Por Deniele Simões Em Notícias

Escassez leva ser humano a mudar relação com a água

Que a água é um dos bens mais escassos do planeta todo mundo já sabe. Afinal, o volume total no mundo – menos de 0,01% – corresponde à água doce dos rios e lagos, cada vez mais prejudicados pela degradação humana.

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Crise hídrica - FreeImages

Há 100 anos, consumo médio per capita era de
25 litros por dia; hoje, índice chega a quase 200 litros

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que, até 2030, a população global vai precisar 40% a mais de água do que necessita hoje, mas, até então, não se imaginava que esse bem tão precioso fosse começar a faltar nas torneiras da população do Sudeste brasileiro.

Para especialistas em meio ambiente, a escassez de água tem, entre as principais causas, a explosão demográfica ocorrida das últimas décadas. Em São Paulo (SP), a situação foi agravada pela estiagem severa, levando o Sistema Cantareira, que faz a captação e distribuição para a região metropolitana, aos menores níveis de toda a história.

De acordo com o ambientalista e diretor-presidente da ONG Universidade da Água (Uniágua), Gilmar Altamirano, além do estado de São Paulo, o principal fator desencadeador dessa crise é conjuntural.

Ao apontar o exemplo de São Paulo, ele lembra que, há 100 anos, o consumo per capita de água era de 25 litros por dia, ou pouco mais de um galão de água mineral.

“A maior parte da população não tinha água encanada e o banheiro era fora de casa”, exemplifica. Com a expansão demográfica e os hábitos modernos, esse consumo aumentou consideravelmente.

Pelos cálculos do ambientalista, o consumo subiu para 190 litros de água por pessoa ao dia. “Multiplique isso por uma região de 20 milhões de habitantes e teremos a conta”, alerta Altamirano.

O ambientalista aponta a poluição das águas e do meio ambiente como fatores desencadeadores. “A gente produz um quilo de lixo, mas nem todo esse lixo vai para o lugar certo. Esse é o problema da poluição dos corpos hídricos e dos nossos mananciais”, lamenta.

Se cada um fizer a sua parte, jogando lixo em locais adequados e consumindo água com responsabilidade, a situação pode ficar mais confortável, mas o doutor em administração e pesquisador do tema da água, Rafael Kruter Flores, alerta que não se pode ocultar as responsabilidades estruturais pelo problema da escassez.

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Gilmar Altamirano - Arquivo Pessoal

Gilmar Altamirano: "A gente se
acostumou a ter água todos os
dias na torneira, em abundância,
com custo relativamente barato,
então nunca se prestou muita
atenção à água"

“Na maioria das estatísticas, o uso doméstico corresponde a cerca de 13%, enquanto que o industrial é responsável por cerca de 22% e o agrícola, 65%”, informa. O especialista ressalva que, no uso doméstico, cerca de 30% a 40% da água tratada nas cidades acaba sendo desperdiçada por má conservação das tubulações. 

Novos hábitos

Para o membro do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) e Comissão Pastoral da Terra (CPT) do São Francisco, Roberto Malvezzi, ao considerar essa crise, é necessário levar em consideração inúmeros fatores.

“Em primeiro lugar há uma questão científica”, pondera. Segundo ele, o bioma fixador das águas brasileiras era o Cerrado, criado há 65 milhões de anos atrás. “Porém, a agricultura intensiva e monocultural acabou com o Cerrado em apenas 40 ou 50 anos. Então, quando as águas das chuvas caem nesse território, que antes tinha mata, solos porosos, fantásticos aquíferos subterrâneos, hoje vai embora em poucas horas”, ressalta.

Ainda segundo Malvezzi, o problema agrava-se porque o bioma gerador das chuvas dessa região é a Amazônia. “Então, vinculando a destruição da Amazônia com a destruição do Cerrado, você tem uma poderosa seca em todos os mananciais que brotam do Cerrado: São Francisco, Grande, Piracicaba, Doce, assim por diante”, contextualiza.

O representante da CPT diz que a crise não é casual, muito menos coincidência, mas que apenas o Brasil começa a colher a destruição do modelo civilizacional, sobretudo das últimas cinco ou seis décadas.

A facilidade de abrir a torneira e ter água à disposição nas grandes cidades acabou levando ao desperdício, segundo Altamirano. “A gente se acostumou a ter água todos os dias na torneira, em abundância, com custo relativamente barato, então nunca se prestou muita atenção à agua”, ressalta.

