Por Osnilda Lima, fsp Em Notícias

Igreja busca por trabalho conjunto entre países amazônicos

No centro, uma rede, em cima, um vaso de barro adornado com adereços dos povos da floresta. Os participantes foram convidados a levantá-lo o mais alto possível e tomar distância. Mas o vaso cai e sementes típicas da Amazônia, como açaí, urucum, olho-de-cabra, castanha-da-amazônia se espalham pelo ambiente. “Isso, deixemos a semente do Reino se espalhar, elas não nos pertencem”, com essa motivação e dinâmica, no último dia do Encontro Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), com o slogan Pan-Amazônia: fonte de vida no coração da Igreja, foi declarado o nascimento dessa Rede. O encontro aconteceu em Brasília (DF), de 9 a 12 de setembro de 2014.

Foto de: Jaime Patias / Rosa Martins

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Na busca de um trabalho em conjunto, a
Igreja Católica nos países que fazem parte
da Amazônia cria a Rede Eclesial
Pan-Amazônica para ser força profética da
região para o mundo

Com a Repam, os participantes dos países que compõem a Pan-Amazônia assumiram o compromisso de responder, de maneira eficaz e orgânica, aos clamores do tempo presente, com a missão: “Criar consciência nas Américas sobre a importância da Amazônia para toda a humanidade. Estabelecer, entre as Igrejas locais dos diversos países sul-americanos, que estão na fronteira amazônica, uma pastoral de conjunto com prioridades diferenciadas para criar um modelo de desenvolvimento que privilegia os pobres e sirva ao bem comum”.

As palavras do Papa Francisco, voltadas para a Amazônia, estiveram presentes no decorrer do encontro. “A Igreja não está na Amazônia como quem tem as malas prontas para partir, depois de explorá-la. Desde o início está presente na região com missionários, congregações religiosas sacerdotes, laicos e bispo, e sua presença é determinante para o futuro da região”, palavras do Papa aos bispos quando esteve no Brasil por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, em julho de 2013.

Os participantes ressaltaram na carta de Declaração da criação da Repam, que essa iniciativa brota da ação do Espírito Santo o qual é guiado e guia a Igreja no processo de encarnar o Evangelho na Pan-Amazônia. “Esta porção da terra é o bioma onde se expressa a vida em sua grande diversidade como dom de Deus para todos. No entanto, é um território cada vez mais devastado e ameaçado. Os grandes projetos de extração, os monocultivos e a mudança climática colocam em grave risco o entorno natural, ameaçam a dignidade e a autodeterminação dos povos e, sobretudo, afetam o Cristo encarnado nas pessoas que formam os povos originários: ribeirinhos, campesinos, afrodescendentes e populações urbanas. Tal situação nos convoca a uma ação pastoral urgente”, Declaração da Criação da Repam.

Nessa perspectiva, novamente foram retomadas as palavras do Papa Francisco, as quais oferecem orientações no cuidado com a criação: “Nossa vocação é custodiar toda a criação, a beleza da criação, como nos disse o livro do Gênesis e como nos mostra São Francisco de Assis, é ter respeito por todas as criaturas de Deus e pelo entorno em que vivemos”. E a partir desse mandato pastoral do Papa se fundou a Repam, como resposta à necessidade sentida e urgente de cuidar da vida, em harmonia com a natureza, a partir de uma ampla e variada presença de membros da Igreja na Pan-Amazônia.

Os nós da Rede

A criação da Repam foi um processo impulsionado pelo presidente do Departamento Justiça e Solidariedade do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) e bispo de Huancayo (Peru), dom Pedro Barreto, e pela Comissão Episcopal para a Amazônia, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), sob a presidência do cardeal Cláudio Hummes.

Participaram da a criação da Repam, acompanhando e apoiando, as presidências do Secretariado Latino-Americano e Caribenho da Cáritas (SELACC), a Confederação Latino-Americana e Caribenha de Religiosos e Religiosas (CLAR) e os missionários e missionárias que atuam na Pan-Amazônia. A dimensão Eclesial da Igreja Católica também se fez presente a Cáritas Internacional, o Pontifício Conselho Justiça e Paz, um organismo da Cúria Romana, a Cooperação Internacional para o Desenvolvimento e a Solidariedade (CIDSE) e organismos que ajudam financeiramente projetos, os chamados “colaboradores fraternos da Igreja” na Europa e na América do Norte.

No decorrer do encontro, o Papa Francisco, por meio das palavras do cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado, manifestou-se aos participantes da Repam, desejando: “Uma verdadeira experiência de fraternidade, uma caravana solidária e uma peregrinação sagrada”.

Ao fim do encontro, o cardeal Hummes expressa-se, em agradecimento ao nascimento da Repam: “Creio que a primeira coisa que nos ocorre é louvar e agradecer a Deus por tudo aquilo que aconteceu aqui nestes dias. Agradecer o Espírito Santo, que nos iluminou e encorajou para criar a Repam. De fato está ocorrendo algo de inovador. E isso vai ao encontro do espírito daquilo que o Papa Francisco nos diz de termos a coragem de sermos criativos, inovadores, não termos medo de arriscar”, ressalta o cardeal.

E lembrou que a Rede não foi uma improvisação, mas vem sendo construída há anos. “Agora foi o momento de criá-la. Somente precisamos tomar cuidado, estarmos sempre muito atentos para não sermos tentados por um neopelagianismo, que pensa tudo depender de nossos próprios esforços. Não! Isso não pode ocorrer! Temos de ter uma base espiritual muito grande, mística, uma luz que nos guia e que nos dá essa simplicidade de arriscar, porque sabemos que estamos dentro de uma luz maior que os nossos próprios esforços e projetos”, aconselha dom Cláudio.

“Agora precisamos atuar. A Repam quer ser uma força de atuação de todas as Igrejas na Amazônia. Essa Rede é para somar, criar comunhão e termos vozes na sociedade e diante das organizações nacionais e internacionais, que têm poder de decisão sobre a Amazônia. E precisamos ter essa consciência da capilaridade de nossa Igreja, somos presença. E para isso precisamos somar para que aquilo que falamos e propomos tenha peso. E aquilo que criticamos e denunciamos seja evidenciado. A Repam tem de guardar e cultivar essa força profética. Desejamos ser a força de Jesus Cristo nessa região que, por vezes, é tão agredida e devastada por interesses econômicos e exploratórios”, pondera o cardeal.

 

 

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