Por Deniele Simões Em Notícias

Francisco intensifica luta contra intolerância religiosa

Ao cumprir roteiro de cinco dias na Coreia do Sul, entre 13 e 18 de agosto, o Santo Padre demonstrou, mais uma vez, imensa preocupação com a paz no mundo e a intolerância religiosa. A terceira viagem internacional de Francisco foi marcada por apelos ao diálogo cultural, religioso e político.

No país asiático, o Pontífice teve um encontro com jovens, na VI Jornada Asiática da Juventude e promoveu a beatificação de 124 mártires católicos, mortos por professar a fé católica no final do século XVIII.

A celebração da beatificação, realizada no dia 16, reuniu cerca de 800 mil pessoas no centro de Seul, a capital coreana. “Os mártires ensinam-nos o caminho”, disse Francisco na homilia. Ele destacou que o legado desses homens contribuirá para promover a paz e os valores humanos na Coreia do Sul e no resto do mundo.

Na avaliação da doutora em Antropologia Social e docente do Programa de Pós- Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), Lidice Meyer Pinto Ribeiro, desde que assumiu o pontificado, em março do ano passado, Francisco tem realizado diversos pronunciamentos e empreendido atividades voltadas para a busca da paz.

Foto de: Jeon Han / República da Coreia

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Multidão de 800 mil fiéis acompanhou missa de beatificação
dos 124 mártires coreanos, em Seul

“Através de suas atitudes desprendidas e verdadeiras, tem a postura ideal para implantar os ideais de diálogo, negociação e reconciliação necessários para modificar comportamentos já há muito enraizados em certas culturas”, aponta.

Segundo a docente, a beatificação dos mártires é a continuidade do ato presidido pelo então Papa João Paulo II, em 1984. Na ocasião, 103 beatificados. Essas pessoas morreram pela fé cristã e foram executadas no local onde hoje está instalado o Santuário dos Mártires coreanos de Seo So-Mun.

“Dessa vez, Papa Francisco beatifica Paul Yun Ji-Chun e 123 outros mártires católicos, que representam a primeira geração de católicos coreanos”, explica. Calcula-se que mais de 10 mil cristãos tenham sido martirizados por causa da fé, entre 1791 e 1888.

A missa de encerramento da VI Jornada Asiática da Juventude, no dia 17, teve a participação de mais de 40 mil pessoas, provenientes de 23 nações do continente.

A celebração aconteceu no Santuário do “Mártir desconhecido”, no Castelo de Haemi e Francisco deixou uma mensagem especial à juventude. “Jovens da Ásia, vocês são herdeiros de um grande testemunho, de uma preciosa confissão de fé em Cristo. Ele é a luz do mundo, a luz da nossa vida! Os mártires da Coreia, e tantos outros da Ásia, sacrificaram suas vidas ao Senhor, dando-nos testemunho de que a luz da verdade de Cristo afugenta todas as trevas e o amor de Cristo triunfa glorioso. Cientes da sua vitória sobre a morte, vocês podem enfrentar o desafio de ser seus discípulos, hoje, nas situações de vida em que vivemos e no nosso tempo”, declarou.

Retorno após 15 anos

Essa foi a primeira visita de um Papa ao continente asiático após 15 anos, quando João Paulo II esteve na Coreia do Sul, Indonésia e Timor Leste.

A presença de Francisco em Seul traz uma ressignificação tanto para a Coreia, que há mais de 60 anos vive uma experiência de divisão e conflito, como para a Ásia, já que o pontífice avista no horizonte novas oportunidades de diálogo, encontro e superação de diferenças.

O legado que fica, por enquanto, é a mensagem deixada por Francisco, pouco antes do retorno para o Vaticano. O Santo Padre fala sob a perspectiva de compreensão do perdão como porta da reconciliação, capaz de superar cada divisão, curar todas as feridas e restabelecer os vínculos originais de amor fraterno.

O apelo pela paz entre as duas Coreias foi outro marco da visita. No dia 14, o Pontífice esteve no palácio presidencial de Seul, onde manteve contato com autoridades coreanas, após o encontro de cortesia com a presidente, Park Geun-hye.

Francisco recordou que os propósitos da viagem apostólica foram a VI Jornada Asiática da Juventude, com jovens católicos de todo o continente, e a beatificação dos mártires coreanos.

