Por Deniele Simões Em Notícias Atualizada em 03 ABR 2019 - 15H27

Vaticano dá sinal verde para beatificação de dom Helder Câmara

A arquidiocese de Olinda e Recife (PE) está em festa. Afinal, dom Helder Câmara, um de seus personagens mais ilustres, que comandou a cúria arquidiocesana por 23 anos, está prestes a iniciar um caminho para ser elevado à glória dos altares.

Foto de: Deniele Simões / JS

 

Dom Fernando Saburido - Deniele Simões JS

Dom Fernando Saburido, arcebispo de Olinda e Recife:
"Cheguei a Recife como arcebispo em 2009 e, desde
então, escuto as pessoas me pedindo para considerar
a possibilidade de iniciar um processo de canonização
de dom Helder"

O processo de beatificação do religioso será aberto no próximo dia 3 de maio, em cerimônia que está sendo preparada pela Cúria e que deverá contar com a presença de grande parte do clero brasileiro.

Tido como um dos religiosos mais influentes do Brasil no século XX, dom Helder Câmara teve como marca a luta pela paz e por justiça social, tendo sido indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz. Foi também um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

O atual arcebispo de Olinda e Recife, dom Antônio Fernando Saburido, que foi ordenado sacerdote por dom Helder, fala com satisfação do sinal verde dado pelo Vaticano para que o processo seja aberto.

“Mandamos uma carta para a Congregação para a Causa dos Santos, em maio do ano passado, pedindo um parecer sobre o nosso desejo de iniciar o processo e a resposta chegou dez meses depois, para a nossa surpresa”, explica.

A surpresa, segundo dom Fernando, reside no fato de as respostas a esse tipo de pedido demorarem um pouco a chegar. Enquanto o retorno à solicitação para a abertura de processo de dom Luciano Mendes de Almeida aconteceu em dois anos, o de dom Helder aconteceu antes mesmo de um ano.

Após ter recebido a resposta da Congregação para a Causa dos Santos, dom Fernando Saburido convocou uma coletiva com a imprensa, no dia 8 de abril, e marcou a data da celebração.

Foto de: Arquivo Instituto Dom Helder Camara

Dom Helder_2 - Arquivo Instituto Dom Helder Camara

Processo de beatificação de dom Helder
será aberto no próximo 3 de maio, em
cerimônia preparada pela Cúria, que
deverá contar com a presença de grande
parte do clero brasileiro

Desde então, a Cúria Metropolitana vem se preparando para a celebração, que vai acontecer na Catedral de Olinda, juntamente com a instalação do Tribunal de abertura do processo, marcando o início da fase (arqui) diocesana. 

O arcebispo emérito da Paraíba (estado vizinho ao Recife), dom José Maria Pires, será o pregador da missa e também a primeira pessoa a ser ouvida pelo Tribunal no processo de beatificação.

Dom José, que hoje está com 96 anos de idade, foi amigo de dom Helder, com quem teve uma convivência muito próxima. “Vai ser uma coisa muito bonita porque foi alguém que conviveu com dom Helder e com ele enfrentou muitas dificuldades em Recife e na região toda. Por isso, será uma bênção de Deus”, pontua o arcebispo de Olinda e Recife.

Após a instalação do Tribunal, o próximo passo será a coleta de um farto material, assim como a entrevista de pessoas que conviveram com dom Helder ou fizeram parte da vida dele, de alguma maneira.

“Muitas pessoas vão ser convocadas para dar depoimentos e aqueles que têm alguma coisa a dizer a esse respeito, algum documento que possa, também, contribuir para o processo devem nos procurar em Recife, fazer o contato conosco para ver como poderemos fazer para escutá-los”, salienta.

Há seis meses, uma Comissão Histórica para tratar do assunto foi constituída e será responsável pelo levantamento de toda a história de dom Helder, inclusive verificando os escritos que o religioso deixou. “Será um documento muito importante e necessário para o processo”, ressalta dom Fernando.