A ONU aponta que, para ter segurança hídrica, uma população deve ter, em média 1.000 metros cúbicos de água por ano, levando em consideração todos os tipos de uso.

“São Paulo é a única região do país que tem apenas cerca de 270 por pessoa por ano. Então, está muito abaixo do resto do país, inclusive do Semiárido brasileiro”, alerta Malvezzi.

Por causa desses baixos volumes e da percepção da crise, Altamirano acredita que a crise hídrica já dando um “choque de consciência” muito grande na população.

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Roberto Malvezzi - Arquivo Pessoal

Para Roberto Malvezzi, da CPT,
crise não é casual, muito menos
coincidência, mas advém da
destruição imposta pelo modelo
civilizacional brasileiro das últimas
cinco décadas

Para o representante da Uniágua, a relação do ser humano com a água tem mudado, a partir da educação ambiental. “E, com essa crise, o comportamento da população não será o mesmo”, prevê.

Nas escolas em que ministra palestras sobre educação ambiental, Altamirano tem ouvido muitas histórias dos alunos sobre ações adotadas para garantir economia e o reaproveitamento da água dentro de casa. “A população já tomou um choque, está com a criatividade extrema, acirrada para economizar água em casa”, completa.

A mudança de hábitos também afeta as empresas, que têm lançado produtos projetados para o uso sem necessidade de água ou mesmo adotado processos internos para a economia e reuso desse bem tão precioso.

É o caso da Husqvarna, que criou uma linha de produtos que substitui a água no manejo de áreas verdes e na limpeza de ruas. Segundo o técnico de produtos da empresa, Paulo Figueiredo, essa linha contribui com a manutenção dos recursos naturais, propondo a utilização dos recursos hídricos de forma racional.

“Temos essa preocupação, pois, em média, o consumo per capita nos países com uso racional da água está em torno de 230 litros por pessoa ao dia. No Brasil, esse valor está na casa de 340 litros e isso nos faz pensar em desenvolver produtos mais conscientes”, conclui.

Para especialistas, crise paulista tem múltiplas causas

A pesquisa on-line PiniOn, aponta que 80% dos moradores do estado de São Paulo culpam o governo estadual pela crise hídrica.

O levantamento ouviu 500 pessoas com idades entre 18 e 64 anos, pertencentes às classes A, B e C, da capital e interior do estado.

Do total de entrevistados, 40% reclamam da falta de água no período noturno e, no interior, 31% sofrem com o problema à tarde.

A pesquisa mostra também que 81% estão tomando medidas para economizar água e que 34% dos entrevistados julgam que a população precisa ter consciência e colaborar mais para contornar a situação.

Mas o governo poderia realmente evitar a situação calamitosa que assola o estado mais rico do país? A questão é polêmica e divide opiniões.

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Rafael Kruter Flores - Arquivo Pessoal

"O que se faz em uma situação como essa?
Planejam-se meios alternativos de captação,
seja buscando outros sistemas, perfuração do
solo, reuso etc", opina Rafael Kruter Flores

Para Roberto Malvezzi, da CPT, nas causas fundamentais, a crise não poderia ser evitada. “A não ser que tivéssemos evitado o desmatamento brasileiro. Mas tem também um problema mais imediato de gestão”, sinaliza. 

O ambientalista ressalta que as águas estaduais são de responsabilidade legal dos estados federados. “Além de destruirmos as bases naturais que possibilitam o ciclo das águas como nós o conhecíamos, houve em São Paulo uma absurda concentração urbana”, alerta.

Diante do crescimento populacional e do aumento de consumo, ele acredita que as autoridades poderiam ter se antecipado à crise. “Falharam o regime das chuvas e toda má gestão das águas paulistas veio à tona”, acrescenta.

O especialista Rafael Kruter Flores, ressalta que a crise paulista é resultado de múltiplos fatores que se relacionam: estiagem, planejamento político-ideológico e a falta de iniciativas para o reuso da água.

Para Flores, existem vários indícios de que o Sistema Cantareira está sobrecarregado há anos, porque a região metropolitana de São Paulo cresce em ritmo acelerado e a demanda por mais água também. “O que se faz em uma situação como essa? Planejam-se meios alternativos de captação, seja buscando outros sistemas, perfuração do solo, reuso etc.”, opina.

Ele acredita que as soluções deveriam ter sido buscadas antes de a crise estourar. “Temos visto ao longo do ano uma sequência de ações improvisadas, em um contexto marcado por pressões institucionais de todo o tipo e busca por culpados”, conclui.

