Por Alexandre Santos Em Notícias

Historiador diz que Brasil precisa de democracia madura

O JS traz mais uma entrevista sobre o tema. Desta vez, com o historiador Leandro Villela, que revelou temer os movimentos pela volta dos militares. Para ele, o fortalecimento e o amadurecimento das instituições democráticas levarão gradativamente a uma maior consciência, maior politização e maior combate à corrupção.

Foto de: Arquivo Pessoal

Leandro Villela - Arquivo Pessoal

"Quando alguém assume um
cargo público, a cobrança sobre
essa pessoa precisa ser maior.
Tem de ter conduta exemplar.
Isso não justifica os pequenos 
delitos, mas o processo de
conscientização precisa partir
de uma pressão sobre o coletivo
para  chegar ao indivíduo"

Jornal Santuário de Aparecida –Desde quando existe corrupção no Brasil?

Leandro Villela – Num governo republicano, democrático, sobre o qual existe a ideia de que o governo age para o bem coletivo, corrupção seria desviar o dinheiro que é de todos para benefício pessoal. Olhando por esse conceito, só dá para imaginar corrupção em governos republicanos. Nesse caso, a origem estaria na proclamação da República.

Porém, pensando no conceito geral, a corrupção existe desde o começo de qualquer exploração no Brasil. O controle, por parte de Portugal, era praticamente impossível, numa terra distante, com o tipo de comunicação que havia na época. Sem dúvida, desde o princípio já tínhamos taxas altíssimas de corrupção.

JSA corrupção é um mal endêmico no Brasil?

Leandro – Corrupção existe em qualquer país. No Brasil, é mais fácil que se alastre porque a ideia de república, principalmente república democrática, é muito recente, comparado a países como Estados Unidos, França ou Inglaterra.

O Brasil tem 515 anos. Há menos de 200, tornou-se independente, mas a família real continuou governando. A nossa república começou com uma e depois se transformou na República Oligárquica do Café com Leite, na qual quase ninguém votava. Veio a Era Vargas, mas também não havia eleições. O país viveu a democracia até 1964, quando aconteceu o Golpe Militar. Depois disso, o primeiro presidente eleito foi o (Fernando) Collor. Somando, temos uns 30 anos de real vivência democrática.

Ainda está na mentalidade do brasileiro o sistema absolutista monárquico. Muita gente acha que elegeu um rei com poderes absolutos. Se a escola municipal está ruim ou o ônibus não funciona, culpa-se o Presidente da República. As pessoas o imaginam como dono do país.

As grandes iniciativas de conscientização política nas escolas surgiram apenas na década de 1990.

JSCom o tempo, a democracia tende a se fortalecer e gerar maior controle da corrupção?

Leandro – O Mensalão foi o primeiro caso no Brasil em que uma elite partidária recebeu punições, ainda que insuficientes.

Sinto medo ao ver pessoas defendendo a volta da ditadura militar. Num governo ditatorial, não se fala em corrupção, pois a censura proíbe. O objetivo não é o bem público, mas apenas a visão exclusiva de quem está no poder.

Salvo esse risco, acho que o nível de conscientização, politização e de combate à corrupção tende a aumentar gradativamente. Há países que têm essa vivência há 200, 300 anos. É necessário um tempo maior de amadurecimento.

JSHá diferença entre os escândalos de corrupção recentes e os mais antigos?

Leandro – Diferença há, mas pela primeira vez, um governo que não é apoiado pela grande mídia no Brasil.

A revista Veja e a Rede Globo surgiram basicamente nos primeiros anos da ditadura militar, com quem tinham uma ligação muito forte. Quando o governo militar dava sinais de que acabaria, a grande mídia assumiu a democracia.

A gestão Collor também tinha apoio da mídia. Bastou perder o apoio e sofreu o impeachment. Os governos Itamar (Franco) e Fernando Henrique também eram apoiados pela mídia, que por algum motivo não apoia o governo do PT. Há campanhas totalmente abertas contra. A ideia é fazer parecer que os escândalos atuais são muito maiores.

Grande parte das empresas envolvidas na Operação Lava Jato financiaram o PSDB, mas isso não aparece na mídia. Para todos os escândalos do atual governo houve um similar no governo anterior ou, em menor escala, em governos estaduais.

JSO Brasil ficou conhecido como o país do jeitinho. O que é o jeitinho brasileiro?

Leandro – Dá para detectar o jeitinho brasileiro antes mesmo do Brasil existir, sendo praticado em outros países.

A gente tinha o santo do pau oco, meio de transportar ouro sem pagar imposto. Também as leis abolicionistas, que na prática não resolviam. Dizia-se ser leis para inglês ver, porque a Inglaterra fazia pressão para o fim da escravidão. Outras situações existiam tanto como forma de sobrevivência quanto para levar vantagem. Numa monarquia, imagino que ninguém ficasse contente em financiar o luxo do rei e não um bem para todos.

Enquanto não houver essa consciência de que o espaço coletivo é nosso, o imposto ou qualquer ação do governo parecerá uso do dinheiro público para um bem pessoal.

O jeitinho brasileiro só vai perder esse lado negativo quando houver uma consciência democrática.

JSVocê acha que as grandes corrupções são reflexo das pequenas corrupções do dia a dia?

Leandro – De certa forma, sim. Porém, tirar o foco de uma corrupção macro e centrar nos indivíduos é mais ou menos o que estão fazendo com a falta d’água em São Paulo. As residências consomem apenas 4% do volume, mas toda campanha é focada apenas no consumidor residencial.

Quando alguém assume um cargo público, a cobrança sobre essa pessoa precisa ser maior. Tem de ter conduta exemplar. Isso não justifica os pequenos delitos, mas o processo de conscientização precisa partir de uma pressão sobre o coletivo para chegar ao indivíduo.

Se você chega numa cidade limpa, morre de vergonha de pensar em jogar lixo no chão. Mas se você está num local completamente sujo, há uma grande chance de, não encontrando uma lixeira por perto, jogar lixo no chão.

Se o público for melhor estruturado primeiro, as pessoas se sentirão parceiras do governo. Isso diminui a necessidade que as pessoas sentem de enganar ou dar jeitinhos.

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