Por Deniele Simões Em Notícias Atualizada em 27 DEZ 2017 - 12H48

“Temos de passar o Brasil a limpo”, diz dom Guilherme Werlang

O bispo de Ipameri (GO) e presidente reeleito da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Guilherme Werlang, conversa com o JS sobre o atual panorama político e social brasileiro.

Foto de: Deniele Simões / JS

Dom Werlang - Deniele Simões JS

"Esse é um momento muito importante para
nós. Não vejo como desespero, se nós
soubermos trabalhá-lo para crescer na
consciência política brasileira", diz dom
Guilherme Werlang sobre atual momento
político-econômico

Dom Guilherme atendeu a reportagem do JS em conjunto com a rádio 9 de Julho, da arquidiocese de São Paulo (SP).

A seguir, o presidente da Comissão repercute temas como as últimas manifestações populares, a terceirização nas empresas e como o brasileiro pode e deve exercer a cidadania.

Jornal Santuário de Aparecida – Como o senhor analisa as últimas manifestações contra a corrupção e pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff?

Dom Guilherme Werlang – O impeachment não é tão simples de acontecer porque deve haver uma base jurídica para isso. O direito à manifestação é imprescindível, faz parte do jogo democrático e deve ser assegurado. Nós temos, porém, de fazer análise crítica da situação. Uma coisa é o direito da manifestação, mas temos de nos perguntar a quem isso interessa.

Não se resolve a questão por aí. Temos de passar o Brasil a limpo e isso é uma coisa que está vindo já há muito tempo, progressivamente. Há muito trabalho ainda a ser realizado. E, se quisermos, de fato, um país justo, temos de pensar seriamente na reforma política, porque, da forma como está, não se resolverá apenas trocando as figuras que estão nos diversos cargos, seja no Executivo ou no Legislativo.

É necessária uma nova cultura brasileira, em que também o trabalhador, a trabalhadora, o cidadão e a cidadã não pensem em sonegações e em fugir de suas responsabilidades.

Parece que a corrupção é algo que está impregnado e isso não se resolve com apenas um ou dois atos. Enquanto houver manifestações, é um sinal de que nós estamos avançando no amadurecimento da democracia no Brasil. É necessário que o povo possa se manifestar.

Durante a 5ª Semana Social, refletíamos que nós temos ainda uma democracia representativa. E, sem deixar a democracia representativa, nós precisamos partir, sempre mais, na construção também de uma democracia participativa.

A corrupção, está nos três poderes e nenhum deles está isento ou totalmente limpo. Poderíamos olhar, se quiséssemos, o Judiciário, onde há um ministro segurando, há mais de um ano, um voto para a questão do financiamento público das campanhas.

Os três poderes devem estar a serviço da nação brasileira e não trabalharem em função de vantagens para si próprios.

JSAs pessoas costumam cobrar as autoridades somente quando o país enfrenta momentos de desespero. Como mudar essa cultura?

Dom Guilherme Werlang – O povo brasileiro tem de crescer nessa consciência da participação permanente, continuada. Não se pode ser cidadão a cada dois anos, quando acontecem eleições.

Um país se transforma a partir da educação. Nós temos de refletir e repensar isso em todos os níveis. Não somos cidadãos e cidadãs apenas quando nos relacionamos diretamente com a política partidária que governa o município, o estado ou a nação. Temos de ser cidadãos lá no trabalho. Devemos respirar cidadania sendo cidadãos e cidadãs 24 horas por dia, mas essa consciência, infelizmente, ainda está muito frágil no povo brasileiro.

Esse momento pode ser visto como perigoso, muito difícil – e está sendo porque, de fato, coloca em xeque a nossa democracia. Mas, também pode ser visto como um momento ímpar, de graça. É momento de questionamento e de amadurecimento.

É por aí que nós temos de lutar, para aprender, para ver como podemos superar esse momento, mas não apenas focado nessa questão agora que está sendo abordada nas ruas, mas de querermos, de fato, um povo brasileiro melhor, mais participativo, mais maduro.

Esse é um momento muito importante para nós. Não vejo como desespero, se nós soubermos trabalhá-lo para crescer na consciência política brasileira.

JS – Como o senhor analisa a possibilidade de a terceirização ser aprovada no país?

Dom Guilherme – Temos acompanhado o assunto com muita preocupação. Tivemos reuniões, por meio da Comissão, com diversos parlamentares, deputados, senadores e ministros para mostrar a preocupação da Igreja.

As conquistas sociais, que são tão duras de serem buscadas e efetivamente conquistadas, não podem perder agora, em função se ter mais lucro.

A terceirização, evidentemente, é um passo atrás na legislação. Não é possível pensarmos em justiça social com a flexibilização dessas leis que protegem o trabalhador e a trabalhadora, especialmente aqueles que são os mais vulneráveis.

É um momento histórico muito crítico. Evidentemente que as grandes empresas querem usufruir da força de trabalho dos homens e das mulheres, mas não querem assumir as consequências das obrigações sociais para com esses trabalhadores.

Então é muito mais fácil eu terceirizar os meus empregados e qualquer problema social que surja, eu lavo as mãos e eu falo assim, não, ele trabalha na minha empresa, mas ele não é meu funcionário. Isso é fugir da responsabilidade.

JSJá há algo preparado para o Grito dos Excluídos, em setembro, ou ainda é cedo para falar nisso?

Dom Guilherme – Não é cedo. Inclusive, já temos um cartaz impresso. A edição deste ano irá na linha de uma pergunta. Que país e este que destrói, que desmata? Um país que não exerce a cidadania, a responsabilidade. Irá nessa linha de nós nos perguntarmos qual é o país que estamos construindo.

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