Foto de: Jeon Han / República da Coreia

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VI Jornada Asiática da Juventude reuniu 40 mil jovens de 27
países da Ásia

Ele deixou clara, entretanto, a necessidade de transmitir o dom da paz. “A busca da paz constitui um desafio também para cada um de nós e, particularmente, para quantos dentre vós têm a tarefa de procurar o bem comum da família humana, através do paciente trabalho da diplomacia”, disse. 

O Pontífice falou sobre o desafio perene de derrubar os muros da desconfiança e do ódio, promovendo uma cultura de reconciliação e solidariedade. “É uma causa que nos está particularmente a peito, pois concorre para a estabilidade de toda a região e do mundo inteiro, cansado da guerra”, disse, a respeito da divisão entre as duas Coreias.

Por que tanta intolerância?

Mas, por que a intolerância religiosa ainda tem se mostrado tão forte não só na Ásia como em outras partes do mundo?

Para o historiador e doutor em Ciências da Religião, Rodrigo Coppe Caldeira, isso acontece porque muitas pessoas ainda se julgam portadoras de uma verdade que deve ser imposta aos outros a qualquer custo. “As tradições religiosas não podem ser reduzidas, pois falam de algo que transcende a nossa natureza, daquilo que está além de nossa capacidade de tomar com as mãos”, explica.

Caldeira acredita que se pode insistir no sentido de levar um pouco de paz às pessoas que pensam diferente. Porém, não acredita na possibilidade de apagar de vez a intolerância que, assim como na religião, está presente na política e em militâncias de todo o tipo. “A intolerância nada mais é do que o reflexo materializado daqueles que não aceitam as contingências do mundo”, lamenta.

Perseguição aos cristãos norte-coreanos

O continente asiático possui 120 milhões de cristãos católicos, o que representa 11,24% do total de católicos no mundo.

O cristianismo chegou à Coreia através de nativos coreanos que conheceram o Evangelho em período de guerra e o trouxeram ao país no século XVII.

De acordo com Lidice Ribeiro, a perseguição aos cristãos na Coreia foi intensa no período de dominação japonesa. Isso acontecia devido à pressão sofrida para que adotassem o xintoísmo como religião.

“Os cristãos coreanos chamavam-se a si próprios de ‘amigos do Senhor dos Céus’ e, para os confucionistas, isso era inaceitável, pois implicava em uma relação de proximidade para com o Deus Criador”, explica.

Foto de: Arquivo Pessoal 

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Lidice Ribeiro denuncia forte perseguição aos cristãos
norte-coreanos após guerra que dividiu o país

A perseguição começou com a proibição de livros católicos, incluindo a Bíblia. A primeira grande perseguição foi em 1791, quando, dentre outros, Paul Yun Ji-chung e James Kwong Sanq-yon foram decapitados. O mesmo ocorreu com o missionário chinês responsável pela primeira missa em solo coreano, James Ju Mun-mo.

A segunda grande perseguição foi em 1801, quando centenas de católicos foram executados e outros, exilados. “Após a chegada de novos missionários, em 1839, uma nova perseguição se levantou. Ainda ocorreram as perseguições de 1846, quando o primeiro sacerdote coreano, Andrew Kin Tae-gon, foi martirizado e, em 1866, quando 8.000 cristãos foram mortos, incluindo nove sacerdotes”, contextualiza.

Após a Guerra da Coreia (1950-1953), que resultou na divisão entre as Coreias e na implantação do regime comunista no Norte, a perseguição tem assumido várias formas, segundo a docente.

 

“Inicialmente os cristãos que lutavam por liberdade política foram reprimidos. Depois, o governo tentou obter o apoio cristão ao regime, mas, não obtendo êxito, iniciou um esforço sistemático para exterminar o cristianismo do país”, conta.

A docente conta que os edifícios onde funcionavam as igrejas foram confiscados e foi dada voz de prisão a todos os líderes cristãos. Ainda de acordo com Lidice, a constituição da Coreia do Norte prevê a “liberdade religiosa”, mas, na prática, há severas restrições a qualquer atividade religiosa, com exceção daquelas supervisionadas por grupos ligados ao governo.

Segundo a professora, as igrejas que ainda existem no país são “de fachada” e servem à propaganda política sobre a liberdade religiosa norte-coreana.

Diante desse quadro, ela salienta que quase todos os cristãos norte-coreanos pertencem a igrejas não registradas e clandestinas. Por isso, professar a fé acaba tornando-se um “encontro casual” de duas ou três pessoas, realizado em um local público. “Lá eles oram discretamente e trocam algumas palavras de encorajamento; quem é encontrado com uma Bíblia ou em ‘reuniões suspeitas’ é preso, torturado e enviado a campos de trabalho forçado”, denuncia.

