Por Deniele Simões Em Notícias Atualizada em 27 DEZ 2017 - 12H42

Jovens estão descrentes dos políticos e partidos, diz pesquisa

Um levantamento do Núcleo de Pesquisa em Ciências Sociais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp) revela que apenas 9% dos jovens confiam nos agentes políticos e em instituições como partidos políticos, sindicatos e associações.

Foto de: Fernando Frazão / ABr

Jovens Política - Foto Fernando Frazão ABr

Quase metade dos entrevistados não confia na Polícia
Militar, índice semelhantes ao dos que afirmaram ter
participado das manifestações no ano passado

De acordo com a pesquisa, que ouviu mais de 1.130 jovens, entre 15 e 29 anos, em São Paulo (SP). O estudo mostra que 41% dos entrevistados participaram de alguma manifestação pública desde junho do ano passado, mas a grande maioria não confia nas estruturas políticas.

Do total de entrevistados, 60,8% afirmaram não confiar nos partidos políticos existentes no país e 57,79% estão descrentes em relação aos políticos. Outro dado relevante é que 49,82% deles não confiam nas instituições de segurança pública, como a Polícia Militar, e grande parte não crê na mídia televisiva (26,58%) ou nos jornais impressos (15,58%).

O coordenador da pesquisa e docente da Fespsp, Rodrigo Estramanho de Almeida, avalia que os resultados não surpreendem tanto, mas ajudam a dimensionar e a entender um pouco mais o que esses jovens esperam das instituições e o que fazer para aumentar a participação deles na vida política das cidades.

A cientista política e professora da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Centro Unificado de Ensino de Brasília (UniCeub), Raquel Boing Marinucci, avalia que o descrédito dos jovens pode ser atribuído a um longo processo de desgaste das instituições democráticas brasileiras, frequentemente associadas às denúncias de corrupção.

“O regime militar gerou uma justificada desconfiança a tudo que se relacionava a governo e, ao mesmo tempo, houve, a partir da transição democrática, uma aposta bastante alta nas organizações não governamentais, que começaram a ter papel cada mais central na vida política”, explica.

Para a docente, a partir do momento em que as denúncias também atingiram as organizações civis, a fragilidade do maniqueísmo entre governo e não governo aumentou ainda mais a descrença. “Por outro lado, não houve um trabalho pedagógico no sentido de valorizar a atividade política, especialmente, o processo participativo de tomada de decisão”, argumenta.

O advogado e ex-procurador da Fazenda Nacional, Djalma Pinto, lamenta que há muito tempo as notícias sobre política estejam nas páginas policiais dos jornais. Ele cita um levantamento da revista Congresso em Foco em que 224 deputados e senadores são denunciados pela prática de crimes ao Supremo Tribunal Federal.

Para Djalma Pinto, assim que percebem essa deturpação, sobretudo pela falta de punição e de destituição do mandato, os jovens acabam perdendo o encanto e o interesse pela política.

Segurança pública em xeque

Foto de: Arquivo Pessoal

Djalma Pinto - Foto Arquivo Pessoal

Djalma Pinto: "Pessoas sem
compromisso efetivo com a
causa pública e sem capacidade
operacional são alçadas, muitas
vezes, de corporações policiais"

O nível de desconfiança em relação às instituições que cuidam da segurança pública também é altíssimo na pesquisa, afetando também as Forças Amadas (29,12%). Para a professora da UniCeub, os altos índices de violência praticados por policiais podem ter contribuído para o resultado. “A confiança nas instituições, como apontam estudos clássicos na ciência política, está diretamente ligada ao desenvolvimento de uma cultura democrática”, pontua. 

Para a docente, não há como trabalhar essa questão sem se enfrentar a questão da formação dos agentes de segurança, cuidando do aspecto humano, que é a ponta do contato direto com o cidadão.

Já o ex-procurador esclarece que a desconfiança não tem relação somente com o aparato policial do Estado, mas a muitas outras instituições da República. “Pessoas sem compromisso efetivo com a causa pública e sem capacidade operacional são alçadas, muitas vezes, de corporações policiais”, alerta.

Ele acredita que a situação pode ser combatida com a criação de critérios mais rígidos para as nomeações nos cargos de direção, entre eles honestidade, competência e dedicação ao trabalho

Mídia questionada

Ainda que os jovens demonstrem mais confiança nos meios de comunicação do que nos políticos, uma parcela considerável dos entrevistados mostra-se descrente em relação à mídia.

Raquel Marinucci lembra que as fontes diversificadas de informação constituem requisito fundamental para o funcionamento da política democrática. “Por isso, ‘desconfiar’ de uma fonte, buscando outras interpretações da realidade, é algo natural da democracia e extremamente ‘saudável’”, pondera.

De acordo com a professora, os casos em que os meios tradicionais de comunicação – especialmente a televisão – interferiram diretamente no processo político brasileiro são hoje bastante conhecidos e até assumidos pelos próprios veículos.

Para Djalma Pinto, embora a liberdade de expressão seja uma grande conquista da democracia, a autocensura imposta pela mídia – por conveniência econômica ou política – acaba gerando desconfiança nesses jovens.

Na avaliação do advogado, as redes sociais deram mais visibilidade a essa falta de compromisso com a informação isenta e completa dos meios de comunicação, já que levam ao conhecimento público fatos que, sem sua vigilância, seriam ocultados da população.

Confira a pesquisa na íntegra, acesse: https://bit.ly/js_politicajovem

 

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