Por Deniele Simões Em Notícias

Frei Flávio Henrique: “Será impossível ao ocidente e oriente não retornar à unidade”

O JS conversa com o frei Flávio Henrique, pmPN, religioso da Congregação dos Pequenos Monges do Pater Noster.

Frei Flávio Henrique pertence ao rito Greco-Melquita, um dos 19 ritos orientais da Igreja Católica.

O religioso elucida temas ainda pouco conhecidos pelos fiéis, como a diferença entre as tradições católicas orientais e ocidentais. Ele também avalia o papel das tradições bizantinas na evangelização e prevê que a unidade entre católicos e ortodoxos está cada vez mais próxima.

Foto de: Arquivo Pessoal

Frei Flávio Henrique - Arquivo Pessoal

Frei Flávio Henrique elucida temas ainda pouco conhecidos pelos fiéis, como a diferença
entre as tradições católicas orientais e ocidentais

 

 

 

 

 

 

 

 

Jornal Santuário de Aparecida – Ainda há desinformação quanto aos ritos orientais da Igreja Católica. É comum ver fiéis de outros ritos sendo tachados de não católicos. A que atribui isso?

Frei Flávio Henrique – Durante todo o primeiro milênio da era cristã, orientais e ocidentais formavam, juntos, uma única Igreja Cristã. Depois do Cisma de 1054, os ortodoxos se separaram dos católicos, que permaneceram obedientes ao Papa. Mas, uma parte dos orientais se conservou unida a Roma.
Hoje, a grande maioria dos católicos ocidentais desconhece os vários Ritos Litúrgicos e confundem os católicos orientais – que seguem o Papa –, com os ortodoxos, que não seguem.
O cristianismo possui mais de 2.000 anos e seu conteúdo é vastíssimo. Costumo dizer que um estudioso que passasse a vida inteira lendo tudo que há sobre a fé cristã irá morrer sem conhecer a mínima parte. Afinal, são dois milênios de cultura, história, arte, espiritualidade, doutrina, devoções etc.

JS – Quantos ritos orientais existem na Igreja Católica e qual a diferença básica entre eles e o rito Romano, que é o mais comum?

Frei Flávio – Catolicismo significa universalidade. A Igreja Católica nasceu com a missão de universalizar o Evangelho. Cada Apóstolo do Senhor foi para uma região do mundo antigo e, de acordo com cada cultura encontrada, celebrava a Eucaristia.
Assim nasceram os vários ritos da liturgia eucarística. A tradição reconhece seis famílias litúrgicas principais: os ritos Romano ou Latino; Bizantino; Armênio, Antioquino, rito Caldeu e rito Alexandrino (Copta). Essas liturgias dividem-se em 23 igrejas católicas de rito próprio, sendo cinco ocidentais e 19 orientais.
A fé e a doutrina entre ocidentais e orientais católicos são as mesmas. Como rezamos na Santa Missa:“um só pensamento e um só coração”. A diferença está nos elementos e na forma de celebrar a Eucaristia.
Embora variem os Ritos Litúrgicos, uma só Eucaristia é celebrada do oriente ao ocidente.

JS – Quais os ritos orientais mais conhecidos?

Frei Flávio – No ocidente, o mais conhecido é o Romano. No oriente, o bizantino. Quando se diz católico no ocidente, todo mundo pensa nos romanos. Na Terra Santa e em todo Oriente Médio, quando se diz católico, ninguém pensa nos romanos, mas nos melquitas. Os greco-melquitas são os católicos do Oriente Médio, à exceção do Líbano, onde o rito maronita predomina.
No Brasil, temos a presença dos seguintes ritos católicos: greco-melquita, maronita, greco-ucraniano, armênio, siríaco e bizantino russo.

JS – Qual o papel da tradição bizantina na evangelização no ocidente?

Frei Flávio – A tradição bizantina, depois da romana, é a maior em todo mundo cristão. Isso, por si só, já demonstra a importância do mundo bizantino para a fé.
Há ainda o fato de que a primeira arte sacra de toda história da Igreja é a bizantina. Ela é tão relevante que é estudada pelos historiadores seculares da história da arte.
Os ícones bizantinos são um verdadeiro patrimônio da fé e da cultura. São Basílio (padre oriental), no tempo em que poucas pessoas tinham acesso ao conhecimento, dizia: “os Ícones são a Bíblia dos que não sabem ler”.
O mundo bizantino é uma reserva importantíssima na preservação da sagrada tradição apostólica, tão ameaçada pelo movimento da reforma protestante que aboliu o Credo, a missa com a eucaristia, os sacramentos, o sacerdócio ordenado etc. É um patrimônio vivo daquilo que Cristo instituiu e a tradição apostólica conservou e transmitiu.

JS – Como ocorreu a cisão entre ortodoxos e católicos e como essa ruptura repercute no mundo pós-moderno?

Frei Flávio – No primeiro milênio o cristianismo conservou a diversidade na unidade. No início do segundo milênio, uma série de mal-entendidos levou à ruptura entre ocidente e oriente.
Apesar dessa triste separação entre irmãos de mesma fé, o cisma, diferentemente da heresia, não consiste num erro de doutrina ou de fé, mas, sobretudo, numa separação eclesial. Essa ruptura, embora não seja uma divisão no essencial da fé, acabou enfraquecendo a Igreja, favorecendo mais tarde a reforma protestante. Essa, sim, terminou rompendo com elementos essenciais da tradição apostólica e da doutrina comum a católicos e ortodoxos.
Na pós-modernidade, o secularismo e o relativismo causarão um flagelo tal à revelação divina que será impossível ao ocidente e oriente não retornar à perfeita unidade.

JS – O encontro do Papa Francisco com o patriarca ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu I, pode ser considerado um avanço?

Frei Flávio – Apesar das diferenças quanto aos costumes, disciplinas e em alguns pontos teológicos, no essencial da fé apostólica, católicos e ortodoxos conservam juntos aquilo que a tradição chama de verdadeira fé: hierarquia, sucessão apostólica, sacerdócio, eucaristia, sacramentos etc. Paulo VI falava dos “dois pulmões”, referindo-se ao ocidente e oriente. São João Paulo II disse que a “Igreja deve voltar a respirar com os dois pulmões” e assinou o primeiro documento da Obra dos Pequenos Monges do Pater Noster, que inclui esse apostolado pela unidade entre ocidente e oriente. Bento XVI repetia essa expressão.
Os últimos Papas, portanto, construíram uma ponte para favorecer a unidade. O Papa Francisco já deu sinais muito vigorosos do fortalecimento desse diálogo. Tudo indica que “os dois pulmões” já começam a respirar no mesmo compasso, rumo à unidade.

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