A expectativa dele é que a fase diocesana do processo dure aproximadamente um ano. “Depois, vamos encaminhar tudo isso para Roma para iniciar a segunda fase, que é a fase romana”, conclui.

Repercussão

A partir do momento em que o Vaticano aprovou o processo de beatificação, dom Helder automaticamente passa a ser “Servo de Deus”.

A notícia da aprovação, divulgada no dia 8 de abril, encheu os católicos de alegria, sobretudo os religiosos.

Na data da divulgação, acontecia, em Aparecida (SP), o Seminário Nacional da Vida Consagrada, com a participação de mais de 2.100 religiosos e religiosas.

Os participantes do Seminário receberam a notícia com muita alegria e uma salva de palmas, sobretudo pelo fato de dom Helder ser um religioso e representar a região Nordeste brasileira.

Foto de: Arquivo Instituto Dom Helder Camara

Dom Helder_3 - Arquivo Instituto Dom Helder Camara

Religioso tornou-se referência internacional 
na atuação em favor dos mais necessitados,
além de sofrer duras retaliações e perseguições 
dos militares por sua luta pela liberdade dos 
homens e da Igreja

Na avaliação de dom Fernando Saburido, o clamor do povo pela beatificação do religioso é grande. “Cheguei em Recife como arcebispo em 2009 e, desde então, escuto as pessoas me pedindo para considerar a possibilidade de iniciar um processo de canonização de dom Helder”, conta.

A carta encaminhada à Congregação para a Causa dos Santos foi encaminhada no ano passado, após consulta aos bispos do Regional Nordeste 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Na época, o presidente do regional era dom Genival Saraiva de França. Assim como ele, os demais bispos foram favoráveis à consulta sobre o processo.

De acordo com dom Fernando, o Servo de Deus era uma pessoa muito querida e, acima de tudo, comprometida com a sociedade – especialmente as pessoas mais humildes.

“Vários movimentos sociais foram criados por ele. Ele era também um homem de oração e de muita reflexão”, relata o arcebispo de Olinda e Recife.

Ele cita ainda as muitas vigílias que dom Helder fez em vida e que, geralmente, aconteciam de madrugada.

Outra característica marcante de dom Helder, segundo o arcebispo, era a capacidade de reflexão e síntese para escrever. “As cartas conciliares, por exemplo, que ele escreveu lá em Roma, durante o Concílio Vaticano II, foram feitas na madrugada e já existem 13 volumes publicados”, conta.

Além do material publicado, há inúmeros manuscritos que devem ser não só publicados como utilizados como subsídio no processo de beatificação – o que, na avaliação de dom Fernando, pode fazer com que análise demore um pouco mais, devido à grande quantidade de material que deverá ser verificada.

Os caminhos do “dom da Paz”

Foto de: Divulgação

Casa Frei Francisco - Divulgação

Atividades desenvolvidas com crianças carentes na
Casa de Frei Francisco, em Recife (PE)

Símbolo da luta pelos direitos humanos, dom Helder Câmara tornou-se referência internacional na atuação em favor dos mais necessitados. No período ditatorial, sofreu duras retaliações e perseguições dos militares por suas posturas na luta pela liberdade dos homens e da Igreja. Pelos seus feitos, recebeu mais de 600 condecorações e homenagens dentro e fora do Brasil. 

Ainda jovem, aos 22 anos, ordenou-se padre. Cinco anos mais tarde, Helder Câmara seguiu rumo ao Rio de Janeiro (RJ), onde teve a incumbência de instalar o Secretariado Nacional da Ação Católica Brasileira – a precursora da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

“Ele era um homem pequenino, magrinho, mas quando falava ele crescia”, recorda dom Fernando Saburido. Entre suas expressões marcantes está o fato de falar a linguagem do povo, atendendo não somente as pessoas intelectuais, mas também as pessoas humildes. “Todo mundo gostava de escutar dom Helder, porque ele realmente envolvia, convencia. Era uma pessoa de Deus”, ressalta.

