Por Alexandre Santos Em Notícias

Jovens estão casando cada vez mais tarde

Antigamente, chegar aos 30 anos sem casar era motivo de preocupação na família, principalmente em relação às mulheres. Em alguns casos, a pressão começava bem antes: chegar aos 20 sem um namorado era motivo para começar o falatório.

Foto de: Arquivo Pessoal

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Sandro Arquejada: "Hoje os casais têm
tudo, mas falta uma base sólida de amor,
de cumplicidade, até mesmo de amizade.
Há casais que não conseguem conversar
sobre sentimentos mais profundos, não
têm diálogo. Têm vergonha um do outro.
E isso tudo precisa ser construído desde
o namoro"

Ficar para Titia, ficar no caritó, encalhada são algumas das expressões utilizadas para falar de quem não se casou. O medo de não se casar era motivo para fazer novenas e simpatias, especialmente dirigidas a Santo Antônio, considerado o santo casamenteiro.

Na época dos nossos avós, os homens costumavam se casar por volta dos 22 anos, e as mulheres, com idades entre 15 e 17 anos. Contudo, estatísticas apontam que os jovens de hoje estão casando cada vez mais tarde. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada ano passado, aponta que essa média aumentou. Até 2012 os homens casavam, em média, com 28 anos. Já as mulheres, com 25. Ainda não há estatísticas de 2014 sobre esse assunto, mas muitos jovens estão deixando para pensar em casamento ainda mais tarde.

É o caso da jornalista Emily Lima. Aos 31 anos, ela continua solteira e se diz bem resolvida. Ela admite sofrer uma certa pressão a respeito disso, mas garante que isso não a atrapalha. “A pressão acontece mais por parte da família do que dos amigos. Fomos educados para casar e constituir família. Quando isso demora a acontecer, somos de certa maneira cobrados. Essa pressão não me influencia porque acredito que é Deus quem conduz a minha vida e que, no tempo certo, as coisas vão acontecer”, afirma.

Essa pressão costuma ser maior em relação às mulheres. Geralmente, na visão da sociedade, um homem solteiro aos 30 anos está aproveitando a vida. Uma mulher solteira aos 30 está encalhada. “Acredito que essa pressão maior sobre as mulheres deve ser por conta da fertilidade e da disposição da mulher em relação à concepção e criação dos filhos”, argumenta a jornalista.

Apesar de dizer que a cobrança das pessoas não a afeta, Emily admite que muitas vezes surge uma certa autocobrança. “Praticamente todo o meu ciclo de amizade são de pessoas casadas e com filhos. Muitas vezes me sinto deslocada do mundo deles. Principalmente por fazer parte de um grupo de 28 pessoas das quais apenas 5 são solteiras”, justifica.

Apesar do bom humor durante a entrevista, a pedagoga Manuelle Moura, de 30 anos, única solteira de quatro irmãs, admitiu que sente a cobrança da família e dos amigos. “Brincadeiras com esse assunto são constantes! Isso influencia muito porque cria uma cobrança própria. Às vezes inconsciente e até mesmo conscientemente. Essa pressão passa a ser negativa quando começa a ferir e faz com que eu me sinta incapaz. Quando passo a acreditar que o problema está em mim, isso mexe muito comigo”, relata.

Foto de: Arquivo Pessoal

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Emily Lima: "Fomos educados para casar e constituir
família. Quando isso demora a acontecer, somos de
certa maneira cobrados. Essa pressão não me
influencia porque acredito que é Deus quem conduz
a minha vida e que, no tempo certo, as coisas vão
acontecer"

Na opinião da pedagoga, o que tem levado os jovens a pensarem em casamento mais tarde é a falta de vontade de selar um compromisso e uma visão egoísta de relacionamento. “As pessoas estão procurando cada vez mais a satisfação pessoal, a busca por alguém que se enquadre em suas necessidades pessoais. O amor está ficando em segundo plano, as ‘facilidades’ passam a ser prioridade”, conclui. 

Já para Emily Lima, o principal motivo é a grande preocupação em conseguir realização profissional e atingir a estabilidade financeira.

O escritor Sandro Arquejada, autor de livros sobre namoro e relacionamentos entre jovens, concorda. Segundo ele, a dinâmica da vida atual é bem diferente de como era na época dos nossos avós. “Hoje em dia, a preocupação dos jovens com estudo, vida financeira e vida profissional é muito maior do que foi para os nossos pais. Hoje existe uma mentalidade de que é preciso se formar antes. Primeiro a pessoa estuda, depois tem que arrumar um emprego, estruturar-se profissionalmente, ter uma base. Isso faz com que a pessoa demore a pensar em casamento. Porém, quando chega lá pelos 30 anos parece que cai a ficha e a pessoa, muitas vezes, pensa que passou o tempo e algo tão importante quanto o casamento ainda não foi resolvido”, argumenta.

Ministrando palestras sobre o assunto, Arquejada aconselha os jovens a namorar, viver a vida afetiva paralelamente ao estudo e à busca por ascensão profissional. “A grande base para se construir uma família e um casamento não é financeira. Essa base está em valores, sobretudo o amor. Não queria ter tudo pronto antes de casar. É muito mais gostoso quando o casal vai se construindo e conquistando suas coisas e também aprendendo a ter tudo isso juntos”, aconselha.

Foto de: Arquivo Pessoal

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Manuelle Moura: "As pessoas estão
procurando cada vez mais a satisfação
pessoal, a busca por alguém que se
enquadre em suas necessidades pessoais.
O amor está ficando em segundo plano, as
'facilidades' passam a ser prioridade"

De acordo com o escritor, muitos casais têm toda estrutura material e financeira, mas não têm o que, segundo ele, é essencial: “A gente vê casais com contas bancárias separadas, têm vida financeira separada. Casou só para viver debaixo do mesmo teto? O intuito do casamento é ter tudo em comum. Nós ouvimos nossos pais contando que quando casaram não tinham nada e foram construindo. Hoje os casais têm tudo, mas falta uma base sólida de amor, de cumplicidade, até mesmo de amizade. Há casais que não conseguem conversar sobre sentimentos mais profundos, não têm diálogo. Têm vergonha um do outro. E isso tudo precisa ser construído desde o namoro. É importante construir o relacionamento e também ir construindo as coisas juntos. Isso amadurece o relacionamento e cria a cumplicidade”, afirma.

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