Por Allan Ribeiro Em Notícias Atualizada em 27 DEZ 2017 - 12H46

Especialista defende política baseada na fraternidade

Após duas entrevistas sobre os diversos elementos que envolvem a corrupção no Brasil, o JS traz um bate-papo com o cientista político, João Francisco Araújo Maria. É a última entrevista da série sobre corrupção. Ele vê nas manifestações populares uma forma de pressionar o Congresso Nacional para promover uma reforma política. Para o especialista, é fundamental integrar a sociedade em rede na política institucional.

Foto de: Arquivo Pessoal

João Francisco Araújo - Arquivo Pessoal

João Francisco: "A sociedade
começa a acompanhar esse
cenário, dizendo que não
aceita mais os casos de
corrupção no país"

Jornal Santuário de Aparecida Desde o processo de redemocratização do país, como vem sendo desenhado esse cenário de corrupção no Brasil?

João Francisco Araújo Maria – Com o processo de redemocratização nós consolidamos algumas instituições e aumentamos a transparência. Durante o período militar os casos de corrupção não eram explícitos porque estávamos vivendo sob uma ditadura. Depois disso, a cada governo, avançamos e melhoramos, não só nos partidos, mas em um conjunto de setores da sociedade.

JS A corrupção é hoje um mal edênico no Brasil?

João Francisco – A corrupção é um mal contínuo e presente no país. Mas, ao analisar em âmbito internacional, o ranking do Brasil é ruim, mas não é dos piores. Qualquer país, rico ou pobre, deve ser feito nos instrumentos de controle. Não podemos generalizar, pois muitas vezes é algo da própria cultura. Nós não vemos isso apenas no meio político, mas em toda a sociedade.

JS – Uma reforma política profunda pode coibir os atos de corrupção no país?

João Francisco – A reforma política é muito ampla, mas acredito que precisávamos impedir o financiamento por empresas privadas no processo político. Essa é a principal causa de corrupção. Isto está na proposta enviada pela CNBB, pela OAB e outras instituições da sociedade civil que propõe uma reforma mais ampla, que tente modificar também o sistema eleitoral. A eliminação desse financiamento empresarial seria essencial.

Acredito que as doações deveriam ser privadas e individuais, em um teto estabelecido de um salário mínimo. Poderia existir financiamento público e privado, mas o privado seria restringindo apenas para CPFs e não para CNPJs como é hoje. Seria uma forma de diminuir a corrupção.

Isso mostra o investimento que as empresas fazem nas eleições, que acaba não sendo uma doação. Se isso mudasse sairia mais barato para a sociedade.

JS O povo se sente representado pela política atual?

João Francisco – Estamos em uma crise de representatividade estrutural. O problema não é só no Brasil, mas no mundo todo. O sistema político está em xeque. Os partidos são os monopólios da representação e o espaço decisório fica no centro do poder Executivo e Legislativo.

Além dos problemas conjunturais, o Brasil tem problemas estruturais que precisariam de uma reforma política muito mais profunda. A atual mudança sempre altera a engrenagem do sistema eleitoral, mas teríamos que pensar além disso, pensando como integrar as novas tecnologias e redes sociais no processo decisório da política. É preciso avançar para integrar a sociedade em rede na política institucional.

JS Uma reforma é capaz de recuperar o vigor e a participação popular na democracia?

João Francisco – Tem que haver uma reforma, mas muito além do que está sendo discutido hoje, para que isso aconteça. Nós falamos em como construir partidos mais democráticos, transparentes e menos corruptos, mas, simplesmente, esquecemos que a democracia só funciona com partidos e que é preciso transitar pelo monopólio desses partidos para fazer política.

JS O que podemos entender por nova política?

João Francisco – Temos três grandes ideais políticos da modernidade, desde a Revolução Francesa: igualdade, liberdade e fraternidade. O primeiro deu base para o ideal do socialismo. O segundo deu base ao liberalismo. Por último, a fraternidade, que sugere uma base religiosa, que deveria ser algo resgatado como uma categoria política. Para traduzir isso aos tempos atuais é preciso entender que essa lógica colaborativa, de fraternidade, deveria embasar também a política. Esse sistema é uma ordem de rede horizontal e a política hoje ainda é algo muito hierarquizado e verticalizado. A nova política traz isso, uma visão em forma de rede.

JS O que se faz necessário para a implementação dessa nova política no país?

João Francisco – Seria necessário mudanças culturais e institucionais. Temos que repensar o que está errado no ponto de vista moral e cultural. Essa mudança de valores da sociedade é um processo contínuo.

JS A falta de interesse por parte da população é favorável para o surgimento de casos de corrupção?

João Francisco – A sociedade, nos últimos anos, tem se mobilizado cada vez mais. Em julho de 2013 tivemos manifestações profundas e este ano temos outros manifestos, que mostram que há uma busca por mudança. A sociedade começa a acompanhar esse cenário, dizendo que não aceita mais os casos de corrupção no país.

Para qualquer mudança é preciso pressão popular. Nenhuma mudança que amplia a transparência vai vir pelo Congresso Nacional. Só haverá mudança com muita manifestação de rua e a pressão sobre parlamento e as nossas instituições.

JS O povo sabe sobre o que está protestando nas redes sociais?

João Francisco – Em nenhuma manifestação da história, o grau de conhecimento da causa era uniforme. Nas passeatas de rua teremos pessoas que vão sair sem ter conhecimento do porquê, mas com sentimento de indignação, assim como teremos manifestantes que irão sem saber o motivo. Mas, acredito que isso não é problema, pois ajuda a formar a consciência coletiva das pessoas e elas passam a ter mais noção do motivo pelo qual estão manifestando.

 

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