Por Allan Ribeiro Em Notícias

Livro traz história linear do catolicismo no país

O catolicismo aportou no Brasil com as caravelas. Ao longo dos mais de 500 anos do país a religião sempre esteve atrelada à sociedade civil. E, com o passar dos anos, os registros históricos foram se espalhando pelo país. Em cada canto uma parte que forma uma grande colcha de retalhos da história do catolicismo no Brasil.

Recentemente, Frei Dilermando Ramos Vieira fez um trabalho minucioso para contar de forma linear o contexto religioso do país. Lançando o livro História do Catolicismo no Brasil, volume I, pela Editora Santuário, o autor relata ao JS os resultados e detalhes desse trabalho: 

Foto de: Arquivo Pessoal

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Frei Dilermando: “Considerando que o
número das publicações sobre a história
da Igreja no país ainda é bastante
modesto, creio que o que não faltam
são problemáticas a serem analisadas
ou aprofundadas”

Jornal Santuário de AparecidaComo o senhor teve a ideia de escrever o livro?

Frei Dilermando Ramos Vieira – Eu observei que, apesar de já existirem algumas obras interessantes a respeito da história da Igreja no Brasil, o número das publicações era bastante limitado e acreditei poder dar um contributo. Colaborou, nesse sentido, os dezessete anos que residi em Roma, tempo este em que me foi possível examinar acuradamente a documentação disponível nos arquivos vaticanos, trabalho que prossegui, mesmo após defender minha tese doutoral, em 2005. Também analisei certas fontes do Arquivo da Torre do Tombo de Lisboa, bem como as de determinados arquivos brasileiros. A isso, acrescentei informações contidas em vários estudos já feitos, o que tornou possível elaborar dois manuais contendo o resultado de tal diligência, e que agora estão sendo disponibilizados para todos.

JSPor quais motivos dividiu o livro em dois volumes?

Frei Dilermando – O período que abordei se estende de 1500 a 1945 e seria tecnicamente inviável deixar tudo num único e enorme volume. Quanto à divisão interna, as relações existem, porque estamos falando do mesmo povo e Igreja, mas, isso não elimina óbvias distinções.

O primeiro abrange o período que vai de 1500 a 1889, e o segundo, de 1889 a 1945; porém, ainda que se trate do mesmo país e da mesma confissão religiosa, é necessário sublinhar que houve profunda mudança de perspectiva na segunda fase. Ou seja, o término do período colonial em 1822, substituído pelo império (1822-1889), impôs evidentes transformações no campo político, mas, no tocante às relações Igreja-Estado, os aspectos essenciais do sistema padroado-regalismo se mantiveram e quem ler a minha obra vai entender como e por quê.

Assim sendo, para a instituição eclesiástica no Brasil, uma mudança real aconteceu apenas a partir da implantação do regime laico republicano. O motivo principal foi que, num ambiente de liberdade, o Catolicismo no país pôde enfim se organizar e manter com Roma relações sem entraves. Até hoje isso é facilmente percebível, pois a maioria das dioceses criadas e das ordens e congregações religiosas estabelecidas em terras brasileiras são de data posterior a 1889. 

JSQual a relação da devoção a Aparecida com a história do Catolicismo no Brasil?

Frei Dilermando – Já existem bons estudos publicados sobre o fenômeno Aparecida, tanto do ponto de vista histórico, quanto sobre seus influxos na piedade popular brasileira, em seus mais variados aspectos. Mesmo assim, deve ser salientado que se tratou de uma devoção nascida e desenvolvida entre o povo simples, num contexto em que a maioria das invocações marianas, não obstante a originalidade do barroco nativo, permanecia fiel aos modelos portugueses. Além disso, sem forçar analogias com Guadalupe, até mesmo a “cor” da imagem pode ter sido um elemento não indiferente no Brasil escravocrata de então. 

JSAinda há detalhes sobre o Catolicismo na história do Brasil que não são tão divulgados? Podemos esperar algo novo com as publicações?

Frei Dilermando – Considerando que o número das publicações sobre a história da Igreja no país ainda é bastante modesto, creio que o que não faltam são problemáticas a serem analisadas ou aprofundadas. Falta, por exemplo, uma “História Documental” ou “Documentário Eclesiástico” da Igreja no país, algo que já existe em certas nações.

Pessoalmente, acho que mereceria ser retomada a questão do regalismo “pombalista” e imperial, a história da vida religiosa no Brasil e as tensas relações do Catolicismo “nacional” com a Maçonaria.

Igualmente interessante, seria abordar o papel dos leigos “apologistas” e das mulheres na Igreja republicana, a situação eclesial no pré-Concílio Vaticano II e questões mais. 

JSPor que é importante estudar a história do Catolicismo no Brasil?

Frei Dilermando – Porque a Igreja Católica é parte integrante da história brasileira desde seus primórdios. Mais que isso, considerando que o Catolicismo foi a religião oficial do país até os inícios de 1890, em muitos casos, num estudo científico, sequer é possível separar os fatos relativos à sociedade civil da instituição eclesiástica. Ademais, a própria cultura popular brasileira, em que pese a presença de outros componentes, ficou profundamente impregnada pelas crenças e práticas católicas. Ainda hoje, isso é percebível, inclusive em vários topônimos de estados e cidades brasileiros, como Santa Catarina, São Paulo e Salvador. Tampouco pode ser ignorada a enorme contribuição dada por clérigos e religiosos a episódios vários do processo formador da consciência nacional. Portanto, entender a história do Catolicismo é entender a história do próprio Brasil.

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