quais os maiores desafios da Igreja em relação à multiplicidade de conceitos de família presentes hoje na sociedade?

Dom Petrini – Despertar a esperança de que o amor humano, quando vivido segundo o plano de Deus, como dom sincero e total de si para o bem de outra pessoa, é o melhor caminho para a realização humana e para a felicidade que dura. A confusão nasce do entendimento pobre sobre o que é o amor, identificado com emoções passageiras e incapazes de sustentar a grandeza da vida conjugal e os desafios da paternidade e da maternidade.

JS  De que maneira isso atrapalha a transmissão da fé?

Dom Petrini – Quando a disponibilidade em abraçar algum sacrifício para o bem do outro é substituída pela preferência de sacrificar os outros em função do próprio bem-estar, não há clima para vivenciar a fé e transmiti-la às novas gerações.

JS  Há muitas famílias em que as crianças são criadas pelos avós. Como a Igreja encara isso?

Dom Petrini – A vida em sociedade e o mundo do trabalho não estão organizados para favorecer a família e valorizar a maternidade. O ritmo de trabalho exigido e o tempo que se gasta para se locomover nas grandes cidades roubam o tempo livre para se dedicar aos filhos. Por sorte, muitos avós se dedicam às crianças. Mas muitas vezes os educadores são a TV, a internet, os videogames e as babás, nem sempre preparadas para a tarefa.

JS – Há casais que optam por morar em casas separadas. Como isso influencia na formação dos filhos?

Dom Petrini – Para crescer sem problemas, uma criança precisa de vacinas, de alimentação, de escola. Porém, há uma necessidade muito maior: crescer com pai e mãe por perto, para terem modelos de maturidade humana com os quais possam identificar-se. Muitos problemas que a sociedade enfrenta provavelmente não existiriam se fosse garantido às crianças o direito previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente: crescer no seio de uma família.

JS – O senhor acredita que o sínodo trará mudanças concretas a respeito dos casais de segunda união?

Dom Petrini – Certamente o Sínodo vai reafirmar que o coração de Deus e o coração de Jesus estão repletos de misericórdia, que procura todos os caminhos possíveis para aliviar o sofrimento das pessoas. Porém, sem contradizer nem a verdade e nem a justiça. Vamos aguardar para ver o que o Espírito sugere à Igreja.

JS – Quanto às uniões homoafetivas, como lidar com pessoas que foram batizadas, educadas na fé católica, mas têm a inclinação homossexual e não conseguem seguir o conselho do Catecismo de viver a castidade?

Dom Petrini – Acredito que nenhuma pessoa, mesmo movida pelo maior desejo de ser santa, consegue viver sem pecado. O Papa Francisco disse isso no início de seu pontificado, ao declarar-se pecador. Aliás, São Paulo considerava-se o maior pecador de todos. Nesses casos, a misericórdia é sempre vitoriosa, mesmo que seja necessário recorrer a ela mil vezes por dia. No abraço da misericórdia a vida começa a mudar.

O problema é quando a pessoa conduz a própria vida para ser uma sequência de pecados sistematicamente planejados. Pior ainda é chamar de bem o que objetivamente não corresponde ao bem.

JS – Há casos de homossexuais que, tendo tido um encontro pessoal com Cristo, decidem-se por viver o celibato.

Dom Petrini – As pessoas chamadas ao celibato dão o maior dos testemunhos: Jesus Cristo responde ao meu desejo infinito de amar e ser amado. Corresponder ao amor dele merece qualquer sacrifício.

É semelhante ao mártir, que prefere morrer unido a Jesus do que viver obrigado a renunciar a ele. O celibatário testemunha que o amor de Jesus vale mais do que os amores vividos segundo os apelos do corpo.

Essas formas de testemunhos exigem coragem e uma fé convicta. Exigem também renúncias. Dos esportistas e modelos também são exigidos sacrifícios, que podem ser acolhidos com amor, quando servem a um grande ideal.

JS – Os cursos de noivos se resumem a algumas palestras. Já a formação de padres e religiosos é bem mais exigente. Dada a importância do casamento, visto que é uma vocação tanto quanto a Ordem, a Igreja tem negligenciado a preparação para o matrimônio?

Dom Petrini – A Igreja está recomendando uma preparação que começaria desde a catequese. Já existe também uma preparação de um ou dois anos antes do casamento, pensada como um caminho dos noivos para aprenderem que o amor humano, embora frágil, é potencializado pela presença de Jesus Cristo, graças ao sacramento do matrimônio. No entanto, essas experiências são quantitativamente limitadas, e é difícil, no contexto da cultura atual, dar-lhes uma difusão muito mais ampla.

 

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