Por Alexandre Santos Em Notícias

Tráfico humano: Dom Azcona espera que campanha fortaleça combate ao crime

“Fraternidade e Tráfico Humano  ̶  É para a liberdade que Cristo nos libertou.” Essa é a temática da Campanha da Fraternidade deste ano, realizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com apoio de entidades ligadas à Pastoral da Mobilidade Humana.

Foto de: Alexandre Santos / JS

Dom Azcona - Foto Alexandre Santos JS

Dom Azcona: "Tenho certeza absoluta que, entre políticos
e autoridades, não há o mínimo interesse no assunto. É a
demolição da consciência ética de algumas das nossas
autoridades"

Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) alertam para o aumento dos casos de tráfico humano, trabalho forçado e exploração sexual, que somam cerca 2,5 milhões de vítimas por ano.

O JS conversou com o bispo da Prelazia de Marajó, dom José Luis Azcona, uma das maiores referências do país a respeito do combate a esse tipo de crime.

Jornal Santuário de Aparecida  ̶  Qual a expectativa do senhor em relação à Campanha da Fraternidade deste ano?

Dom José Luis Azcona – Primeiro, espero uma maior conscientização. Não existe, na Igreja do Brasil, a consciência nem aproximada da extensão nem da profundidade desse problema. Se olharmos pela geografia, começando desde o Pará, seguindo pelo Nordeste até o Rio de Janeiro, percebemos que o problema é gravíssimo, unido ao turismo sexual e à exploração sexual organizada de menores, que tem contatos muito claros com as organizações de tráfico humano.

JS  ̶  Trata-se, então de uma realidade espalhada por todo o país. Por que não se ouve falar de uma ação nacional do poder público?

Dom Azcona  ̶  Essa consciência de que se trata de um problema nacional não existe entre nós. Entre as autoridades civis tampouco. Há alguns círculos da Polícia Federal que trabalham nisso, porém, no meu modo de ver, não existe absolutamente nenhuma ação, política pública ou organismo que decida assumir essa problemática, orientando-a na linha da prevenção, da investigação, do atendimento às vítimas, do encaminhamento judiciário e do acompanhamento dos processos até que se faça justiça.

Uma CF abordando esse tema é uma iluminação poderosa de Deus, que vem sobre a Igreja e a sociedade brasileira, numa área de conflito de direitos humanos fundamentais, sobretudo em se tratando de mulheres, muitas vezes até de menores de idade, e de pobres.

JSComo a Igreja pode ajudar?

Dom Azcona – Primeiro com a conscientização. Segundo, a Igreja deve conhecer o que se faz nas diferentes dioceses e prelazias e articular essas ações. Terceiro, organizar a luta. Quarto, colaborar criticamente com as instituições civis e com o governo. É uma colaboração crítica porque eles não vão entrar nesse combate. Tenho certeza absoluta que, entre políticos e autoridades, não há o mínimo interesse. Sabemos, por exemplo, que um ministro do Turismo queria estabelecer um controle sobre o turismo sexual. Porém, depois de dois ou três meses, desistiu. Achava ser melhor entrar dinheiro para o Brasil, mesmo através de uma atividade ilícita e completamente perversa, do que combater essa realidade. É a demolição da consciência ética de algumas das nossas autoridades.

É de uma urgência total que a opção preferencial pelos pobres abarque essa dimensão, que leva ao núcleo daquilo que é o coração de Jesus, a sensibilidade pelos pequenos, pelos humilhados, pelos desprezados. “O Espírito do Senhor está sobre mim, ele me envia para anunciar o ano da graça da libertação do Senhor.”

JSQuais as consequências?

Dom Azcona – Os impactos vêm contra a própria sociedade e contra o próprio ser da Igreja, em criaturas abandonadas, desorientadas e confusas pela mídia, que tem como interesse apresentar uma sociedade consumista, em que você é melhor se tem roupas, vestidos, perfumes franceses etc.

Há uma demolição da consciência antropológica daquilo que é o homem e a mulher. O que está por trás da demolição dos princípio éticos que motivam a mídia em geral hoje entre nós é o que está por trás dos problemas de desigualdade social, da inclinação, da tentação, da sedução diabólica que leva muitos a utilizar essas mulheres para exportá-las, vendê-las, traficá-las, para fazer negócio.

JSO que o senhor tem conseguido realizar na Prelazia de Marajó?

Dom Azcona – Temos conseguido, por exemplo, levar para a Assembleia Legislativa do Pará a necessidade de enfrentar o problema. Através das denúncias da Igreja, da colaboração da Comissão Justiça e Paz (CBJP) do regional Norte II da CNBB e das comissões de justiça e paz das paróquias, levamos à consciência pública essa necessidade e organizar a primeira CPI contra a exploração sexual de menores. Posteriormente, a CPI do Tráfico Humano. De maneira que, do Marajó tem surgido esse grito. Não porque sejamos especialmente qualificados, senão porque a problemática, sendo tão grave, nos lançou a entrar em áreas mais abrangentes, porque se não entramos é impossível enfrentar o problema.

Há também a disponibilidade dos nossos agentes para estarem atentos e denunciarem este tipo de atividade. Assim enveredamos no acompanhamento das vítimas, na defesa dos direitos das famílias afetadas e no encaminhamento de ajuda social a essas famílias.

JSRecentemente uma novela abordou esse assunto. O senhor acha que isso ajudou a conscientizar as pessoas a respeito do problema?

Dom Azcona – Creio firmemente que sim, porque de fato houve denúncias a partir da novela. Segundo, fez entrar na consciência do povo brasileiro essa problemática gravíssima e suas consequências enormes, familiares, sociais e econômicas de todo tipo. Ao mesmo tempo, sabemos que a autora dessa novela sofreu pressões por parte desses grupos. O que indica que a novela impactou neles, que não gostariam que essa realidade fosse levada a público.

 

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