Por Carolina Alves Em Notícias

Marcus Eduardo transforma mundo por engajamento à profissão

“Tenho o hábito de dizer que um economista pode ser, dependendo do engajamento dele, um ‘verdadeiro transformador de mundo’.” Marcus Eduardo de Oliveira é um deles. Dedica a carreira e o intelecto a dar voz aos marginalizados e a trazer à tona assuntos urgentes, dignos de mais destaque na mídia e nas conversas entre amigos. Dessa forma, dissemina as opiniões e as propostas em sala de aula, bem como nas publicações que realiza como articulista e colunista (profissões que construiu em paralelo à carreira de professor).

Foto de: Arquivo Pessoal

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(...) “Mesmo que não possamos, e muito menos
consigamos, por meio da escrita, mudar a ordem
dos fatos econômicos, políticos sociais,
ambientais que aí estão, não é – e nunca será –
‘perdida’ a oportunidade de poder se expressar,
ainda que nossas palavras não alcancem o
mundo ou ainda que recaíam em ouvidos
moucos. Contudo, é nosso dever deixar
registrado uma opinião, indignação, propostas”

Reiterando as palavras do líder pacifista indiano, Mahatma Gandhi, ele é a mudança que quer ver no mundo. Ajuda, por meio do dom que possui – o da palavra – a dar outro rosto ao lugar onde vive. O economista mostra essa vontade de mudança em entrevista ao JS

Jornal Santuário de Aparecida Como foi sua trajetória acadêmica?

Marcus Eduardo de Oliveira – Formei-me em economia em 1994, ano da implantação do Plano Real. Foi marcante esse período, uma vez que tivemos a chance de discutir o que de mais relevante estava acontecendo naquele exato momento na economia brasileira. No ano seguinte, fui fazer a pós-graduação, para tentar entender um pouco de Política Internacional. Depois, fiz uma rápida especialização em Relações Internacionais, na Universidade de São Paulo (USP), completando assim o ciclo “economia-política”, para somente quatro anos depois da graduação concluir então o mestrado em “Integração da América Latina”, também pela USP. Esse momento foi muito enriquecedor pois, a partir desse contato mais íntimo com as “coisas” latino-americanas acabei desembarcando em Cuba, para um período de estágio. Pouco tempo depois, fui para Buenos Aires concluir a pesquisa da minha dissertação de mestrado. No meio desses acontecimentos, tornei-me professor. E lá se vão quase 20 anos de experiência em sala de aula. 

JS – Os temas de seus artigos estão relacionados a questões ambientais, políticas, econômicas e de justiça social. O que lhe atrai para essas áreas?

Marcus Eduardo – Nunca me conformei com a injustiça social existente no mundo e, em especial, no Brasil. Minha vida intelectual sempre foi marcada pela tentativa de entender as causas e os fenômenos que perpetuam a injustiça social e a degradação humana em todas as suas dimensões, especialmente em relação à fome e a miséria. Nenhuma pessoa que conhece como as estruturas econômicas e políticas são montadas, pode aceitar, pacificamente, que em pleno século XXI, haja, a cada cinco segundos, uma criança morrendo de fome; uma pessoa a cada sete padecendo de fome crônica, (...) 500 mil mães, todos os anos, morrendo durante o parto devido à assistência médica insuficiente (...). Isso é uma realidade econômica e social que causa asco e indignação, sabendo-se que o mundo moderno, manipulado na esfera das finanças internacionais especulativas, torra fortunas, por exemplo, em armamentos bélicos (para matar gente inocente) e em futilidades (para satisfazer o ego). (...) Para falarmos de Brasil, vou mencionar apenas um fato: nós somos o segundo país que mais gasta em cirurgias plásticas estéticas no mundo; perdemos apenas para os EUA. O custo médio de uma lipoaspiração por aqui é de R$ 4.000. (...) No entanto, no Brasil de hoje, que gasta fortuna em lipoaspiração e em implantação de silicones, temos 15 milhões de pessoas que todas as noites vão dormir com o estômago vazio de fome. São 15 milhões de pessoas que mantém seus corpos franzinos, (...) não por conta de apelo estético, mas porque não têm o que comer diuturnamente. Esse tipo de indignação é que me leva a tentar entender esse triste e cruel mundo econômico. 

JS –De acordo com seu campo de atuação, quais obstáculos o Brasil tem mais dificuldade de superar? O que pode ser feito para chegar a um resultado satisfatório?

Marcus Eduardo – Vou me referir especificamente ao campo da economia. No meu entender, o principal obstáculo a ser superado é algo (...) tão histórico que tem mais de 120 anos de idade. Estou falando em construir uma economia mais justa, mais fraterna, mais social-solidária, participativa e menos desigual, ou “menos malvada”, como diria Paulo Freire. Nós temos que construir uma verdadeira economia do desenvolvimento, e não do crescimento, como tem sido a tônica comum desde que deixamos o Império e nos tornamos uma República. Digo isso porque o Brasil nunca se desenvolveu. (...) Perdemos mais de 400 anos mantendo duas chagas sociais: o latifúndio e a escravidão. Não por acaso, o Brasil foi o último país do continente a abolir o trabalho escravo. Quando finalmente superamos isso, aos trancos e barrancos, esse país apenas começou a se modernizar, mas não se desenvolveu. (...) As políticas econômicas implantadas no Brasil sempre foram fomentadas para fazer a economia crescer, olhando apenas para o lado físico, quantitativo, empanturrando o mercado de consumo com mais mercadorias e bugigangas, mas nunca esteve voltada para o principal, que é a busca do processo de desenvolvimento, situação em que a vida dos mais necessitados, de fato, é melhorada. Desenvolvimento, portanto, é sinônimo de qualidade de vida, de bem-estar social, e isso não tem nada a ver com o crescimento da economia que te leva, num primeiro momento, a adquirir coisas das quais muitas vezes você não precisa e nem mesmo vai usar. Crescimento, grosso modo, está implícito à ideia de que para você ser feliz é necessário “ter mais”, adquirir coisas, comprar, consumir, acumular. (...) No entanto, o estilo de vida que é “vendido” para nós diz o contrário.

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