Situação no mundo

A perseguição aos cristãos foi e continua sendo comum em algumas regiões do planeta. De acordo com Lidice, os países mais hostis e com maior número de perseguições e proibições são: Somália, Síria, Iraque, Afeganistão, Paquistão, Iêmen, Coreia do Norte, Arábia Saudita, Maldivas, Irã, Bangladesh, República Centro-Africana e Sri Lanka.

“A perseguição ocorre pelo desconhecimento das crenças cristãs e, em consequência, pela intolerância, que ocorre devido ao medo do diferente, do desconhecido”, ressalta.

Para o professor do Programa de Mestrado e Doutorado e Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Luiz Alexandre Solano Rossi, existe uma crescente discriminação, intolerância e perseguição contra os cristãos e também contra outras comunidades religiosas minoritárias.

Foto de: Arquivo Pessoal

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Luiz Alexandre Solano Rossi: "As notícias que
chegam do Iraque nos deixam incrédulos e perplexos;
milhares de pessoas, em sua maioria cristãos, são
brutalmente expulsos de suas casas; crianças morrem de
sede e de fome durante a fuga, mulheres são
sequestradas, pessoas sofrem violências de todo o tipo;
destruição de casas, de patrimônios religiosos e culturais"

“Relativamente aos cristãos parece-me que Iraque, Coreia do Norte e Norte da África se apresentam como locais problemáticos”, aponta. O especialista, que é doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), aponta a Coreia do Norte como o país mais repressivo ao cristianismo, já que nenhuma religião é aceita pelo governo. 

O especialista ressalta o trabalho da organização Portas Abertas que coloca a Nigéria como o país que registrou o maior número de assassinato de cristãos em 2012.

 

Segundo Rossi, recentemente o Papa Francisco assinalou e alertou a comunidade mundial sobre a perseguição e intolerância religiosa com as seguintes palavras: “as notícias que chegam do Iraque nos deixam incrédulos e perplexos; milhares de pessoas, em sua maioria cristãos, são brutalmente expulsos de suas casas; crianças morrem de sede e de fome durante a fuga, mulheres são sequestradas, pessoas sofrem violências de todo tipo; destruição de casas, de patrimônios religiosos e culturais”. 

Fim das comunidades cristãs?

Para o historiador e doutor em Ciências da Religião, Rodrigo Coppe Caldeira, a perseguição está contribuindo para o fim das comunidades cristãs no Oriente Médio, assim como na Terra Santa.

“No momento, presenciamos um massacre do grupo sunita ‘Estado Islâmico’, que caminha sob o Iraque despejando ódio, levando a conversões forçadas ao Islã, não só de cristãos, por sinal, obrigando pagamento de taxas para aqueles que ficam sem se converter, expulsando de suas casas e também matando a sangue frio”, lamenta.

Caldeira classifica como “absurdo o fato de a comunidade internacional demorar a reagir. Os ímpetos indignados são seletivos, e parece que o que acontece no Iraque e na Síria, especialmente, não tem a mesma ressonância, por exemplo, que têm os conflitos na Palestina”.

O especialista também destaca perseguições na Índia, Paquistão e, até mesmo, na China. Nesse último país, as ações não são diretas, mas mantidas sob rígido controle estatal, em função de questões políticas e econômicas.

No caso específico da Índia, Caldeira ressalta a invasão de casas religiosas, estupros e assassinatos de religiosas; saques e ataques aos símbolos do cristianismo. “Os cristãos, em minoria, ficam espremidos entre a maioria hindu e uma presença muçulmana.”

Foto de: programareligare.blogspot.com

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Historiador Rodrigo Coppe Caldeira acredita que
perseguição religiosa deve contribuir para o fim de
comunidades cristãs no Oriente Médio e Terra Santa

Na avaliação de Rossi, pensar a convivência entre povos e culturas religiosas diferentes será sempre um desafio a fim de superar o preconceito. E, nesse caso, a superação desses preconceitos e o predomínio do diálogo são possíveis quando há respeito às diferenças e disposição em viver fraternal e solidariamente. O objetivo é a “construção de uma sociedade que nos abriga e que nos solicita que sejamos operários desse mundo ainda em construção”, finaliza.

 

 

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