Por Alexandre Santos Em Notícias

Novo reitor fala sobre desafios, surpresas e experiências

No dia 2 de fevereiro, o padre João Batista de Almeida tomou posse como novo reitor do Santuário Nacional de Aparecida. Ao voltar 11 anos depois, a primeira impressão foi de surpresa com o crescimento do Santuário.

Foto de: Eduardo Gois / JS

Pe. João Batista - Eduardo Gois JS

"Vivi sete anos na Região Norte.
Só agora, com a televisão,
Aparecida tem alguma visibilidade
lá. Naquela região, Aparecida ainda
é desconhecida. Agora, para a Igreja
aqui do Sul, Sudeste, Centro-oeste
e parte do Nordeste, Aparecida é
uma referência. O Santuário se
tornou um grande catequista e o
grande altar onde o Brasil celebra
diariamente"

Um mês depois, ele conversou com o JS sobre os desafios do cargo e sobre as experiências que acumulou nas missões onde atuou.

Jornal Santuário de Aparecida Quais as primeiras impressões do senhor ao voltar agora como reitor do Santuário?

Padre João Batista de Almeida – A primeira impressão foi de surpresa, porque eu conhecia o Santuário de 11 anos atrás. Nesse tempo, evoluiu muito em serviços, em obras e até em número de peregrinos. Então, foi uma certa surpresa o que me ocorreu nos primeiros momentos.

JSQuais sãos os maiores desafios de assumir a reitoria?

Padre João Batista – Dar sequência a um trabalho que vem sendo feito há 120 anos, quando os redentoristas chegaram aqui. Não há uma ruptura, existe uma sequência. Por isso o Santuário vem registrando esse crescimento no nosso serviço, que é acolher os devotos de Nossa Senhora, celebrar com eles, orientá-los e, na medida do possível, incentivá-los a ter uma participação ativa na sua comunidade local.

Disso decorrem algumas necessidades, como a estrutura de acolhimento, trabalhar o conteúdo da evangelização e assim por diante. A diferença é que estamos no século XXI, e algumas situações mudaram. Não no objetivo, mas sim na metodologia.

JS – Como estão os preparativos para a celebração de 300 anos de Aparecida? Há confirmação sobre a presença do Papa Francisco?

Padre João Batista – – Ninguém tem essa confirmação. Acho que nem ele mesmo. Estamos trabalhando na perspectiva de que o Papa venha e, como ele, claro, muitos peregrinos, muitas câmeras voltadas para Aparecida.

Se tudo isso acontecer, e a gente espera que aconteça, aumenta a nossa responsabilidade, claro, mas também aumenta nossa visibilidade. E aí temos de aproveitar para realizar o que é próprio do Santuário: a evangelização.

JS – Como o senhor vê a importância do Santuário de Aparecida para a Igreja do Brasil?

Padre João Batista – Vivi sete anos na Região Norte. Só agora, com a televisão, Aparecida tem alguma visibilidade lá. Naquela região, Aparecida ainda é desconhecida. A verdade é essa.

Agora, para a Igreja aqui do Sul, Sudeste, Centro-oeste e parte do Nordeste, Aparecida é uma referência, porque recebeu da CNBB o título de Santuário Nacional e também porque, através da televisão, da rádio e da internet, os brasileiros acompanham as celebrações e recebem as informações de Aparecida. O Santuário se tornou assim um grande catequista e o grande altar onde o Brasil celebra diariamente.

JS – O senhor atuou na diocese de Coari. Como o senhor avalia as missões promovidas pela CNBB na Amazônia?

Padre João Batista – Lá a Igreja ainda está em formação, em missão. A maioria dos agentes ainda é de fora. Por isso a preocupação da CNBB. A grande carência da Igreja do Norte é o agente, o missionário.

A Igreja lá tem características diferentes. É muito mais centrada na vida em comunidade, muitas com atividades missionárias intensas. Vive-se mais a partilha, até por uma questão de necessidade, pois os recursos não são grandes. Um socorre o outro em suas necessidades.

JS – As maiores necessidades na Igreja Amazônica estariam relacionadas ao aspecto material?

Padre João Batista – Nem tanto, é mais pessoal mesmo. A pobreza não é o maior problema. É que depende muito ainda dos agentes, que são pouquíssimos. Há comunidades, por exemplo, que têm missa apenas uma vez ao ano, porque não há padres.

Aqui, se não tem padre na comunidade, a pessoa pode ir até outra paróquia. Lá, as comunidades mais próximas estão a horas, até a dias de navegação.

JS – Quais os maiores aprendizados, nesse tempo em que trabalhou lá?

Padre João Batista – A alegria e a partilha. Não se precisa de muita coisa para viver lá. Nem cama se usa, é rede. Talher é apenas um: só se come de colher. A simplicidade do povo e da Igreja acaba sendo um ponto que facilita a ação pastoral. Agora isso também pode gerar algumas animosidades. As pessoas se acomodam com mais facilidade. Mas o que mais me encantou lá foram essa simplicidade e essa alegria. Outro elemento interessante é o acolhimento. Onde tem um, cabem nove. Ninguém lá deixa de ser acolhido.

JS – O senhor também atuou nos Estados Unidos. Como é a realidade de lá?

Padre João Batista – A Igreja Católica lá é minoria. A cada quatro americanos, um é católico. Por isso, eles são mais comprometidos com a comunidade.

As paróquias não têm a extensão territorial que têm aqui. Lá, um pároco cuida da igreja, de uma escola e só. O relacionamento se torna muito mais próximo.

A Igreja americana é formada por imigrantes. Você encontra pessoas da Irlanda, do Vietnã e, nas últimas décadas, latino-americanos. Lá, a Igreja tem um rosto latino e asiático, porque as vocações têm surgido principalmente desses grupos.

JS – A gente ouve falar de crise vocacional no mundo. Essa crise também atinge o Brasil?

Padre João Batista – Com certeza. Inclusive nós, redentoristas da província de São Paulo. E por quê? Primeiro porque a vocação sacerdotal e religiosa já não atrai tanto, hoje há muitas outras situações. Segundo, a mentalidade do mundo hoje é muito mais secularizada do que religiosa. Outro motivo é que os casais antes tinham muitos filhos. Hoje são dois, três, às vezes, um.

São muitas razões, mas talvez a mais séria de todas sejamos nós, padres e religiosos. Falamos pouco sobre vocação. Nossos antepassados se empenhavam mais em convidar os jovens. É preciso chamar. Se não, ninguém vai vir.

 

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