Por Alexandre Santos Em Notícias

Maioria dos jovens se diz contra protestos, mostra pesquisa

Reprodução / Agência Brasil

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Manifestações iniciadas em junho do ano passado comaram conta do país e tiveram adeptos até no exterior

 

Em 2013, a universitária Maria Gabriela de Carvalho, de 21 anos, saiu às ruas de Juiz de Fora (MG) para protestar. Nos cartazes, palavras de ordem contra os aumentos das passagens de ônibus, clamores por maior investimento público em saúde e educação, entre outras reivindicações.

Assim como ela, milhares de jovens protagonizaram uma onda de protestos que ganhou adeptos até fora do país. Tudo começou com um protesto do Movimento Passe Livre, de São Paulo. Uma centelha que incendiou o país.

Cerca de um ano depois, a estudante do curso de Engenharia Sanitária e Ambiental e bolsista do programa Ciência sem Fronteiras mora nos Estados Unidos, onde estuda na Arizona State University. Para Maria Gabriela, os protestos iniciados em junho do ano passado ainda não terminaram. “As manifestações continuam acontecendo, claro que com muito menos adeptos do que ano passado. Mas continuam com pautas um pouco mais centralizadas e marcadas por um intenso clima de revolta”, afirma.

Na opinião da estudante, as manifestações trouxeram mudanças importantes para o país, ainda que pontuais. “Foram vitórias regionais, como a redução das tarifas ou cancelamento do aumento da passagem em algumas cidades. Mas também houve conquistas nacionais, como o anúncio de investimentos no setor de transporte, a destinação de parte dos royalties do petróleo para saúde e educação, e o surgimento de um importante debate sobre a reforma política”, recorda.

Contudo, na opinião de Maria Gabriela, o debate político continua pobre. “Vejo muita gente despolitizada espalhando desinformação. Jovens que mal sabem o que estão dizendo. Poucos se interessam em buscar informações concretas ou consultar mídias alternativas. Muitos culpam um partido ou a presidente por tudo o que acontece. Poucos se interessam, por exemplo, em saber quanto foi repassado para a saúde e a educação no seu município, se houve investimento ou melhoria. Há pouca gente interessada em estudar os governos anteriores, analisar as propostas dos governantes. Falta entendimento de como realmente funciona a política. Ainda tem muita gente sem consciência política”, lamenta.

Maioria contra

Uma pesquisa realizada em maio, pelo Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube), perguntou a mais de 7.800 jovens de 15 a 26 anos: “Há um ano, aconteceram manifestações nas ruas do país. Você foi favorável?” O levantamento revela que quase 42% dos entrevistados afirmaram não serem favoráveis às manifestações, pois, segundo eles, tornaram-se palco para o vandalismo”.

A analista de treinamento e desenvolvimento do Nube, Skarlett Oliveira, justifica. “Talvez muitos se sintam inseguros em reivindicar seus direitos em espaços públicos. A maneira como essas informações chegaram para eles pode tê-los assustado”, afirma.

Mais de 22,5% dos entrevistados declararam apoio aos protestos, mas confessam que só contribuíram através das redes sociais. Apenas 18% afirmaram ter participado das manifestações nas ruas. Pouco mais de 9% disseram não ter apoiado por causa da falta de liderança e de uma politização exagerada do movimento. Outros 6,85% acreditam que nada mudou no país e que o movimento perdeu força.

Para a analista, na época muitas pessoas deixaram de participar por não saber ao certo o motivo pelo qual protestavam. “Ainda é difícil compreender completamente os acontecimentos. Os desdobramentos dos fatos só poderão ser observados daqui a alguns anos”, aponta.

A estudante de História, Maria Júlia Rodrigues, também participou dos protestos de junho do ano passado. Para ela, o principal fruto das manifestações foi ter despertado as pessoas para a importância de expressar o que pensam. “Acredito que a mudança mais significativa foi o fato de o povo estar nas ruas contra a corrupção, clamando por investimentos nos setores públicos e tantos outros direitos garantidos pela própria Constituição. A notória adesão popular às jornadas de junho do ano passado demonstra a força de mobilização da população, iniciativa crucial para o processo de mudança”, argumenta.

Na opinião de Maria Júlia, esse fenômeno foi apenas o início. Segundo ela, o engajamento da juventude brasileira ainda está em gestação. “Os atos do ano passado demonstram como essas questões estão, de alguma forma, na conversa desses jovens, que durante muito tempo foram taxados de pacíficos ou alienados. Ainda falta muita informação acerca de como é possível mudar ou alcançar essas reivindicações. Falta também uma crítica mais apurada acerca dos discursos prontos, dos quais alguns se apropriam de maneira ingênua”, defende.

Maria Júlia, contudo, diz temer que o processo de mudança iniciado se perca. “Meu maior temor é que as melhorias não aconteçam e que a população entre num estado de inércia”, adverte.

Na opinião da analista Skarlett Oliveira, o impacto causado pelas manifestações e a rapidez com que as informações foram divulgadas geram um maior interesse e uma maior oferta de informações em relação à política nas mídias, principalmente na internet. “Como são ferramentas muito utilizadas pelo público jovem, gerou-se um maior interesse sobre o assunto. Isso é um primeiro passo, afinal, perceber as dificuldades do país já é um avanço para quem aspira por mudanças concretas”, opina.

Skarlett ressalta ainda que, após as manifestações, os comentários a respeito das eleições aumentaram nas redes sociais. “Se antes os jovens não se sentiam responsáveis pelas condições do nosso país, hoje decidem em quem votar com mais consciência”, defende.

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