Por Carolina Alves Em Notícias

Jovens mulheres possuem perspectiva de futuro ampliada

Casamento e maternidade. Expressões que definiam, já na juventude, o futuro da “mulher ideal” para a sociedade brasileira do início do século XX. Atualmente, fazem parte de um leque de perspectivas que se abre diante dos olhos das jovens. A inserção no mercado de trabalho, reforçada pelas lutas feministas, e o incentivo governamental ao acesso ao ensino superior permitem que planejamentos sejam desenhados, além disso, com mais autonomia. Embora ainda haja obstáculos a serem transpostos, os horizontes de muitas jovens já vislumbram os moldes contemporâneos.

Foto de: Arquivo Pessoal

Maria Carolina - Arquivo Pessoal

"É quase incomum hoje
em dia essa perspectiva
de estudar-trabalhar-casar, 
a maioria para antes do casar, 
quase ninguém mais quer isso",
analisa Maria Carolina Moraes

“Hoje se alguém pergunta quais são meus planos para o futuro, a primeira coisa que penso é realização profissional, porque sem dúvida é a condição que garante estabilidade para alçar outros ideais, como por exemplo, constituir uma família”, conta a estudante de jornalismo, Maria Carolina Dias de Moraes Borges, de 20 anos.

No começo do século XX, pensar como Maria Carolina estava fora de questão. Desde jovens, o papel social das mulheres brasileiras que residiam nas grandes cidades era restrito ao âmbito doméstico, como explica a historiadora Lorena Féres da Silva Telles. “As mulheres eram criadas para se casar, aquelas que não se casavam, que eram mães solteiras ou que não eram casadas, tanto no civil como na Igreja, eram discriminadas.”

Contudo, a dedicação, principalmente, das mulheres que compunham a camada menos favorecida da época e trabalhavam em fábricas ou como empregadas domésticas, em enfrentar e questionar a desigualdade de gênero, transformou o setor trabalhista. “A partir do pós-segunda guerra, na época de 1950, principalmente nas décadas de 60 e 70, com o movimento feminista, houve um rompimento grande, especialmente dessas mulheres da classe média. A entrada no mercado de trabalho foi uma conquista para elas que eram muito fechadas no mundo doméstico”, elucida Lorena.

O esboço de futuro da estudante de jornalismo, Carolina Freire Neves, de 21 anos, também é fruto da oportunidade de escolha ocasionada por essas conquistas. Planejando ingressar em uma pós-graduação assim que terminar a faculdade busca, em primeiro lugar, a estabilidade profissional e financeira para depois pensar em formar uma família.

A universitária destaca as mudanças, ainda que a caminhada não tenha parado por aí. “Acredito que as jovens de hoje têm um espaço preparado anteriormente por outras gerações, no qual uma mulher conquistar sua independência por meio dos estudos e do trabalho não é mais vista como um disparate. Apesar de ainda haver dificuldades e desigualdade entre os gêneros”, pontua.

Foto de: Opera Mundi / Reprodução

Lorena Telles - Opera Mundi Reprodução

Lorena Telles: "Hoje em dia é mais fácil para elas negarem
esses valores, essas normas sociais. Acho que a autonomia
econômica foi e é muito importante para as mulheres
poderem ter seu emprego, poderem escolher e se livrar de
certas condições"

Assim como Carolina, Lorena Telles observa a geração atual como continuidade dos progressos das décadas de 70, 80 e 90 e acredita que as oportunidades de inclusão acadêmica promovidas por ações governamentais impulsionem esse avanço. “Com o incentivo à inserção no Ensino Superior, muitas mulheres mais pobres, as jovens têm tido maior acesso às universidades, a novos empregos, às novas possibilidades de melhorar o padrão de vida por meio do estudo”, enfatiza. 

 

A historiadora ainda analisa positivamente o resultado do conjunto, uma vez que garante autonomia às jovens. “Hoje em dia é mais fácil para elas negarem esses valores, essas normas sociais. Acho que a autonomia econômica foi e é muito importante para as mulheres poderem ter seu emprego, poderem escolher e se livrar de certas condições.”

Porém, Lorena ressalta que ainda existem questões que necessitam ser superadas em relação ao passado, bem como hábitos presentes, para que o desenvolvimento continue. O sexismo que determina a divisão exclusiva de atividades e papéis “para homens” ou “para mulheres” e inviabiliza a igualdade de gênero; O culto à beleza, a ditadura da magreza e a sexualização, que objetificam a pessoa feminina; o racismo, principalmente para com as jovens, que atravessam um período de construção da autoestima; a violência e o machismo, que oprimem a mulher.

Foto de: Arquivo Pessoal

Carolina Freire - Arquivo Pessoal

Carolina Freire: "Acredito
que as jovens de hoje têm
um espaço preparado
anteriormente por outras
gerações, no qual uma
mulher conquistar sua
independência por meio dos
estudos e do trabalho não é
mais visto como um disparate.
Apesar de ainda haver 
dificuldades e desigualdade
entre os gêneros"

Somado a isso, a desigualdade no mercado de trabalho e a pressão por matrimônio e maternidade também afetam o quadro. “As discriminações salariais existem, a maternidade ainda é vista como responsabilidade, em grande parte, da mulher, da mãe. Se elas optam por investir na carreira, vivem isso de maneira culpada”, aponta a historiadora.

O outro lado da moeda também existe. Apesar de se posicionarem em favor do cumprimento dos direitos da mulher, alguns grupos feministas criticam a escolha do modo tradicional de vida, fato que vai contra o exercício da liberdade proposta por essas novas perspectivas.

 

Enquanto Carolina Freire não sente diferenças do próprio planejamento em relação ao de outras jovens com quem convive nem se sente questionada, Maria Carolina Moraes vive o oposto. “É quase incomum hoje em dia essa perspectiva de estudar-trabalhar-casar, a maioria para antes do casar, quase ninguém mais quer isso. Então, quando aparece uma mulher e diz que pretende, assusta, ‘você é louca?’. Nas conversas entre amigas quase sempre a reação é essa”, relata.

Para Lorena Telles, a solução para o impasse é simples. “Em alguns setores isso é muito criticado, alguns grupos têm essa visão oposta de que tem de ser superado, mas eu acredito que tem de ser respeitado”, conclui.

 

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