Em dezembro de 1950, apresentou o projeto da CNBB ao então integrante da secretaria de estado do Vaticano, monsenhor Giovanni Battista Montini, que seria eleito Papa Paulo VI. Em menos de três meses, após a eleição do Pontífice, foi fundada a CNBB.

Depois de quase três décadas no Rio de Janeiro, desembarcou em Pernambuco para ser arcebispo de Olinda e Recife (PE), dias antes do golpe militar. Em 1969, criticou a situação de miséria dos agricultores nordestinos. O novo governo acusou-o de demagogo e comunista.

Situações semelhantes o levaram a pronunciar a memorial frase “quando dou comida aos pobres, me chamam de santo; quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista”. Outros fatos remetem às represálias que sofreu, inclusive com sua casa metralhada, assessores presos e assassinados.

Pelos seus gestos, ficou conhecido como “dom da Paz”. Em 1970, foi indicado ao o Prêmio Nobel da Paz, mas, o governo brasileiro promoveu uma campanha internacional para derrubar a indicação, já que ele denunciava a prática de tortura a presos políticos no país. No mesmo ano, a imprensa foi proibida de mencionar o nome do arcebispo.

“Ele enfrentou muitas dificuldades durante o tempo da repressão militar. Tanto que ficou impedido, impossibilitado, proibido de falar através da imprensa. Ele falava no exterior. Nessa ocasião, no Brasil, não era possível. Dom Helder era um homem de muita coragem. Ele não deixava de lado, não. Ele procurava enfrentar as coisas”, lembra dom Fernando.

O Servo de Deus esteve à frente da arquidiocese de Olinda e Recife até 1985, quando se tornou emérito e foi substituído pelo arcebispo dom José Cardoso Sobrinho. Helder morreu em sua casa, no Recife, em 27 de agosto de 1999, devido a uma insuficiência respiratória decorrente de uma pneumonia. Seus restos mortais estão sepultados na Igreja Catedral São Salvador do Mundo, em Olinda (PE).

Amor aos pobres

Foto de: Divulgação

Feira da Providência - Divulgação

Feira da Providência, realizada no Riocentro, para
angariar fundos para o Banco da Providência, idealizado
por dom Helder

A preocupação maior de dom Helder era superar a pobreza. Elaborou vários projetos e instituições, defendendo ideais cristãos de humildade, fraternidade e caridade. Desta luta nasceram diversas obras sociais que ainda hoje mantêm viva a sua luta.

Um dos primeiros passos dele, como bispo auxiliar do Rio de Janeiro, foi a criação de um banco destinado aos mais necessitados: o Banco da Providência. Dom Helder queria instituir um banco para pessoas que, por serem pobres, não tinham acesso ao sistema das instituições financeiras da época. Hoje, os assistidos buscam por alimentos, remédios, pequenos empréstimos, consultas médicas e empregos na instituição. A principal característica desse projeto é a mobilização e a organização comunitária. Para angariar fundos, a instituição promove um bazar, conhecido como Feira da Providência.

No bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, está um conjunto de apartamentos para famílias carentes, outra idealização de dom Helder. Ele teve como objetivo, na época, tirar as pessoas da favela. Com esse gesto buscou conscientizar os cariocas sobre os problemas de moradia e aumento desenfreado das favelas.

Dos inúmeros prêmios recebidos, dom Helder utilizou-se dos recursos para construir a Casa de Frei Francisco, em Recife. A casa atende a 120 crianças e adolescentes em situação de risco social de três comunidades vizinhas. O local oferece oficinas de leitura, informática, inglês, entre outras.

Outra iniciativa de expressão foi a campanha Ano 2000 sem Miséria, iniciada na década de 1990. Dom Helder sabia que não acabaria definitivamente com a fome, mas tinha o objetivo de garantir condições básicas de sobrevivência para toda a população. Para ele, era constrangedor que, às vésperas do segundo milênio do nascimento de Jesus Cristo, milhares de pessoas ainda vivessem na total miséria.

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