Por Deniele Simões Em Notícias

Rogério Gomes aborda vigilância digital com enfoque teológico

O sacerdote e doutor em teologia moral pela Accademia Alfonsiana de Roma, Rogério Gomes, bate um papo com o JS sobre vigilância e segurança nos meios digitais.

Foto de: Deniele Simões / JS

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Padre Rogério Gomes: "Toda rede possui
ambivalência"

Ele é autor do livro Vigilância e segurança na sociedade tecnológica – fundamentos éticos, lançado recentemente pela Editora Santuário.

Nessa entrevista esclarecedora, padre Rogério Gomes avalia o impacto do uso das redes sociais na vida da sociedade e propõe um denominador comum entre a cultura do encontro, defendida pelo Papa Francisco, e a utilização exagerada da tecnologia.

Jornal Santuário de Aparecida – Hoje o cidadão é vigiado em todos os sentidos, seja por necessidade de autodefesa ou por curiosidade nas redes sociais. Até que ponto isso é negativo para a sociedade?
Padre Rogério Gomes – A vigilância atual é resultante do próprio processo de complexificação social e nem sempre tem caráter negativo. Por exemplo, a vigilância sanitária ou epidemiológica, a vigilância das fronteiras ou de prevenção ao terrorismo, dos pais em relação aos filhos ou por mera curiosidade nas redes sociais, quando não são investidas de comentários danosos, caluniosos ou constituem o cyberbullying. A vigilância passa a ser negativa quando começa a interferir tanto individual quanto comunitariamente, violando a autonomia das pessoas, a privacidade, os dados pessoais com fim de comercialização ou para suscitar uma situação de medo social, servindo para interesses espúrios como a venda de tecnologias de vigilância, e mais grave ainda, quando os governos se utilizam desses dados para exercerem controle e cercear liberdade de cidadãos. Por isso é importante a sociedade tomar a consciência das formas de vigilância para contra vigiar, denunciando aquelas realidades que ferem a dignidade da pessoa.

JS – Como avalia o impacto do Facebook, Instagram e outras redes sociais na vida da sociedade?
Padre Rogério – São recursos importantes que podem dar enorme contribuição social, desde que utilizados de forma responsável. Favorecem a comunicação, a aproximação das pessoas, a difusão de informação e são um espaço para o exercício do livre pensamento. Todavia, essas redes sociais podem ser um ambiente no qual se exerce a vigilância e no qual se escondem muitas ciladas. Toda rede possui sua ambivalência, pode ser usada para fins lícitos e também pode nos capturar nas suas malhas à medida que deixamos nossos traços, quando a utilizamos ou nos tornamos dependentes dela.

JS – O Papa Francisco tem estimulado a Cultura do Encontro, como contraponto ao excesso de virtualização das relações sociais. Como dosar a tecnologia e o contato interpessoal?
Padre Rogério – As tecnologias podem favorecer um ambiente de encontro e até a cultivá-lo, entretanto não substituem o verdadeiro encontro face a face, numa perspectiva evangélica do encontro como fez Jesus com as pessoas, no seu tempo e também buberiana (Martin Buber) e levinasiana (Emmanuel Lèvinas). Elas não captam a sensação do encontro de dois seres humanos, seres da mesma espécie, com histórias de vida e mundos diferentes, com seus profundos mistérios, surpresas, crenças, dúvidas, alegrias e dores. Assim sendo, as tecnologias podem propiciar ambientes virtuais de encontro, incentivá-los, promovê-los para que as pessoas se encontrem umas com outras em espaços fora do mundo virtual, em comunidades para discussão de questões relevantes à vida social, à vida de fé, ao lazer etc. Quanto mais nos integramos humanamente, mais otimizaremos as tecnologias para disseminar o encontro com o outro para a construção de uma sociedade em que possam conviver analfabetos digitais, nativos digitais e tecnófilos, sem nos esquecer de que somos seres humanos e que não podemos nos excluir, e sim aprendermos mutuamente uns com os outros e superar as solidões virtuais e reais para encontros significativos para cada pessoa.

JS – Como surgiu a ideia de abordar o tema da vigilância tecnológica sob a ótica da teologia moral em uma publicação?
Padre Rogério – Surgiu a partir de meu interesse pessoal pela reflexão sobre temas relacionados às novas tecnologias e à necessidade de um tema interessante e original para a dissertação de doutoramento na Accademia Alfonsiana, em Roma. Percebi que havia um campo muito atual e, do ponto de vista da teologia moral, oferecia várias interfaces para a reflexão, bem como o diálogo interdisciplinar com outras áreas do saber. Além disso, estava a inspiração proveniente do Vaticano II, especificamente da Gaudium et Spes 62, sobre o papel do teólogo em dialogar com o seu próprio tempo.

JS – Há poucos livros de teologia moral que tratam desse tema. Que contributos espera oferecer com a obra?
Padre Rogério – De fato. As abordagens desse tema, sob o enfoque da sociologia, do (bio) direito, da (bio) política e das tecnologias de vigilância já possuem uma boa literatura, especialmente no mundo anglo-saxão e na Europa em geral. No que diz respeito à teologia, em geral, o único livro que conheço é de Eric Stoddart, bem como alguns artigos sob um prisma da tradição teológica cristã.
Nesse sentido, a minha contribuição ao leitor é inseri-lo conceitualmente nessa nova realidade que todos estamos envolvidos cotidianamente; ajudá-lo a percebê-la e a ter uma visão crítica em relação aos serviços prestados pela vigilância, que oferecem enorme contribuição social e aqueles que, ao contrário, podem lesar a dignidade humana, a privacidade, a autonomia das pessoas e a sua liberdade. Além disso, demonstrar que a teologia cristã possui critérios importantes à reflexão moral e que podem ser iluminadores ao homem e a mulher de hoje, que vivem em uma sociedade vigiada.

 

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