Por Deniele Simões Em Notícias

Nova classe C consome mais, mas exerce pouco a cidadania

A chamada classe C cresceu. Se no passado pertencer à classe média não era tão comum, hoje essa classe social compõe a grande maioria da população no país.

Segundo o levantamento da Serasa Experian e Instituto Data Popular, intitulado Faces da Classe Média, já são 108 milhões de pessoas na nova classe C, o que corresponde a 54% da população brasileira.

Ainda de acordo com a pesquisa, a classe média gastou mais de R$ 1,17 trilhão no ano passado, movimentando 58% do crédito no Brasil.

Foto de: Arquivo Pessoal

Rócio Barreto - Foto Arquivo Pessoal

Para Rócio Barreto, nova classe
C está mais acomodada sob o
ponto de vista do exercício da
cidadania

Com renda per capita que oscila entre R$ 320 e R$ 1120, a nova classe média supera em quase 20% a classe média de 1992, que abrangia 34,96% da população, segundo dados da Secretaria de Assuntos Estratégicos do Governo Federal.

Segundo o cientista político e sociólogo da Universidade de Brasília, Rócio Barreto, a absorção de pessoas que pertenciam às classes D e E pela classe C é fruto do aumento do consumo em função da ampliação da renda.

Ele ressalta que essa mobilidade é comum nas sociedades capitalistas, mas deveria incluir aumento da educação, ampliação da cidadania e da democracia através da participação política. “Isso retiraria do homem uma postura meramente contemplativa, para inseri-lo também no cerne das questões do contexto social em que vive e que ajuda a construir”, pontua.

Para Barreto, os principais fatores que proporcionaram o aumento da renda do brasileiro e a expansão da classe C foram a valorização do salário mínimo, a inflação baixa – se comparada a dos últimos 20 anos –, a criação de programas de transferência de renda, a aposentadoria rural e o maior acesso aos cursos superiores, o que difere de ampliação do acesso à educação.

O sociólogo define o perfil da nova classe C como mais acomodado sob o ponto de vista do exercício da cidadania. “Têm sonhos e objetivos calcados em consumo capitalista egoístas”, explica.

Como exemplo, ele cita a mentalidade vigente de que ter condições de comprar um carro, por exemplo, é melhor do que viver em uma cidade em que o transporte coletivo funcione com qualidade.

Outro aspecto latente na nova classe C, segundo o sociólogo, é a falta de planejamento na hora de comprar um bem durável ou poupar o dinheiro. “Mudaram de classe, porém sem uma educação financeira que pudesse tirá-los das armadilhas do consumo exagerado, o que para os bancos e comércio é ótimo”, assegura.

Novo perfil exige mudança de postura do empresariado

O levantamento da Serasa Experian e Instituto Data Popular projeta que a classe média não deve parar de crescer e a estimativa é que essa fatia da população chegue até 58% até o ano de 2023.

Ainda segundo a pesquisa, a projeção é que a injeção de recursos na economia do país via classe C aumente ainda mais, em praticamente todos os setores.

Até o início de 2015, a expectativa é que a classe C consuma 8,5 milhões de viagens nacionais, 6,7 milhões de aparelhos de TV, 4,8 milhões de geladeiras e 4,5 milhões de tablets.

Foto de: Arquivo Pessoal

luiz_gabriel_tiago_foto_arquivo_pessoal

Segundo Luiz Gabriel Tiago,
discriminação no comércio
varejista ainda é grande e exige
atenção

Apesar do alto potencial de consumo, a classe C é vista pela maioria das empresas como uma massa única e homogênea. Não é à toa que muita gente ainda sofre discriminação na hora de ir às compras. 

O consultor empresarial e palestrante Luiz Gabriel Tiago, mais conhecido como Senhor Gentileza, avalia que a expansão da classe C aponta para o crescimento das necessidades dos consumidores. “A exigência não é somente por preço, e sim por mais qualidade na prestação de serviços e garantias que assegurem funcionalidade ao que foi comprado”, aponta.

Para Tiago, a demanda pela qualidade de serviços é importante e estratégica, principalmente se os empresários tiverem uma visão qualitativa a respeito da nova classe C. “Trata-se de uma grande fatia do mercado e não pode ser desmerecida. Deve ser tratada com zelo e respeito, pois podem garantir o sucesso no faturamento de muitos prestadores de serviços e vendedores de produtos”, acrescenta.