Nordeste e a transposição do São Francisco

No Semiárido nordestino, a seca provocou mortes e o êxodo por muitas décadas como consequência. Na avaliação de Malvezzi, as situações calamitosas hoje começam a mudar.

“Na última grande seca, já não tivemos mais mortalidade humana – nem mesmo a infantil –, nem migrações intensas, nem saques. Aquele quadro horroroso de outras grandes estiagens não se repetiu”, explica.

O ambientalista atribui como fatores para a mudança desse quadro a política simples de captação de água de chuva feita pela sociedade civil, através da construção de cisternas com água para consumo humano e produção, os barreiros e ações direcionando a população para a lógica da “convivência com o Semiárido”, baseada na vivência do potencial regional.

Ele também cita ações como a expansão da energia, da comunicação e do transporte como agentes facilitadores, assim como as políticas sociais governamentais.

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Crise hídrica_2 - Reprodução

Mesmo com essas mudanças, o governo federal defende as obras de transposição do rio São Francisco como garantia de distribuição da água para todo o Semiárido.

O posicionamento da CPT em relação à transposição sempre foi contrário e torna-se mais veemente no momento em que a vazão do rio São Francisco tem caído progressivamente.

“Aqui no lago de Sobradinho, a entrada de água está sendo de apenas de 290 metros cúbicos por segundo, mesmo recebendo de todos os afluentes que saem do Cerrado baiano e mineiro. A saída de água de Sobradinho abaixo está em 1.100 metros cúbicos. Portanto, o que resta do São Francisco é apenas um fio de água”, alerta.

Segundo Malvezzi, a CPT defende a implantação de adutoras simples para as populações, com pouco impacto ambiental, pouca perda de água, para destinação ao consumo humano e animal, como prevê a Lei Nacional de Recursos Hídricos.

De acordo com Ministério da Integração Nacional, foram concluídos 66,1% da transposição, mas ele duvida. “A obra prossegue e a própria presidente Dilma já disse que, para redistribuir essa água para os municípios, serão necessários R$ 2 para cada real posto nesses canais da transposição”, diz, ao referir-se ao alto valor do empreendimento.

Dicas básicas sobre como economizar

Gilmar Altamirano conta que, nas palestras que costuma proferir em escolas, já adotou algumas expressões que ajudam os alunos a compreender melhor como economizar água.

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Crise hídrica_3 - Reprodução

Alguns dos termos mais usados por ele são os verbos “ressuscitar” e “substituir”. “Tenho brincado nas palestras e entrevistas que precisamos ressuscitar urgentemente algumas coisas em casa. O balde, aposentando a mangueira. O copo substituindo a água da torneira”, conta.

Ainda segundo Altamirano, o grande vilão do consumo residencial é o banheiro, principalmente a descarga. “Se for uma antiga, daquelas de válvula na parede, perde-se de nove a 14 litros em um apertão. Isso se não estiver desregulada”, alerta. 

Ele ressalta que, hoje, a indústria da construção tem incentivado o uso de caixas acopladas, onde se perde seis litros de água a cada “puxada” de descarga. 

No caso dos modelos mais novos, que têm dois tipos de botão, o consumo cai para três litros de água, no caso de dejetos líquidos e permanece em seis litros quando o botão de sólidos é acionado. 

A seguir, Altamirano passa algumas dicas e informações sobre como é possível economizar.

 

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Lavanderia - Reprodução

Encha baldes com as sobras de água da máquina
de lavar e utilize na lavagem de pisos e azulejos

 

 

 

 

 

 

 

 

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Cozinha - Shutterstock

Aproveite a água da lavagem de verduras e faça escorrer
em uma pequena bacia. A sobra pode ser usada para
regar as plantas

 

 

 

 

 

 

 

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Banheiro - Reprodução

Coloque uma bacia embaixo do chuveiro e aproveite a
água que sobra para jogar na descarga. O mesmo pode
ser feito no caso do chuveiro aquecido a gás, que demora
mais tempo para aquecer a água. "Até que esquente, em
vez de ir para o ralo, ponha o balde embaixo e depois
utilize", ensina Altamirano

 

 

 

 

 

 

 

 

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Escovar Dentes - Reprodução

Encha um copo com água na hora
de escovar os dentes e não utilize a
água da torneira. "Quando você fica
cinco minutos com a torneira aberta,
gasta 12 litros de água. Se usar um
copo, já economizou 11 litros e meio,
no mínimo", justifica o diretor da
Universidade da Água

 

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