Tiago ressalta que um dos lemas do comerciante deve ser atender a todos e sem discriminação. “Sempre digo nas minhas apresentações dedicadas a vendedores: “A gente nunca sabe quem está atendendo. Pode ser aquela pessoa que vai mudar sua vida. Então aproveite o contato a faça o melhor atendimento da sua carreira”, ressalta.

O consultor admite que a situação no comércio varejista requer atenção, já que é comum a discriminação em função da aparência física do cliente. Para Tiago, esse tipo de comportamento assola qualquer um e não é profissional. O importante, em todas as situações, é ser gentil para o entendimento do outro e a percepção de que as pessoas possuem valores, que não são monetários. “Como vender bem sem saber se colocar no lugar do próximo? Isso é fato e, se aplicado corretamente, pode auxiliar e muito no processo de vendas, seja para a classe A, B ou C”, orienta.

Educação e acesso à informação

A pesquisa Serasa Experian e Data Popular também analisou o perfil da classe C. Um dos itens avaliados foi a escolaridade. Pelo levantamento, 16% da classe média, ou 11,6 milhões de pessoas formam o grupo mais escolarizado, onde 42% cursam ou já concluíram o ensino médio e, 19%, o ensino superior.

Essa fatia é responsável por consumir R$ 276 bilhões anualmente, priorizando os gastos com educação, eletroeletrônicos, turismo internacional, tecnologia, veículos e entretenimento.

A maior parte dessas pessoas está distribuída na região Sudeste (48%), seguida do Nordeste (17%), Sul (18%), Centro-Oeste (9%) e Norte (8%). O Data Popular aponta também que os gastos com mensalidades escolares tiveram alta de 116% nos últimos 12 anos.

Foto de: Serasa Experian / Data Popular

Evolução Classes Econômicas - Serasa Experian_ Data Popular

Na avaliação de Barreto, a percepção da classe C em relação à educação está mais relacionada ao quesito “status”. Ele atribui os números em boa parte ao aumento dos investimentos em educação, via incentivos do Prouni e do governo federal para o ensino superior privado.

“Outro fator que determinou maior interesse no ensino público superior foi o acesso à internet”, salienta. Para o sociólogo, isso permitiu também o acesso ao mundo globalizado.

Fenômeno abrange América Latina

Pela primeira vez em 10 anos, a América Latina tem 580 milhões de pessoas vivendo na classe média. A informação é do Banco Mundial para a América Latina e foi divulgada durante uma conferência internacional no México, no início de junho.

Segundo o Banco Mundial, o percentual da população com renda acima de US$ 50 por dia não chegava a 20%, há 10 anos. Hoje é de 32%.

Os dirigentes do organismo avaliam que o avanço da classe média deve ser comemorado, mas apresenta novos desafios para os gestores da região, já que o bom desempenho deve-se, basicamente, a programas de caráter social. 

Foto de: Reprodução

Classe C - Foto Reprodução

De acordo com o Banco Mundial, ainda que as metas de redução da pobreza extrema tenham sido alcançadas, é necessário aumentar os investimentos em infraestrutura e diminuir os custos de logística; investir em educação de alta qualidade e na capacitação de trabalhadores. 

O sociólogo Rócio Barreto lembra que o aumento da renda tira as pessoas da invisibilidade, colocando-as em uma melhor condição cidadã. Porém, o aumento da educação, a ampliação da cidadania e da democracia, através da participação política, são fundamentais para retirar as pessoas de uma postura meramente contemplativa, inserindo-as também no cerne das questões do contexto social em que vivem e que ajudam a construir.

Cresce número de empreendimentos

Com a mudança do perfil da classe média, muitas empresas têm aproveitado para criar programas específicos para atingir esse público. É o caso de um laboratório em São Paulo (SP), que criou um programa de atendimento popular.

O diretor médico da empresa, Rafael Munerato, ressalta que o Brasil vive um momento em que a maior parte da pirâmide demográfica está em idade produtiva e que tal fenômeno deve permanecer por cerca de 20 anos.

Foto de: Sérgio Zacchi

Dr. Rafael Munerato - Sérgio Zacchi

Rafael Munerato ressalta
mudanças no setor para
ampliar classes sociais
atendidas

Além disso existe um aumento da oferta de empregos em praticamente todos os setores. Com o aumento da representatividade da classe C na sociedade, o setor de prestação de serviços de saúde tende a se modificar, segundo Munerato.

O programa criado pela empresa oferece atendimento a uma grande fatia da população que não tem convênio médico, utiliza o Sistema Único de Saúde (SUS). “O objetivo é permitir o acesso a esse tipo de serviço por meio de preços diferenciados e mais acessíveis aos que são praticados pelo mercado”, conta.

Segundo o médico, a aceitação tem sido positiva e o número de exames de análises clínicas e o acesso a exames de imagem e de análises clínicas fica mais acessível a todos.

No setor de comércio varejista as adaptações também acontecem. Andréa Bacalão é superintendente de um shopping na região de Campinas, interior de São Paulo. Metade do público do empreendimento pertence à classe C.

O shopping foi criado para atender a demanda dos moradores e da população por centros comerciais e de lazer, já que a cidade tem uma forte malha industrial e comercial.

Andréa ressalta que o shopping tem como estratégia buscar a qualificação constante do mix de lojas, procurando entender o que o consumidor realmente almeja adquirir e com foco no aperfeiçoamento do atendimento.

Ela acredita que a classe C está mais exigente quando o assunto é comércio e tem buscado experiências agradáveis no consumo, produtos duráveis e marcas que refletem os desejos aspiracionais.

De acordo com a superintendente do shopping, as classes C e D têm buscado, além do consumo, entretenimento e lazer de qualidade, temas que os shoppings oferecem através do cinema, praça de alimentação e ambientes de bem-estar.

Consumidores estão mais exigentes

O consultor Luiz Gabriel Tiago acrescenta alguns facilitadores que permitiram o crescimento da classe C, como a diminuição nos impostos da linha branca o aumento de empregos com carteira assinada e a facilidade para a formalização de negócios para empreendedores individuais.

Segundo ele, tal crescimento configura uma transformação na sociedade, principalmente em relação ao número de pessoas que passou a pertencer à classe média. Se em 2003 eram aproximadamente 65,9 milhões de brasileiros, a previsão para 2014 é de 118 milhões.

O consultor salienta, entretanto, que as necessidades dos consumidores também aumentaram. Como o acesso a sistemas de financiamento e outras linhas de crédito está mais fácil, acabam investindo em materiais de construção, adquirem eletrodomésticos, celulares, computadores e automóveis.

Foto de: Retorno Comunicação

Shopping Hortolândia - Foto Retorno Comunicação

Shopping Hortolândia, na região de Campina (SP),
tem 50% do público formado por pessoas da classe
média

“Vemos, nesse caso, que a mudança de comportamento por parte do consumidor também se deu pela adequação dos serviços e produtos a esse público”, justifica. 

As empresas que se anteciparam e se preocuparam em atender essa demanda atingiram uma porção bem importante do mercado que pode determinar o sucesso e o fracasso de um empreendimento. Isso porque, além de ter poder de compra, a nova classe C também forma opinião.

O consultor avalia ainda que o brasileiro está desenvolvendo o hábito de questionar e reivindicar o que é certo em relação aos produtos que compra, como prazos de validade, relação custo-benefício.

A dica do Senhor Gentileza para os prestadores de serviço e vendedores de produtos é sempre priorizar o bom atendimento. Afinal, atender as pessoas sem distinção de classe social, cor, religião ou condição sexual é condição básica para o sucesso de qualquer empreendimento, seja qual for o segmento.

“A qualidade no atendimento deve ser baseada na prática de valores, mesmo porque, o consumidor está cada vez mais exigente e as campanhas de conscientização são muito eficazes e populares na nossa sociedade”, aponta.

Tiago acredita que o maior desafio ainda seja a prática da gentileza do outro lado do balcão. “Atender e vender de forma cordial, educada e humana são a receita para o sucesso. O problema é que as empresas pressionam cada vez mais e acabam se esquecendo do principal, que são seus colaboradores”, conclui.

 

 

 

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